O menino dos olhos verdes 63
****************** Episódio 63 ― Lucas **************************
― Alô!? ― Eu disse preocupado.
Arthur atendeu imediatamente e ele estava com uma voz de choro que eu jamais tinha ouvido dele. Foi quando ele disse:
― Lucas! Lucas… meu pai se foi… preciso de você…
― Ah… ― nessa hora, eu fiquei simplesmente sem palavras. ― Eu… eu sinto muito…
Após terminar de conversar com ele o que não tinha sido uma conversa longa, desliguei o telefone e expliquei a situação para o Rafa e para seus pais.
― Ele ficou doente. ― Comecei explicando. ― Ele estava de serviço. Arthur disse que ele amanheceu se sentindo mal… com febre e dores de cabeça. O médico da unidade tratou dele durante dois dias. Ele foi melhorando com o tratamento, mas, do nada, ficou muito pior… o médico, assim que percebeu que se tratava de algo mais grave, solicitou um resgate. Ele estava trabalhando em um posto de guarda na floresta amazônica. O oficial solicitou um helicóptero de resgate via rádio, que foi até o local socorrê-lo. Conseguiram levar ele para um hospital em Manaus, mas ele não resistiu e faleceu. Infelizmente, não havia sinal de telefone lá onde ele trabalhava, então, para ele conseguir telefonar de lá, tinha que andar durante uma hora e meia. Ele não conseguiu falar com Arthur ou com sua mãe logo antes de morrer, mas pediu para que seu médico escrevesse uma carta, que seria entregue caso ele não resistisse. Os médicos ainda estão investigando o que pode ter acontecido, mas é quase certeza que ele contraiu alguma doença na floresta. E, bem… eles vão enterrá-lo amanhã. Arthur convidou todos vocês para o velório.
Não preciso nem dizer que isso tinha estragado o final da nossa viagem, não é? É claro que o mais abalado ali era eu, mas todos tinham ficado mal. A última coisa no mundo que eu queria era ver o Arthur sofrendo. Eu tinha muita consideração por ele. Muita mesmo. Pode-se até dizer que eu o amava, de certa forma. E, ouvi-lo chorar daquele jeito, sem poder lhe dar um abraço de conforto, me deixava extremamente inquieto.
Não tínhamos muito o que fazer. Eu tinha que ir lá ver o Arthur o mais rápido possível, mas também tinha que ver minha mãe antes, deixar as malas em casa, etc. Então eu acabei indo para casa primeiro.
Os pais do Rafa, junto com toda família Mackenzie, me levaram até a minha casa. Eram duas da tarde quando chegamos. Desci do carro e chamei, para que minha mãe abrisse o portão.
― Mãeeee! Mãeeee! Cheguei! Abre aí! ― Gritei.
Depois de alguns instantes, curiosamente, quem abriu a porta foi o seu Humberto…
― Tio!? ― Eu disse surpreso. ― O que o senhor faz aqui? Cadê minha mãe? ― Perguntei.
― Oi, Lucas! ― Ele me saudou alegremente. ― Ah, sua mãe está lá dentro! Entra aí! Como foi de viagem? ― Ele disse e me deu um abraço.
― Foi tudo bem… mas não posso contar tudo agora, tio… estou com um pouco de pressa… o pai do Arthur morreu…
― O pai do Arthur? Ah… coitadinho… ― ele disse comovido.
― É… cadê minha mãe? Só vim dar um oi para ela, mas preciso ir lá no Arthur agora… o senhor pode me levar? ― Perguntei.
― Ah, claro, posso levar sim, sem problemas… e sua mãe está lá dentro…
Entrei dentro de casa correndo e seu Humberto recebeu Rafa e seus pais, que estavam logo atrás de mim.
― MÃE! ― Eu a chamei de novo.
Encontrei ela na cozinha.
― Oi, mãe! ― Eu disse esbaforido.
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― Credo, Lucas, o que aconteceu que você tá desse jeito? ― Ela perguntou preocupada.
― Oi, mãe… ― eu disse. ― O pai do Arthur, meu amigo, acabou de morrer… estou indo me encontrar com ele agora… tudo bem? A viagem deu tudo certo… o Rafa tá aqui…
Fui até ela para dar um beijo.
― Ah… tadinho do Arthur… ― ela disse comovida. ― Que pena… pobrezinho…
― É… a gente conversa quando eu voltar de lá, pode ser?
― Ah… tudo bem sim… mas a gente precisa conversar mesmo, filho… sobre coisas bem importantes…
― Coisas importantes? ― Perguntei surpreso. ― Eu hein, está tudo bem? ― Perguntei.
― Está sim… não se preocupe com isso agora…
― Vou pedir para o tio me levar lá no Arthur, pode ser?
― Claro, filho… e como o Rafa está? ― Ela perguntou.
― Ele tá bem, vem cá, ele tá lá na sala… ― eu disse.
Eu e minha mãe saímos da cozinha e fomos em direção a sala. Quando o Rafa viu minha mãe, ele ficou completamente constrangido e começou a ficar vermelho. Era a primeira vez que eles se viam desde que minha mãe tinha nos pego com a mão na massa.
― Oi pessoal! ― Minha mãe cumprimentou todo mundo. ― Oi, mocinho! ― Minha mãe disse especialmente para o Rafa, que ficou ainda mais vermelho.
― Oi, dona Ana… ― Rafa disse sem graça coçando a cabeça sem jeito.
Minha mãe e os pais do Rafa conversaram um pouco enquanto eu tirava minha mala do carro e levava para o meu quarto junto com o Rafa.
― Você quer que eu vá junto com você ver o Arthur? ― Rafa perguntou para mim assim que entramos no meu quarto.
― Não sei… você quer ir? ― Perguntei.
― Não sei… ― ele respondeu. ― Eu não me importaria de ir, mas ele me pareceu bem mal… não sei se minha companhia ajudaria…
― Não fale bobagens… ― Eu o repreendi. ― É claro que sua companhia ajudaria! Você é amigo dele tanto quanto eu…
― Ah, mas… venhamos e convenhamos, você é mais… e, além do mais, você tem mais tato pra isso que eu… ― ele disse. ― Eu não saberia o que dizer…
― Você não precisa ir lá, se não quiser… ― eu respondi. ― Só não use como desculpa o fato de que você não leva jeito pra isso… como se eu levasse… tenho cara de que sabe o que falar para ele agora?
― Sinceramente? Tem. ― Ele respondeu convicto.
― É claro que não… ― eu discordei. ― Eu não faço ideia do que fazer… do que dizer… ― disse preocupado.
― Foi pra você que ele ligou, Lu… ele está precisando mais de você, que de mim… ― Rafa tentou ser lógico. ― Não sei se ele ficaria confortável comigo lá… o que você acha?
― Ele não ficaria confortável com você lá, ou você não ficaria confortável com ele? ― Perguntei com afronta.
― Ele não ficaria confortável comigo lá, Lu. Como eu já disse, eu não me importaria de ir.
― Droga… porque isso foi acontecer logo agora… ― eu disse e botei as duas mãos na cabeça. ― Justo com o Arthur… ― eu disse com o coração apertado.
― Vem cá… ― Rafa disse e ofereceu um abraço.
Fui até ele e o abracei também.
― Vai dar tudo certo… ― ele tentou me consolar.
― Eu espero que sim… ― concordei.
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Saímos do meu quarto, voltamos para a sala e eu fui me despedir da minha mãe.
― Mãe, estou indo… eu até trouxe lembrancinhas, mas estão na minha mala. Quando eu voltar, eu te entrego… e, por favor, não desfaça minha mala sem mim, não preciso te lembrar que já tenho doze anos…
― Ei! Eu sei bem disso… tudo bem! Mas acho que vou te levar lá também… ― ela disse. ― Vou aproveitar para dar meus pêsames à mãe do Arthurzinho…
― Tá… tudo bem… ― eu respondi.
Depois disso, eu, minha mãe e o tio, nos despedimos da família Mackenzie e entramos no carro do tio. Como o velório já seria amanhã, Rafa achou melhor que eu fosse ver o Arthur sozinho hoje. Ele poderia nos fazer companhia amanhã, caso precisasse. Então me despedi dele e, nós três, partimos para a casa do Arthur.
O tio foi dirigindo, minha mãe foi no banco do carona e eu fui no banco de trás. Quando estávamos quase chegando, peguei meu celular e enviei uma mensagem de texto para o Arthur.
― Eu: Ei, Arthur, já saí de casa… estou quase chegando aí…
Nisso, minha mãe virou para mim e disse:
― Erm… então… Lucas…
Eu travei meu celular e olhei para ela.
― Erm… como eu posso dizer isso? Erm… eu… eu e o seu tio Humberto precisamos conversar uma coisa com você… ― ela disse sem jeito.
― Aqui, agora? ― Seu Humberto perguntou surpreso para ela.
― O que houve? ― Perguntei preocupado.
― Então… erm… com toda aquela história de divórcio com seu pai… e… nesse meio tempo que você ficou fora, viajando… eu meio que… tentei dar mais uma chance aos… como se diz… a questão é… eu e o seu Humberto estamos juntos.
― COMO É QUE É? ― Eu gritei surpreso.
Nessa hora, minha cabeça tomou tela azul da morte.
― Ih, chegamos… ― Tio Humberto disse enquanto parava o carro em frente à casa do Arthur.
― ESPERA Aí! ― Eu gritei enquanto minha mãe e o tio desciam do carro o mais rápido possível.
Espera aí um minuto… se minha mãe estivesse namorando o tio… e se o tio estivesse namorando minha mãe… e se os dois estivessem namorando entre si… e se minha mãe e o tio estivessem juntos… e se os dois agora formassem um casal… e se minha mãe… mais o tio… isso quer dizer que… o tio agora era meu… erm… como se diz? Erm… pai? Então quer dizer que… oi? Como é que é? Hã? Como assim? Que!? COMO É QUE ESSES DOIS COVARDES ME JOGAM UMA BOMBA DESSAS BEM NA HORA QUE CHEGAMOS NA CASA DO ARTHUR!?
Minha mãe tocou a campainha e foi apreciar as flores da entrada enquanto o tio assoviava, olhava para cima e batia o pé como se nada estivesse acontecendo.
― Vocês não podem namorar! ― Eu exclamei. ― Você é minha mãe! E você… você é meu tio! Ewww!
― Não sou seu tio de verdade, Lucas… e você sabe disso… ― ele disse com as mãos na cintura.
― Eu sei! Mas você é meu tio! E aquela mulher é a minha mãe! Mãe!? ― Eu a chamei.
― E qual problema da sua velha mãe querer dar uns beijos de vez em quando, hein? ― Minha mãe me perguntou. ― Você pode e eu não!? ― Ela me provocou.
― Eewwwww! ― Eu disse me sentindo enjoado.
― Ah, mas de velha você não tem nada! ― Seu Humberto disse gentilmente para ela.
― Ah, obrigado, querido! ― Ela agradeceu o elogio e deu-lhe um beijo na bochecha.
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― EEEEEWWWWWWW! ― Eu gritei enquanto sacudia meu corpo com repulsa.
Nisso, a mãe do Arthur, abriu o portão e veio nos receber.
― Ah, Lucas! Que bom que você veio…
Dona Renata era uma mulher baixinha, só alguns centímetros mais alta que eu. Ela tinha cabelos loiros, embora fosse fácil perceber que eles eram pintados, pois as suas raízes castanhas denunciavam a sua verdadeira cor. Apesar de possuir um rosto simpático e bonito, ele não estava em sua melhor forma agora. Ela estava com o luto estampado em sua face. Seus olhos estavam um pouco inchados e as olheiras demonstravam preocupação. Ela vestia um fino casaco de lã azul claro, por cima de sua blusa amarela.
Fui até ela e dei-lhe um abraço.
― Oi, tia Renata… ― eu a saudei. ― Sinto muito pela sua perda… ― eu disse com tristeza.
― Obrigada, Lucas… ― ela agradeceu. ― O Tuts está lá no quarto dele… fique à vontade para ir lá…
― Ah… tudo bem… ― eu assenti.
Minha mãe e seu Humberto ofereceram suas condolências à dona Renata, se despediram de mim e foram embora. Dona Renata me acompanhou até a sala, que estava uma bagunça. A mesa de centro estava coberta por papéis, fotos e uma garrafa de café. Dona Renata pediu desculpas pela desorganização e explicou que estava ligando para todos os conhecidos para avisá-los do ocorrido. Quando ela terminou de me explicar o que estava fazendo, notei que em cima da mesa havia uma lista com vários nomes. Os riscados provavelmente seriam das pessoas que ela já havia ligado. Então ela me disse para ficar à vontade e que eu podia ir lá no quarto ficar com o Arthur, pois ela tinha que terminar de fazer as ligações.
Deixei ela na sala e me dirigi até o quarto dele. A porta estava fechada. Olhei para os lados e dei três batidinhas de leve na porta.
― Arthur? ― Eu o chamei, mas ninguém respondeu. Então decidi abrir a porta.
Me deparei com uma cena que me partiu o coração. Arthur estava sentado no chão, com as costas encostadas em sua cama e com uma foto nas mãos. Apesar de sua cara de derrotado e de seus olhos inchados, até que ele estava bem arrumado para a situação. Ele vestia uma bermuda cinza, uma camiseta preta e seus cabelos estavam no lugar.
Quando ele me viu, seus dois olhos expressaram um sentimento de alívio e ele exibiu um sorriso com o canto da boca.
― Oi… ― ele me saudou. ― Como foi a viagem? ― Ele perguntou com uma voz triste.
Nessa hora, meu coração se apertou. Apesar de todo tempo que passamos longe um do outro e apesar do fato dele estar nessa situação horrível, ele ainda conseguiu ser educado o suficiente para perguntar como tinha sido minha viagem.
― Sinto muito… ― eu disse enquanto entrava e fechava a porta.
― Obrigado… ― ele respondeu. ― Valeu por vir…
Eu balancei a cabeça, gesticulando que não tinha sido nada demais. Me aproximei dele e me abaixei, para sentar ao seu lado. Sentei-me da mesma maneira que ele estava sentado, no chão e apoiando minhas costas em sua cama.
― É ele… ― ele disse, me passou a foto que segurava e me apontou seu pai.
― É a sua cara… ― eu respondi gentilmente.
Ele me olhou e eu olhei para ele. Um segundo de silêncio. Nossos olhares se encontraram e seus lábios começaram a tremer. Em questão de instantes, seus olhos se encheram de lágrimas e ele se pôs a chorar. Ele encostou a cabeça em meu ombro e eu passei meu braço em volta de seu corpo, para abraçá-lo. Ele me abraçou de volta.
― Por que!!???? ― Ele disse para si mesmo.
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― Sinto muito… ― eu disse e encostei minha cabeça na sua. ― Vai passar, Arthur… está tudo bem… pode chorar…
E ele chorou. E como chorou. Eu não sabia bem o que fazer ou o que dizer… mas, neste dia, eu aprendi uma lição muito importante para minha vida… às vezes, o silêncio é a melhor palavra.
Ficamos ali juntinhos enquanto ele chorava. E ele chorou por mais ou menos uns vinte minutos. Ele não deixou passar nem um único segundo. Chorou em todos. Chorou continuamente durante todo esse tempo. Eu, que achava que precisaria dizer alguma coisa, me surpreendi com o poder do silêncio. Eu não precisei falar nada, até porque o que ele queria era minha presença e não as minhas palavras.
Ficamos ali juntinhos. Só eu e ele. Eu sabia que ele precisava chorar. Ele precisava disso mais que tudo. Ele precisava expressar sua tristeza com suas lágrimas. Ele precisava expressar o que estava sentindo. Ele tinha que pôr para fora. E o mundo lá fora podia acabar. Não importava mais. A entropia do universo podia aumentar quanto quer que fosse. Não importava mais. Esse era um daqueles dias em que a vida perdia a graça. Esse era um daqueles dias em que a vida não era mais legal. Esse era um daqueles dias em que ninguém queria seguir em frente, por mais que fosse a melhor coisa a se fazer. Afinal, se seguir em frente fosse fácil, não precisaríamos mais de lágrimas para chorar. Mas não era fácil. Doía. E nada como a dor de ter que superar o passado. Essa dor não era uma dor que doía no braço, nem na perna. Doía num lugar que não existia. Doía num lugar que não podíamos passar a mão para amenizar. Doía num lugar que não sabíamos onde ficava. Criava-se uma ferida num lugar que só o tempo podia cicatrizar.
Depois de todo esse tempo, quando ele finalmente parou de chorar, ele conseguiu dizer sua primeira palavra:
― Desculpa… ― ele disse com a voz rouca.
― Ei… está tudo bem… ― tentei consolá-lo.
― Não queria ser tão fraco… ― ele confessou.
― Você não é… ― respondi. ― Está se sentindo melhor? ― Perguntei.
Ele apenas ergueu os ombros num sinal de ‘tanto faz’.
― Quer se deitar um pouco? ― Perguntei, afinal, ainda estávamos sentados no chão.
― Pode ser… ― ele respondeu.
Eu me levantei do chão e ofereci minhas duas mãos para ele. Ele as segurou e eu o ajudei a se levantar.
― Senta aí… ― eu disse e apontei para sua cama.
Ele fez como eu ordenei e se sentou.
― Você quer água? ― Ofereci.
Ele fez que não com a cabeça.
― Você precisa repor tudo isso que chorou, sua cabeça tá doendo? ― Perguntei.
― Um pouco… ― ele respondeu.
― Não quer mesmo? Eu pego pra você… ― ofereci mais uma vez.
― Tá… pode ser… ― ele aceitou.
― Beleza… espera aí que eu já volto.
Saí do quarto e fui em direção a sala. Encontrei a mãe dele sentada no sofá telefonando, mas ela já estava se despedindo. Ela viu que eu apareci na sala e encerrou a conversa no telefone.
― E aí? ― Ela perguntou. ― Como ele está?
― Ele chorou bastante, tia… mas agora já parou… vim pegar água pra ele… tem aqui?
― Ah… sim… claro… eu pego pra você…
Fui com ela até a cozinha, onde ela me serviu um copo de água.
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― Você também quer um? ― Ela perguntou.
― Não, obrigado, tia. Estou bem. Vou levar esse aqui pra ele.
― Tá…
Virei as costas para sair e caminhei em direção à saída da cozinha com o copo de água nas mãos.
― Lucas… ― ela me chamou.
Olhei para ela e ela disse:
― Obrigada…
Fiquei um pouco sem graça, mas respondi educadamente.
― Que isso, tia… é o mínimo que eu posso fazer por ele…
Depois disso, saí da cozinha e voltei para o quarto do Arthur. Assim que entrei, fui surpreendido ao encontrar o pobrezinho do Arthur dormindo. Tadinho, me partiu o coração.
Ele, do jeito que estava, apenas caiu de costas na cama e apagou. Seu rosto estava com uma expressão calma e tranquila. Acho que agora ele devia estar dormindo em paz.
Deixei o copo de água no criado mudo e me sentei na cama, junto com ele. Passei a mão em seus cabelos e tirei os fios rebeldes de seus olhos, que agora estavam fechados e sonhavam com os anjos. Dei um beijinho em sua testa e disse baixinho:
― Dorme bem, Tuts…
Deixei ele ali dormindo, saí do quarto, apaguei a luz e fechei a porta. Daí me dirigi até a sala, onde encontrei novamente Dona Renata.
― Ele pegou no sono, tia… ― eu disse e apontei para trás, em direção ao quarto.
― Ah… sinto muito, Lucas… desculpa ele ter feito você vir até aqui para acabar dormindo…
― Ah, relaxa, tia… tem problema não… ele devia estar cansado…
― É… pois é… acho que ele nem dormiu essa noite…
― Tadinho… ei, tia… tem alguma coisa que eu posso fazer pela senhora? ― Perguntei.
― Ah… não, não… eu terminei de ligar para todo mundo que precisava… então… agora estou arrumando as coisas aqui… ― ela disse e apontou para a mesinha da sala. ― Senta aí! ― Ela disse e apontou para o sofá.
Me sentei no sofá que estava livre e fiz companhia para ela.
― Hum… e como a senhora está, tia?
― Ah… eu estou bem… quer dizer… ainda estou muito chocada com o que aconteceu, mas… acho que quem está sofrendo mais é o Tuts mesmo…
― Eles eram muito próximos? ― Perguntei.
― Sim… o Ângelo costumava viajar muito nesses serviços que ele tirava, mas o bom é que volta e meia ele tirava bastante tempo para ficar de férias. Quando ele estava por aqui, ele ficava o tempo inteiro com o Arthur… os dois deviam morrer de saudades um do outro toda vez que ele ia embora…
― Entendo… ― eu disse.
― Ele pegava esses serviços longes porque ganhava muitas bonificações… e ele achava que seria bom juntar um dinheiro extra para quando o Arthur crescesse, sabe? Toda vez que ele voltava para casa, trazia toneladas de presentes… para mim e para o Arthur… ele adorava surpreendê-lo.
― Ele parecia ser um ótimo pai… ― eu disse.
― Ele era… ― ela respondeu triste. ― Ele era…
― Sinto muito, tia… ― eu disse mais uma vez.
― Ah… está tudo bem, Lucas… obrigada…
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― Tia, a senhora se importa se eu dormir aqui hoje? O Arthur me pareceu bem mal… e acho que minha companhia faria bem para ele…
― Ah, Lucas… você estaria disposto a fazer isso?
― Sim, claro. É que agora que ele dormiu, acho que eu podia aproveitar para ir lá em casa arrumar minhas coisas e daí eu voltava para cá…
― Tá… tudo bem… você quem sabe… precisa de carona para voltar pra casa?
― Ah, não… eu ligo para minha mãe… a senhora não precisa se incomodar com isso…
― Tá… tudo bem… obrigada mais uma vez, Lucas.
― Sem problemas… ― eu disse coçando a parte de trás da cabeça sem graça.
E assim fiz. Liguei para minha mãe, para que ela viesse me buscar aqui na casa do Arthur. Aproveitaria esse tempo para desfazer minha mala da viagem, tomar um banho, conversar com minha mãe e com o seu Humberto e depois voltar para cá.
― Alô? ― Minha mãe atendeu.
― Mãe… sou eu… o Lucas… é… você pode vir me buscar? ― Pedi.
― Quem é? ― Ouvi alguém perguntando para minha mãe do outro lado da linha.
― É o Lucas… ― Ela respondeu para a pessoa que havia perguntado.
― Mãe!? ― Eu a chamei.
― Oi, filho! Mas você já vai embora? Você acabou de chegar…
― É… pois é… eu acho vou dormir aqui hoje, mas preciso pegar minhas coisas aí em casa primeiro… ― eu expliquei.
― O que ele quer!? ― A voz do outro lado da linha perguntou para minha mãe.
― Ele quer vir embora! ― Minha mãe respondeu.
― Mas já!? ― A pessoa perguntou.
― Sim! Foi o que eu disse! ― Minha mãe respondeu.
― Alô! Mãe! ― Eu a chamei. ― Eu estou ouvindo o seu Humberto aí… diz pra ele que assim que eu chegar, nós três teremos uma conversinha…
― Vish… ele disse que assim que ele chegar, nós três teremos uma conversinha… ― minha mãe disse rindo para o seu Humberto.
― Mãe! ― Eu gritei por ela me fazer de piada.
― Tá, Lucas… seu sem graça… já estamos indo aí… fica na porta… ― ela disse.
Depois disso, me despedi da mãe do Arthur e disse que voltaria dentro de algum tempo. Saí da casa deles e fiquei lá fora esperando minha mãe vir me buscar. Bom, acontece que, minutos depois, chegaram os dois figurões. Dona Ana e seu Humberto… quem diria, hein? O carro parou e eu os recebi de braços cruzados.
― Agora vocês só andam juntos, é? ― Perguntei assim que eles abaixaram o vidro do carro.
― Lucas Henrique! ― Minha mãe me repreendeu. ― Entra logo no carro!
Entrei no banco de trás e olhei para os dois. O tio deu partida e saiu.
― Então… ― eu comecei. ― Quem foi que deu em cima de quem primeiro!? ― Perguntei na cara de pau.
― Lucas! ― Minha mãe me repreendeu novamente.
― Foi você, né, mãe!? ― Eu a questionei. ― Tinha que ser!
― LUCAS! ― Minha mãe me repreendeu mais uma vez.
― Ah, Ana, o garoto tem direito de saber… ― o tio me defendeu. ― Bem, Lucas, ninguém deu em cima de ninguém, se é o que você quer saber… partiu de nós dois… ― ele explicou calmamente.
― Hmm… ― eu disse e fiz bico não me mostrando satisfeito com a resposta. ― E o quão sério é? ― Perguntei.
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― Ah… ― o tio respondeu. ― Estamos indo devagar… até porque também nos preocupamos com você… e não queremos causar desconforto em você… mas eu gosto muito da sua mãe e estou disposto a trabalhar para fazer isso dar certo… então, se dependesse só de mim, eu diria que é sério.
― E você, mãe? ― Eu perguntei para ela.
― Ah, Lucas… nós dois nos conhecemos tem um bom tempo… ― ela disse. ― Nós dois nos damos bem… vocês dois se dão bem… então… não vejo porque não dar uma chance…
― Entendi… ― eu disse ainda sem entender bulhufas about whata fuck was happening.
Esse dia já estava pra lá de bizarro. O que será que ainda podia acontecer?
― E aí? ― Seu Humberto disse. ― Não vai dizer nada?
― O que quer que eu diga? ― Perguntei.
― Você nos dá sua benção? ― Ele perguntou.
― Minha benção!? ― Eu indaguei. ― E vocês lá precisam da minha benção?
― Bem… se você aprovar, não teremos mais nada no nosso caminho… e poderemos dar continuidade às coisas. ― Ele explicou.
― E se eu não aprovar? ― Perguntei.
― Mas você desaprova? ― Ele perguntou.
― Não. ― Respondi.
― Então você aprova? ― Ele perguntou feliz.
― Não. ― Respondi.
― Ué! ― Ele disse sem entender.
― É que… mas e quanto ao bebê? ― Eu questionei.
― O que tem o bebê? ― Ele perguntou.
― Sei lá… ― eu disse. ― Ele vai nascer dentro de pouco tempo. O senhor assumiria a paternidade? ― Perguntei.
― Lucas! ― Minha mãe reclamou da minha pergunta indiscreta.
― Ah… ― ele foi pego de surpresa pela minha pergunta. ― Bem… faltam alguns meses ainda, para ele nascer… nós não sabemos a que pé estaria nossa relação até lá… eu, sinceramente, não teria problemas em ajudar na criação… mas assumir a paternidade é algo que não depende só de mim… ― ele disse e olhou para minha mãe.
― Lucas, já chega! ― Minha mãe disse. ― Independente da sua aprovação, vamos continuar juntos. Desculpe, mas é um direito meu. ― Ela disse.
― Tá! ― Eu desisti. ― Eu aprovo os dois. Aff… não acredito que estou fazendo isso… tá! Foda-se! Têm a minha benção. Felizes? ― Perguntei.
― Obrigado, Lucas. ― O tio disse. ― Significa muito para mim. Para nós. ― Ele disse e olhou para minha mãe.
― Tá… mas só quero deixar bem claro que a quantidade de presentes lá naquela casa vai ter que aumentar. Rum.
Os dois riram do meu comentário.
― Aumentar muito. ― Eu disse e cruzei os braços.
Não demorou muito para chegarmos em casa. Assim que chegamos, mantive o plano e fui tomar banho. Desfiz minha mala da viagem e retirei as lembrancinhas que tinha trazido para minha mãe, para o tio e para o Arthur. Já que veria ele em breve, acho que seria bom presenteá-lo. Separei as coisas que levaria para a casa do Arthur e as guardei dentro da minha mochila. Agora que estava pronto para ir, peguei o telefone e liguei para o Rafa.
― Alô!? Lu!? ― Ele me atendeu.
― Oi… Gatinho… tudo bem?
― E aí? Como está? Você tá no Arthur? ― Ele perguntou preocupado.
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― Ah… então, eu fui lá… me encontrei ele, conversamos um pouco, ele chorou bastante e acabou dormindo… agora tô em casa…
― Ué… mas você já voltou de lá? ― Ele perguntou.
― Ei… então… sobre isso… eu tava pensando… tudo bem pra você se eu passar a noite lá com ele hoje?
― Ah… sem problemas, por mim, eu acho… ― ele disse.
― É que ele pegou no sono agora… daí aproveitei para vir aqui em casa, desfazer minha mala e preparar uma mochila para levar e passar a noite lá com ele…
― Hmm… entendi… não precisa se preocupar comigo… ― ele disse gentilmente.
― Ei… você não vai acreditar…
― O que? ― Ele perguntou.
― Minha mãe tá namorando…
― É O QUE!? ― Ele gritou do outro lado da linha.
― É… pois é… dá pra acreditar?
― Ela tá namorando quem? ― Ele perguntou.
― Meu tio… ― eu respondi.
― SUA MÃE TÁ NAMORANDO O IRMÃO DELA? ― Ele gritou.
― Não! O tio Humberto! Ele não é meu tio de verdade! ― Expliquei.
― Sua mãe tá namorando o seu Humberto? ― Ele perguntou surpreso.
― Aham… ― eu disse rindo.
― Por que!? ― Ele perguntou indignado.
― Eu sei lá! ― Eu disse rindo. ― Vai entender… eu só sei que cheguei de viagem e fui surpreendido com isso.
― Eita… e como você reagiu? Você tá de boa com isso? ― Ele perguntou.
― Ah cara… sei lá… é estranho… sempre gostei muito dos dois… e vê-los assim… sei lá… é esquisito demais… mas, se eles se gostam, quem sou eu para falar alguma coisa… ― expliquei.
― Entendi… nossa… que isso… estou chocado… ― ele disse rindo.
― É… pois é, Gatinho… agora acho que vou voltar lá no Arthur e esperar ele acordar. A mãe dele disse que ele passou a noite em claro, por isso caiu no sono agora…
― Coitado… ele tava muito mal? ― Ele perguntou.
― Então… ele me pareceu bem abalado. Mas sei lá… é uma situação difícil… ele chorou muito quando eu cheguei lá… deve estar sendo muito difícil para ele…
― Entendo…
― Então… mas era isso que eu queria falar contigo, Gatinho. Vou passar um tempo com ele, que ele tá precisando de um ombro amigo… mas a gente se fala, tudo bem?
― Claro… sem problemas… mande um abraço pra ele… fala que a gente se encontra amanhã, lá na cerimônia…
― Tá… tudo bem… eu falo sim… ― eu disse.
Despedi-me dele e desliguei o telefone. Agora que eu já tinha arrumado minha mochila, saí do meu quarto e fui até a sala, onde encontrei minha mãe e seu Humberto juntos no sofá.
― Uh-rum… ― pigarreei.
― Ah… oi, Lucas… ― minha mãe disse.
― Aqui, mãe… trouxe isso pra você… ― eu disse e entreguei-lhe uma concha, escrito Porto de Galinhas. ― E isso é pra você, tio. ― Eu disse e entreguei-lhe o quadro de areia que comprara lá na viagem.
― Ah! Obrigado, Lucas! ― Seu Humberto respondeu. ― Adorei!
― Que linda, querido! ― Minha mãe agradeceu. ― Obrigada!
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Entreguei os presentes para os dois e pedi para que me levassem no Arthur novamente. E lá fomos os três mais uma vez para o carro. Acho que nunca deixaria de ser estranho ver os dois juntos. Já dentro do carro:
― Então… ― eu comecei dizendo. ― Vocês dois pretendem se casar? ― Perguntei.
― Lucas! ― Minha mãe me repreendeu.
― Só pra saber se eu devo me preparar… ― eu disse rindo.
Seu Humberto riu da minha pergunta e minha mãe ficou desconfortável.
― Está muito cedo pra pensar nessas coisas. ― Minha mãe disse. ― Estamos juntos não tem nem uma semana, Lucas, seu idiota.
― Você gostaria que a gente se casasse, Lucas? ― Seu Humberto me perguntou.
Ouch. Pergunta difícil. Ei! Espera só um minuto! Era eu quem deveria estar fazendo as perguntas difíceis.
― Sei lá! ― Eu respondi. ― Acho que seria bom para o bebê… ter uma figura paterna presente e tal…
― Você é muito generoso, Lucas. ― Seu Humberto me elogiou.
― Ah… não é nem questão de ser generoso… ― eu disse sendo humilde. ― É mais questão de bom senso, afinal, toda ajuda é bem-vinda na hora de olhar um capetinha desses…
― Vish… se ela for encapetada igual o Lucas, vai ser foda… ― minha mãe disse me zoando.
― Ei! ― Eu disse revoltado. ― Eu lá dei trabalho?
― Nem um pouco… ― minha mãe disse sendo irônica.
― Aff… ― reclamei. ― Sou um santinho.
― Já escolheu um nome para ela, Lucas? ― Seu Humberto perguntou.
― É… quanto a isso… ― eu disse rindo. ― Nem comecei a pensar, na verdade…
― Ah, relaxa, vai ter tempo… ― ele disse sendo gentil.
― Sim… eu espero…
Continuamos o trajeto conversando e botando a conversa em dia até chegarmos na casa de Arthur novamente.
― Tchau mãe, tchau tio. ― Despedi-me deles enquanto descia do carro.
― Tchau, filho! Se cuida! ― Minha mãe disse.
― Amanhã a gente se vê no funeral. Pode ser? ― Perguntei.
― Sim, sem problemas. ― O tio respondeu. ― A gente te pega lá, tchau, Luquinha! ― Ele se despediu de mim.
Assim que eles saíram, toquei a campainha e a mãe do Arthur me recebeu. Entrei para dentro e perguntei para ela se podia ficar no quarto com o Arthur, até ele acordar. Ela me permitiu, então assim eu fiz. Fui até o quarto do Arthur, entrei e ele ainda estava dormindo. Silenciosamente, botei minha mochila na sua escrivaninha e me sentei em sua cadeira. Olhei para ele e ele continuava a dormir calmamente.
Suspirei enquanto me sentava e, em seguida, respirei fundo e fechei os olhos. O quarto estava com um cheiro um tanto quanto familiar. Era o cheiro do Arthur. Uma mistura suave de baunilha, páginas de um livro novo e, claro, menino. Era uma mistura misteriosamente agradável. Aproveitei esse tempo que estava sozinho para refletir um pouco sobre a vida.
Não era estranha a nossa existência? Ou só eu achava isso? Há alguns dias atrás, Arthur chorava porque havia levado o fora de uma menina. Hoje, ele chorava porque havia perdido seu pai. Se, por algum motivo, tais eventos tivessem acontecido na ordem contrária, aposto que ele não choraria por levar um simples fora. Mas a vida era assim mesmo. A cada dia que passava, nós nos tornávamos mais maduros, mais adultos, menos crianças e, consequentemente, menos inocentes.
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Eu achava aterrorizante e, ao mesmo tempo, fascinante a forma como o universo nos acordava do nada, sem nos dar nenhuma explicação e nos presenteava de tempos em tempos com uma maré doce de dor, sentimentos, prazeres e ilusões.
Bem, a esta altura do campeonato, eu já estava bem confortável com a ideia de gostar de garotos. Devido aos recentes traumas que eu havia passado, hoje eu me sentia mais maduro para encarar a realidade de frente. Não que a adolescência estava ficando mais fácil… muito pelo contrário… crescer estava ficando cada vez mais difícil, a diferença é que eu estava me tornando cada vez mais maduro para lidar com ela usando as novas ferramentas e filosofias que eu aprendia com o tempo, por assim dizer.
Não estava sendo fácil para mim. Não estava sendo fácil para o Rafa. Não estava sendo fácil para o Arthur. Pra falar a verdade, cara… não estava sendo fácil para ninguém. Que vida difícil era essa… enfim.
Pensar nos garotos e na forma como eu gostava deles estava se tornando, aos poucos, o meu mais novo passatempo. Era curioso como o simples desenvolvimento do nosso cérebro mudava totalmente a forma como pensávamos.
Se, antigamente, meu passatempo como criança era me preocupar em descobrir as inúmeras para mim novidades da vida, todas e absolutamente todas contempladas pela nossa física, hoje, estava meio que se tornando um hábito pensar sobre a minha orientação sexual. Estava cada vez mais difícil tirá-la da cabeça. Era como se, em todo instante que eu tirava para pensar, minha cabeça automaticamente se auto inundava com os meus próprios problemas, que incluíam, obviamente, a minha orientação sexual. E, como eu estava dizendo, portanto, pensar nos garotos e na forma como eu gostava deles estava se tornando algum tipo de vício. Mas nada que eu devesse me preocupar agora.
Não era difícil eu me perder em meus próprios pensamentos. Ainda mais agora, com essa bomba que minha mãe me lançara. Eu, sinceramente, acho que demoraria um bom tempo para eu me acostumar com a ideia dos dois juntos. Mas o tio era um cara legal. Já que era pra minha mãe namorar, que fosse com o tio… ele até que era um bom partido. Mas, o que eu acho que realmente me deixou mais confortável nessa história, foi o fato de que este eventual namoro de certa forma solidificaria de vez o divórcio da minha mãe. Adeus papai. Se antes restasse alguma dúvida de que não haveria reconciliação entre meus pais, agora tínhamos total certeza. Fiquei até um pouco feliz pela minha mãe… ela estava seguindo em frente, assim como eu.
Bem, e o fato de que a nossa condição financeira não era lá grandes coisas, não era segredo para ninguém. Eu ainda estava convencido de que teria de arrumar um emprego para ajudar nas despesas do bebê. E eu também havia prometido para mim mesmo que procuraria um emprego assim que virasse o ano, que por sinal, estava quase acabando. Logo chegariam as festas de fim de ano e era bom pegar um embalo nessa virada e aproveitar para botar em prática as vertentes de um novo Lucas.
Ter o tio por perto seria bom, pois ele poderia ajudar nas despesas do bebê. Bom, pelo menos um dia ele me dissera que eu e o Matheus éramos os filhos que ele nunca teve… bem… agora com minha mãe, ele tinha uma oportunidade de criar um filho do zero. Seria bom para ele, seria bom para minha mãe e, portanto, seria bom para mim. Nada que eu devesse reclamar. Mas, sendo bom ou não, continuava esquisito. Era estranho ver dois amigos próximos começarem a namorar do nada… mas acho que a vida era assim mesmo… fazer o que…
E aqui estava eu… perdido em meus próprios pensamentos… viajando num morno devaneio adolescente, mergulhando nos fascínios da perfeição inquestionável da vida.
Depois dessa longa reflexão, peguei meu celular, botei os fones de ouvidos e abri o Netflix. Aproveitei a ocasião para botar o Rick e Morty em dia.
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Assisti um pouco de Netflix, conversei um pouco com a mãe do Arthur, ajudei ela a cozinhar um bolo, assistimos um pouco de TV juntos, voltei para o quarto do Arthur, peguei um de seus livros que estavam na estante e comecei a ler, mais especificamente O Chamado do Cuco, da J.K. Rowling. Fiz tudo isso enquanto o pobrezinho do Arthur dormia como se não houvesse amanhã.
Quando foi por volta das dez da noite, ele acordou assustado.
― Boa noite… ― eu o saudei enquanto fechava o livro.
― Que horas são? ― Ele perguntou sonolento enquanto se levantava para ficar sentado na cama.
Olhei no relógio e respondi:
― Dez e quinze.
― Eu dormi… ― ele disse tentando explicar o óbvio.
― Eu percebi… ― eu disse sorrindo.
― Foi mal… ― ele se desculpou.
― Como se sente? ― Perguntei.
― Um lixo. ― Ele disse e voltou a se deitar na cama. ― Desculpa… dormi sem querer…
― Não tem problemas… você precisava descansar… ― tentei consolá-lo.
― Você ficou aqui o tempo todo? ― Ele perguntou.
― Não posso dizer que fiquei… ― eu respondi. ― Fui pra casa, trouxe uma mochila pra passar a noite aqui… tudo bem pra você? ― Perguntei.
― Ah… obrigado… desculpe sugar seu tempo… ― ele se desculpou mais uma vez.
― Relaxa… ― eu respondi educadamente. ― Por que você não toma um banho, enquanto eu e sua mãe preparamos o jantar? ― Sugeri. ― Você tá com fome?
― Na verdade não… ― ele respondeu.
― Mas você precisa comer… ― eu lhe orientei. ― Como está a cabeça?
Eu me levantei, fui até ele e botei minha mão em sua cabeça, para ver se ele não estava com febre.
― Está doendo um pouco… ― ele respondeu timidamente.
― Também, você dormiu antes que pudesse beber a água que eu te trouxe…
― Desculpa…
― Tudo bem… ― eu disse. ― Aqui, toma.
Peguei o copo de água que estava em seu criado mudo e lhe entreguei. Ele pegou e começou a beber. Bebeu tudinho até a última gota.
― Valeu… ― ele agradeceu.
― E aí? Banho? ― Sugeri.
Ele deu de ombros, como se não se importasse mais em tomar banho.
― De que adiantar tomar banho? ― Ele resmungou amuado.
― Não precisa tomar, se não estiver afim… ― eu disse.
― É só que… eu não vejo mais sentido em tomar banho… pra falar a verdade, acho que… eu sinto que… é como se a minha vida não tivesse mais sentido… não me sinto mais importante… estou tão perdido… você já se sentiu assim? ― Ele perguntou.
Me sentei na cama junto com ele e botei minha mão em cima da sua.
― Queria ele de volta aqui… queria que tudo isso fosse só um sonho… ― ele resmungou.
― Eu sei… ― eu disse compreensivamente.
― Não é um sonho, é? ― Ele perguntou com uma última gota de esperança.
― Sinto muito… gostaria de dizer que sim… ― respondi triste.
Nessa hora, seus lábios começaram a tremer, daí ele cobriu o rosto com as mãos e abaixou a cabeça.
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― Desculpa… ― ele disse enquanto se entregava novamente ao choro melancólico.
Olhei para cima e suspirei. Cara… como isso era difícil… acho que nunca tinha ficado tão sem jeito quanto estava agora.
― Está tudo bem… ― eu disse enquanto me aproximava dele. ― Ei… está tudo bem…
Puxei ele para um abraço.
― Você é importante para mim, se servir de consolo… ― eu disse gentilmente. ― Te ver assim me corta o coração.
― Foi mal… ― ele se desculpou.
― Por que você não toma um banho? Você está com uma cara horrível… ― eu sugeri novamente. ― Se não for por você, tome por mim, pelo menos… ― insisti.
Ele me olhou e fez uma cara de sofrimento.
― Só acho que vai te fazer bem… só isso… ― confessei.
― Tá… tudo bem…
Ele finalmente criou coragem e se levantou da cama.
― Eu vou ajudar sua mãe com o jantar.
E assim aconteceu. Fiz Arthur tomar um banho e fui até a cozinha ajudar sua mãe a preparar o jantar. Preparar o jantar mais ou menos, porque ela tinha feito tudo… eu só a ajudei a arrumar a mesa mesmo. Três pratos, três copos. Três garfos, três facas. Três pessoas, três lutos.
Me sentei na mesa junto com Dona Renata e ficamos conversando até Arthur terminar de tomar seu banho. Instantes depois, ele apareceu na cozinha. Sua cara, pelo menos, parecia estar melhor.
― Oi, filho… ― ela o saudou.
― Oi… ― ele respondeu sem vida.
― Fiz o macarrão que você gosta. ― Ela disse enquanto retirava a tampa da panela.
― Ah… obrigado… ― ele agradeceu.
― Está com fome? ― Ela perguntou.
― Não estava… até agora… ― ele disse e soltou um sorrisinho.
Nossa… como foi bom vê-lo sorrir. Foi bom para quebrar a tensão. Tanto para mim, quanto para sua mãe, já que estávamos cansados de tantas preocupações.
― Então senta aqui pra comer com a gente! ― Ela disse enquanto lhe passava um prato.
Nós três nos servimos e começamos a comer. Macarrão com queijo e salsicha. Bem, não falamos muita coisa durante a refeição, até porque estávamos todos ocupados comendo. Apenas o tradicional ‘me passa o sal’. Assim que terminamos de comer, Dona Renata foi até o forno e retirou o bolo que havíamos cozinhado mais cedo.
― Tcharan! ― Ela disse enquanto trazia o bolo até a mesa. ― Olha o que a mamãe e o Lucas preparamos pra você!
Ele riu sem graça e disse:
― Ah… valeu… mas não precisava gente… de verdade…
― Ah, qual é… não vem fazer desfeita do meu bolo! ― Eu disse brincando e ele sorriu.
Era bom vê-lo sorrindo. Que bom que ele estava voltando ao normal. Bem, enfim… comemos o bolo e conversamos um pouco.
Não preciso nem dizer que já era bem tarde. Já se passavam das onze e meia. Eu e o Arthur acabamos indo para a sala assistir um pouco de TV no sofá, para distrairmos um pouco a cabeça. Algum tempo depois, sua mãe apareceu na sala e nos avisou que estava indo dormir, que já era bem tarde. Ela pediu para que nós não demorássemos para deitar, até porque amanhã seria um longo dia. Concordamos com a sua exigência e ela nos deixou a sós, na sala.
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Continuamos assistindo TV por mais ou menos meia hora, até que o filme que estávamos vendo terminou.
Conforme os créditos iam subindo, olhei para ele e perguntei:
― Ei… está com sono?
― Na verdade não… dormi o dia inteiro… você está? ― Ele perguntou.
Sinceramente? Sim, até porque eu tinha chegado de viagem hoje e ainda não tinha tido oportunidade de descansar. Mas eu podia ficar acordado com ele, se fosse preciso.
― Não muito. ― Menti.
― Tem certeza? ― Ele perguntou novamente.
― Uhum… ― respondi. ― Quer fazer alguma coisa? ― Perguntei.
― Não sei… você quer?
― Não sei… ― respondi.
― Quer ir lá fora? ― Ele sugeriu. ― Está muito calor aqui…
― Pode ser… ― eu concordei.
Acontece que, a casa dele tinha um quintal bem grande. Um grande gramado com a grama bem aparada se escondia entre os muros de sua casa. Tinham algumas cadeiras e uma mesa decorando o lugar, mas, apesar disso, Arthur, ao chegar no meio do quintal, simplesmente se jogou na grama e se deitou de barriga para cima, com os braços e as pernas abertas. E, assim, se pôs a admirar o céu.
Me aproximei dele e me sentei ao seu lado, na grama também. Era uma noite agradável de dezembro. O céu estava limpo de nuvens e carregado de estrelas.
― Está se conectando com o universo, agora? ― Perguntei.
― Tipo isso… ― ele respondeu. ― Devia tentar também.
E devia mesmo. Eu, que estava sentado ao seu lado, girei meu corpo para trás e me deitei na grama também, joguei minha cabeça na grama e abri meus braços e pernas, como ele fizera. Nossas cabeças ficaram lado a lado e meus pés apontavam na direção oposta à dele. Eu podia olhar para ele simplesmente girando a cabeça para o lado. E ele podia fazer o mesmo. Mas, mesmo assim, continuamos olhando para cima, encarando a imensidão celeste.
― Seu quintal é bonito. ― Eu elogiei.
― Valeu… ― ele agradeceu.
― Acho que eu nunca tinha vindo aqui…
― Não? ― Ele perguntou.
― Não…
― Eu sempre venho aqui… ― ele confessou. ― É um ótimo lugar para pensar.
― Estou percebendo. ― Eu concordei. ― E em que você pensa? ― Perguntei.
― Ah… em tudo… ― ele respondeu.
― Tudo é bom… às vezes…
― Às vezes… ― ele concordou.
Ficamos em silêncio por um momento. Apenas observando as estrelas sobre nossas cabeças.
― Curtiu sua viagem? ― Ele perguntou.
― Sim… bastante… ― respondi.
― Como foi?
― Pra quem nunca tinha andado de avião ou visto o mar, posso dizer que foi um tanto quanto inesquecível…
― Imagino… ― ele disse.
― Te trouxe um presente… ― eu disse enquanto fuçava nos meus bolsos.
― Um presente? ― Ele disse surpreso.
― ―
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― É… só não sei se você vai gostar… ― eu disse enquanto tirava a correntinha com pingente de coruja do bolso. ― Aqui! ― Eu disse enquanto passava ela para ele.
― Uau… ― ele disse enquanto a pegava. ― Obrigado! ― Ele agradeceu.
― Gostou? ― Perguntei.
― É linda… ― ele respondeu encantado enquanto levantava ela para o alto e a colocava em contraste com o céu.
― A coruja é símbolo de inteligência… que me fez lembrar de você… ― eu disse gentilmente. ― O menino mais inteligente que eu conheço.
― Você está sendo humilde… ― ele respondeu. ― Você sabe que é tão inteligente quanto eu…
― Não é o que o xadrez disse… ― eu disse e olhei para ele, me lembrando daquele dia.
― O xadrez disse muita coisa… ― ele disse e virou o rosto para mim.
Nossos olhares se cruzaram.
― Preciso te confessar uma coisa… ― ele disse encarando minha boca.
― Eu já sei o que você vai falar… ― eu disse enquanto encarava seus olhos. ― Eu não saberia, se não fosse recíproco.
― Preciso te dizer mesmo assim… ― ele pediu.
― Descobriu há quanto tempo? ― Eu perguntei calmamente.
― Há muito, mas acho que eu só não queria acreditar… ― ele confessou.
― E agora você acredita? ― Perguntei.
― Seus olhos são verdes? ― Ele respondeu. ― Não me faça perguntas óbvias. ― Ele pediu. ― E você? Descobriu há quanto tempo? ― Ele perguntou.
― Há muito… eu só não queria acreditar… ― admiti.
― Acredita agora? ― Ele perguntou.
― Acredito o suficiente para cometer o maior erro da minha vida. ― Respondi.
Nós nos olhamos calmamente por alguns segundos enquanto a Terra continuava a girar lentamente.
― Eu te amo. ― Ele confessou olhando no fundo dos meus olhos.
Fechei os olhos, suspirei, respirei fundo, contei até três e respondi:
― Eu sei… se a ocasião fosse outra, seríamos perfeitos um para o outro, não seríamos?
― O universo não seria cruel o suficiente se não fossemos… ― ele concordou.
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― Alô!? ― Eu disse preocupado.
Arthur atendeu imediatamente e ele estava com uma voz de choro que eu jamais tinha ouvido dele. Foi quando ele disse:
― Lucas! Lucas… meu pai se foi… preciso de você…
― Ah… ― nessa hora, eu fiquei simplesmente sem palavras. ― Eu… eu sinto muito…
Após terminar de conversar com ele o que não tinha sido uma conversa longa, desliguei o telefone e expliquei a situação para o Rafa e para seus pais.
― Ele ficou doente. ― Comecei explicando. ― Ele estava de serviço. Arthur disse que ele amanheceu se sentindo mal… com febre e dores de cabeça. O médico da unidade tratou dele durante dois dias. Ele foi melhorando com o tratamento, mas, do nada, ficou muito pior… o médico, assim que percebeu que se tratava de algo mais grave, solicitou um resgate. Ele estava trabalhando em um posto de guarda na floresta amazônica. O oficial solicitou um helicóptero de resgate via rádio, que foi até o local socorrê-lo. Conseguiram levar ele para um hospital em Manaus, mas ele não resistiu e faleceu. Infelizmente, não havia sinal de telefone lá onde ele trabalhava, então, para ele conseguir telefonar de lá, tinha que andar durante uma hora e meia. Ele não conseguiu falar com Arthur ou com sua mãe logo antes de morrer, mas pediu para que seu médico escrevesse uma carta, que seria entregue caso ele não resistisse. Os médicos ainda estão investigando o que pode ter acontecido, mas é quase certeza que ele contraiu alguma doença na floresta. E, bem… eles vão enterrá-lo amanhã. Arthur convidou todos vocês para o velório.
Não preciso nem dizer que isso tinha estragado o final da nossa viagem, não é? É claro que o mais abalado ali era eu, mas todos tinham ficado mal. A última coisa no mundo que eu queria era ver o Arthur sofrendo. Eu tinha muita consideração por ele. Muita mesmo. Pode-se até dizer que eu o amava, de certa forma. E, ouvi-lo chorar daquele jeito, sem poder lhe dar um abraço de conforto, me deixava extremamente inquieto.
Não tínhamos muito o que fazer. Eu tinha que ir lá ver o Arthur o mais rápido possível, mas também tinha que ver minha mãe antes, deixar as malas em casa, etc. Então eu acabei indo para casa primeiro.
Os pais do Rafa, junto com toda família Mackenzie, me levaram até a minha casa. Eram duas da tarde quando chegamos. Desci do carro e chamei, para que minha mãe abrisse o portão.
― Mãeeee! Mãeeee! Cheguei! Abre aí! ― Gritei.
Depois de alguns instantes, curiosamente, quem abriu a porta foi o seu Humberto…
― Tio!? ― Eu disse surpreso. ― O que o senhor faz aqui? Cadê minha mãe? ― Perguntei.
― Oi, Lucas! ― Ele me saudou alegremente. ― Ah, sua mãe está lá dentro! Entra aí! Como foi de viagem? ― Ele disse e me deu um abraço.
― Foi tudo bem… mas não posso contar tudo agora, tio… estou com um pouco de pressa… o pai do Arthur morreu…
― O pai do Arthur? Ah… coitadinho… ― ele disse comovido.
― É… cadê minha mãe? Só vim dar um oi para ela, mas preciso ir lá no Arthur agora… o senhor pode me levar? ― Perguntei.
― Ah, claro, posso levar sim, sem problemas… e sua mãe está lá dentro…
Entrei dentro de casa correndo e seu Humberto recebeu Rafa e seus pais, que estavam logo atrás de mim.
― MÃE! ― Eu a chamei de novo.
Encontrei ela na cozinha.
― Oi, mãe! ― Eu disse esbaforido.
― ―
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― Credo, Lucas, o que aconteceu que você tá desse jeito? ― Ela perguntou preocupada.
― Oi, mãe… ― eu disse. ― O pai do Arthur, meu amigo, acabou de morrer… estou indo me encontrar com ele agora… tudo bem? A viagem deu tudo certo… o Rafa tá aqui…
Fui até ela para dar um beijo.
― Ah… tadinho do Arthur… ― ela disse comovida. ― Que pena… pobrezinho…
― É… a gente conversa quando eu voltar de lá, pode ser?
― Ah… tudo bem sim… mas a gente precisa conversar mesmo, filho… sobre coisas bem importantes…
― Coisas importantes? ― Perguntei surpreso. ― Eu hein, está tudo bem? ― Perguntei.
― Está sim… não se preocupe com isso agora…
― Vou pedir para o tio me levar lá no Arthur, pode ser?
― Claro, filho… e como o Rafa está? ― Ela perguntou.
― Ele tá bem, vem cá, ele tá lá na sala… ― eu disse.
Eu e minha mãe saímos da cozinha e fomos em direção a sala. Quando o Rafa viu minha mãe, ele ficou completamente constrangido e começou a ficar vermelho. Era a primeira vez que eles se viam desde que minha mãe tinha nos pego com a mão na massa.
― Oi pessoal! ― Minha mãe cumprimentou todo mundo. ― Oi, mocinho! ― Minha mãe disse especialmente para o Rafa, que ficou ainda mais vermelho.
― Oi, dona Ana… ― Rafa disse sem graça coçando a cabeça sem jeito.
Minha mãe e os pais do Rafa conversaram um pouco enquanto eu tirava minha mala do carro e levava para o meu quarto junto com o Rafa.
― Você quer que eu vá junto com você ver o Arthur? ― Rafa perguntou para mim assim que entramos no meu quarto.
― Não sei… você quer ir? ― Perguntei.
― Não sei… ― ele respondeu. ― Eu não me importaria de ir, mas ele me pareceu bem mal… não sei se minha companhia ajudaria…
― Não fale bobagens… ― Eu o repreendi. ― É claro que sua companhia ajudaria! Você é amigo dele tanto quanto eu…
― Ah, mas… venhamos e convenhamos, você é mais… e, além do mais, você tem mais tato pra isso que eu… ― ele disse. ― Eu não saberia o que dizer…
― Você não precisa ir lá, se não quiser… ― eu respondi. ― Só não use como desculpa o fato de que você não leva jeito pra isso… como se eu levasse… tenho cara de que sabe o que falar para ele agora?
― Sinceramente? Tem. ― Ele respondeu convicto.
― É claro que não… ― eu discordei. ― Eu não faço ideia do que fazer… do que dizer… ― disse preocupado.
― Foi pra você que ele ligou, Lu… ele está precisando mais de você, que de mim… ― Rafa tentou ser lógico. ― Não sei se ele ficaria confortável comigo lá… o que você acha?
― Ele não ficaria confortável com você lá, ou você não ficaria confortável com ele? ― Perguntei com afronta.
― Ele não ficaria confortável comigo lá, Lu. Como eu já disse, eu não me importaria de ir.
― Droga… porque isso foi acontecer logo agora… ― eu disse e botei as duas mãos na cabeça. ― Justo com o Arthur… ― eu disse com o coração apertado.
― Vem cá… ― Rafa disse e ofereceu um abraço.
Fui até ele e o abracei também.
― Vai dar tudo certo… ― ele tentou me consolar.
― Eu espero que sim… ― concordei.
― ―
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Saímos do meu quarto, voltamos para a sala e eu fui me despedir da minha mãe.
― Mãe, estou indo… eu até trouxe lembrancinhas, mas estão na minha mala. Quando eu voltar, eu te entrego… e, por favor, não desfaça minha mala sem mim, não preciso te lembrar que já tenho doze anos…
― Ei! Eu sei bem disso… tudo bem! Mas acho que vou te levar lá também… ― ela disse. ― Vou aproveitar para dar meus pêsames à mãe do Arthurzinho…
― Tá… tudo bem… ― eu respondi.
Depois disso, eu, minha mãe e o tio, nos despedimos da família Mackenzie e entramos no carro do tio. Como o velório já seria amanhã, Rafa achou melhor que eu fosse ver o Arthur sozinho hoje. Ele poderia nos fazer companhia amanhã, caso precisasse. Então me despedi dele e, nós três, partimos para a casa do Arthur.
O tio foi dirigindo, minha mãe foi no banco do carona e eu fui no banco de trás. Quando estávamos quase chegando, peguei meu celular e enviei uma mensagem de texto para o Arthur.
― Eu: Ei, Arthur, já saí de casa… estou quase chegando aí…
Nisso, minha mãe virou para mim e disse:
― Erm… então… Lucas…
Eu travei meu celular e olhei para ela.
― Erm… como eu posso dizer isso? Erm… eu… eu e o seu tio Humberto precisamos conversar uma coisa com você… ― ela disse sem jeito.
― Aqui, agora? ― Seu Humberto perguntou surpreso para ela.
― O que houve? ― Perguntei preocupado.
― Então… erm… com toda aquela história de divórcio com seu pai… e… nesse meio tempo que você ficou fora, viajando… eu meio que… tentei dar mais uma chance aos… como se diz… a questão é… eu e o seu Humberto estamos juntos.
― COMO É QUE É? ― Eu gritei surpreso.
Nessa hora, minha cabeça tomou tela azul da morte.
― Ih, chegamos… ― Tio Humberto disse enquanto parava o carro em frente à casa do Arthur.
― ESPERA Aí! ― Eu gritei enquanto minha mãe e o tio desciam do carro o mais rápido possível.
Espera aí um minuto… se minha mãe estivesse namorando o tio… e se o tio estivesse namorando minha mãe… e se os dois estivessem namorando entre si… e se minha mãe e o tio estivessem juntos… e se os dois agora formassem um casal… e se minha mãe… mais o tio… isso quer dizer que… o tio agora era meu… erm… como se diz? Erm… pai? Então quer dizer que… oi? Como é que é? Hã? Como assim? Que!? COMO É QUE ESSES DOIS COVARDES ME JOGAM UMA BOMBA DESSAS BEM NA HORA QUE CHEGAMOS NA CASA DO ARTHUR!?
Minha mãe tocou a campainha e foi apreciar as flores da entrada enquanto o tio assoviava, olhava para cima e batia o pé como se nada estivesse acontecendo.
― Vocês não podem namorar! ― Eu exclamei. ― Você é minha mãe! E você… você é meu tio! Ewww!
― Não sou seu tio de verdade, Lucas… e você sabe disso… ― ele disse com as mãos na cintura.
― Eu sei! Mas você é meu tio! E aquela mulher é a minha mãe! Mãe!? ― Eu a chamei.
― E qual problema da sua velha mãe querer dar uns beijos de vez em quando, hein? ― Minha mãe me perguntou. ― Você pode e eu não!? ― Ela me provocou.
― Eewwwww! ― Eu disse me sentindo enjoado.
― Ah, mas de velha você não tem nada! ― Seu Humberto disse gentilmente para ela.
― Ah, obrigado, querido! ― Ela agradeceu o elogio e deu-lhe um beijo na bochecha.
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― EEEEEWWWWWWW! ― Eu gritei enquanto sacudia meu corpo com repulsa.
Nisso, a mãe do Arthur, abriu o portão e veio nos receber.
― Ah, Lucas! Que bom que você veio…
Dona Renata era uma mulher baixinha, só alguns centímetros mais alta que eu. Ela tinha cabelos loiros, embora fosse fácil perceber que eles eram pintados, pois as suas raízes castanhas denunciavam a sua verdadeira cor. Apesar de possuir um rosto simpático e bonito, ele não estava em sua melhor forma agora. Ela estava com o luto estampado em sua face. Seus olhos estavam um pouco inchados e as olheiras demonstravam preocupação. Ela vestia um fino casaco de lã azul claro, por cima de sua blusa amarela.
Fui até ela e dei-lhe um abraço.
― Oi, tia Renata… ― eu a saudei. ― Sinto muito pela sua perda… ― eu disse com tristeza.
― Obrigada, Lucas… ― ela agradeceu. ― O Tuts está lá no quarto dele… fique à vontade para ir lá…
― Ah… tudo bem… ― eu assenti.
Minha mãe e seu Humberto ofereceram suas condolências à dona Renata, se despediram de mim e foram embora. Dona Renata me acompanhou até a sala, que estava uma bagunça. A mesa de centro estava coberta por papéis, fotos e uma garrafa de café. Dona Renata pediu desculpas pela desorganização e explicou que estava ligando para todos os conhecidos para avisá-los do ocorrido. Quando ela terminou de me explicar o que estava fazendo, notei que em cima da mesa havia uma lista com vários nomes. Os riscados provavelmente seriam das pessoas que ela já havia ligado. Então ela me disse para ficar à vontade e que eu podia ir lá no quarto ficar com o Arthur, pois ela tinha que terminar de fazer as ligações.
Deixei ela na sala e me dirigi até o quarto dele. A porta estava fechada. Olhei para os lados e dei três batidinhas de leve na porta.
― Arthur? ― Eu o chamei, mas ninguém respondeu. Então decidi abrir a porta.
Me deparei com uma cena que me partiu o coração. Arthur estava sentado no chão, com as costas encostadas em sua cama e com uma foto nas mãos. Apesar de sua cara de derrotado e de seus olhos inchados, até que ele estava bem arrumado para a situação. Ele vestia uma bermuda cinza, uma camiseta preta e seus cabelos estavam no lugar.
Quando ele me viu, seus dois olhos expressaram um sentimento de alívio e ele exibiu um sorriso com o canto da boca.
― Oi… ― ele me saudou. ― Como foi a viagem? ― Ele perguntou com uma voz triste.
Nessa hora, meu coração se apertou. Apesar de todo tempo que passamos longe um do outro e apesar do fato dele estar nessa situação horrível, ele ainda conseguiu ser educado o suficiente para perguntar como tinha sido minha viagem.
― Sinto muito… ― eu disse enquanto entrava e fechava a porta.
― Obrigado… ― ele respondeu. ― Valeu por vir…
Eu balancei a cabeça, gesticulando que não tinha sido nada demais. Me aproximei dele e me abaixei, para sentar ao seu lado. Sentei-me da mesma maneira que ele estava sentado, no chão e apoiando minhas costas em sua cama.
― É ele… ― ele disse, me passou a foto que segurava e me apontou seu pai.
― É a sua cara… ― eu respondi gentilmente.
Ele me olhou e eu olhei para ele. Um segundo de silêncio. Nossos olhares se encontraram e seus lábios começaram a tremer. Em questão de instantes, seus olhos se encheram de lágrimas e ele se pôs a chorar. Ele encostou a cabeça em meu ombro e eu passei meu braço em volta de seu corpo, para abraçá-lo. Ele me abraçou de volta.
― Por que!!???? ― Ele disse para si mesmo.
― ―
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― Sinto muito… ― eu disse e encostei minha cabeça na sua. ― Vai passar, Arthur… está tudo bem… pode chorar…
E ele chorou. E como chorou. Eu não sabia bem o que fazer ou o que dizer… mas, neste dia, eu aprendi uma lição muito importante para minha vida… às vezes, o silêncio é a melhor palavra.
Ficamos ali juntinhos enquanto ele chorava. E ele chorou por mais ou menos uns vinte minutos. Ele não deixou passar nem um único segundo. Chorou em todos. Chorou continuamente durante todo esse tempo. Eu, que achava que precisaria dizer alguma coisa, me surpreendi com o poder do silêncio. Eu não precisei falar nada, até porque o que ele queria era minha presença e não as minhas palavras.
Ficamos ali juntinhos. Só eu e ele. Eu sabia que ele precisava chorar. Ele precisava disso mais que tudo. Ele precisava expressar sua tristeza com suas lágrimas. Ele precisava expressar o que estava sentindo. Ele tinha que pôr para fora. E o mundo lá fora podia acabar. Não importava mais. A entropia do universo podia aumentar quanto quer que fosse. Não importava mais. Esse era um daqueles dias em que a vida perdia a graça. Esse era um daqueles dias em que a vida não era mais legal. Esse era um daqueles dias em que ninguém queria seguir em frente, por mais que fosse a melhor coisa a se fazer. Afinal, se seguir em frente fosse fácil, não precisaríamos mais de lágrimas para chorar. Mas não era fácil. Doía. E nada como a dor de ter que superar o passado. Essa dor não era uma dor que doía no braço, nem na perna. Doía num lugar que não existia. Doía num lugar que não podíamos passar a mão para amenizar. Doía num lugar que não sabíamos onde ficava. Criava-se uma ferida num lugar que só o tempo podia cicatrizar.
Depois de todo esse tempo, quando ele finalmente parou de chorar, ele conseguiu dizer sua primeira palavra:
― Desculpa… ― ele disse com a voz rouca.
― Ei… está tudo bem… ― tentei consolá-lo.
― Não queria ser tão fraco… ― ele confessou.
― Você não é… ― respondi. ― Está se sentindo melhor? ― Perguntei.
Ele apenas ergueu os ombros num sinal de ‘tanto faz’.
― Quer se deitar um pouco? ― Perguntei, afinal, ainda estávamos sentados no chão.
― Pode ser… ― ele respondeu.
Eu me levantei do chão e ofereci minhas duas mãos para ele. Ele as segurou e eu o ajudei a se levantar.
― Senta aí… ― eu disse e apontei para sua cama.
Ele fez como eu ordenei e se sentou.
― Você quer água? ― Ofereci.
Ele fez que não com a cabeça.
― Você precisa repor tudo isso que chorou, sua cabeça tá doendo? ― Perguntei.
― Um pouco… ― ele respondeu.
― Não quer mesmo? Eu pego pra você… ― ofereci mais uma vez.
― Tá… pode ser… ― ele aceitou.
― Beleza… espera aí que eu já volto.
Saí do quarto e fui em direção a sala. Encontrei a mãe dele sentada no sofá telefonando, mas ela já estava se despedindo. Ela viu que eu apareci na sala e encerrou a conversa no telefone.
― E aí? ― Ela perguntou. ― Como ele está?
― Ele chorou bastante, tia… mas agora já parou… vim pegar água pra ele… tem aqui?
― Ah… sim… claro… eu pego pra você…
Fui com ela até a cozinha, onde ela me serviu um copo de água.
― ―
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― Você também quer um? ― Ela perguntou.
― Não, obrigado, tia. Estou bem. Vou levar esse aqui pra ele.
― Tá…
Virei as costas para sair e caminhei em direção à saída da cozinha com o copo de água nas mãos.
― Lucas… ― ela me chamou.
Olhei para ela e ela disse:
― Obrigada…
Fiquei um pouco sem graça, mas respondi educadamente.
― Que isso, tia… é o mínimo que eu posso fazer por ele…
Depois disso, saí da cozinha e voltei para o quarto do Arthur. Assim que entrei, fui surpreendido ao encontrar o pobrezinho do Arthur dormindo. Tadinho, me partiu o coração.
Ele, do jeito que estava, apenas caiu de costas na cama e apagou. Seu rosto estava com uma expressão calma e tranquila. Acho que agora ele devia estar dormindo em paz.
Deixei o copo de água no criado mudo e me sentei na cama, junto com ele. Passei a mão em seus cabelos e tirei os fios rebeldes de seus olhos, que agora estavam fechados e sonhavam com os anjos. Dei um beijinho em sua testa e disse baixinho:
― Dorme bem, Tuts…
Deixei ele ali dormindo, saí do quarto, apaguei a luz e fechei a porta. Daí me dirigi até a sala, onde encontrei novamente Dona Renata.
― Ele pegou no sono, tia… ― eu disse e apontei para trás, em direção ao quarto.
― Ah… sinto muito, Lucas… desculpa ele ter feito você vir até aqui para acabar dormindo…
― Ah, relaxa, tia… tem problema não… ele devia estar cansado…
― É… pois é… acho que ele nem dormiu essa noite…
― Tadinho… ei, tia… tem alguma coisa que eu posso fazer pela senhora? ― Perguntei.
― Ah… não, não… eu terminei de ligar para todo mundo que precisava… então… agora estou arrumando as coisas aqui… ― ela disse e apontou para a mesinha da sala. ― Senta aí! ― Ela disse e apontou para o sofá.
Me sentei no sofá que estava livre e fiz companhia para ela.
― Hum… e como a senhora está, tia?
― Ah… eu estou bem… quer dizer… ainda estou muito chocada com o que aconteceu, mas… acho que quem está sofrendo mais é o Tuts mesmo…
― Eles eram muito próximos? ― Perguntei.
― Sim… o Ângelo costumava viajar muito nesses serviços que ele tirava, mas o bom é que volta e meia ele tirava bastante tempo para ficar de férias. Quando ele estava por aqui, ele ficava o tempo inteiro com o Arthur… os dois deviam morrer de saudades um do outro toda vez que ele ia embora…
― Entendo… ― eu disse.
― Ele pegava esses serviços longes porque ganhava muitas bonificações… e ele achava que seria bom juntar um dinheiro extra para quando o Arthur crescesse, sabe? Toda vez que ele voltava para casa, trazia toneladas de presentes… para mim e para o Arthur… ele adorava surpreendê-lo.
― Ele parecia ser um ótimo pai… ― eu disse.
― Ele era… ― ela respondeu triste. ― Ele era…
― Sinto muito, tia… ― eu disse mais uma vez.
― Ah… está tudo bem, Lucas… obrigada…
― ―
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― Tia, a senhora se importa se eu dormir aqui hoje? O Arthur me pareceu bem mal… e acho que minha companhia faria bem para ele…
― Ah, Lucas… você estaria disposto a fazer isso?
― Sim, claro. É que agora que ele dormiu, acho que eu podia aproveitar para ir lá em casa arrumar minhas coisas e daí eu voltava para cá…
― Tá… tudo bem… você quem sabe… precisa de carona para voltar pra casa?
― Ah, não… eu ligo para minha mãe… a senhora não precisa se incomodar com isso…
― Tá… tudo bem… obrigada mais uma vez, Lucas.
― Sem problemas… ― eu disse coçando a parte de trás da cabeça sem graça.
E assim fiz. Liguei para minha mãe, para que ela viesse me buscar aqui na casa do Arthur. Aproveitaria esse tempo para desfazer minha mala da viagem, tomar um banho, conversar com minha mãe e com o seu Humberto e depois voltar para cá.
― Alô? ― Minha mãe atendeu.
― Mãe… sou eu… o Lucas… é… você pode vir me buscar? ― Pedi.
― Quem é? ― Ouvi alguém perguntando para minha mãe do outro lado da linha.
― É o Lucas… ― Ela respondeu para a pessoa que havia perguntado.
― Mãe!? ― Eu a chamei.
― Oi, filho! Mas você já vai embora? Você acabou de chegar…
― É… pois é… eu acho vou dormir aqui hoje, mas preciso pegar minhas coisas aí em casa primeiro… ― eu expliquei.
― O que ele quer!? ― A voz do outro lado da linha perguntou para minha mãe.
― Ele quer vir embora! ― Minha mãe respondeu.
― Mas já!? ― A pessoa perguntou.
― Sim! Foi o que eu disse! ― Minha mãe respondeu.
― Alô! Mãe! ― Eu a chamei. ― Eu estou ouvindo o seu Humberto aí… diz pra ele que assim que eu chegar, nós três teremos uma conversinha…
― Vish… ele disse que assim que ele chegar, nós três teremos uma conversinha… ― minha mãe disse rindo para o seu Humberto.
― Mãe! ― Eu gritei por ela me fazer de piada.
― Tá, Lucas… seu sem graça… já estamos indo aí… fica na porta… ― ela disse.
Depois disso, me despedi da mãe do Arthur e disse que voltaria dentro de algum tempo. Saí da casa deles e fiquei lá fora esperando minha mãe vir me buscar. Bom, acontece que, minutos depois, chegaram os dois figurões. Dona Ana e seu Humberto… quem diria, hein? O carro parou e eu os recebi de braços cruzados.
― Agora vocês só andam juntos, é? ― Perguntei assim que eles abaixaram o vidro do carro.
― Lucas Henrique! ― Minha mãe me repreendeu. ― Entra logo no carro!
Entrei no banco de trás e olhei para os dois. O tio deu partida e saiu.
― Então… ― eu comecei. ― Quem foi que deu em cima de quem primeiro!? ― Perguntei na cara de pau.
― Lucas! ― Minha mãe me repreendeu novamente.
― Foi você, né, mãe!? ― Eu a questionei. ― Tinha que ser!
― LUCAS! ― Minha mãe me repreendeu mais uma vez.
― Ah, Ana, o garoto tem direito de saber… ― o tio me defendeu. ― Bem, Lucas, ninguém deu em cima de ninguém, se é o que você quer saber… partiu de nós dois… ― ele explicou calmamente.
― Hmm… ― eu disse e fiz bico não me mostrando satisfeito com a resposta. ― E o quão sério é? ― Perguntei.
― ―
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― Ah… ― o tio respondeu. ― Estamos indo devagar… até porque também nos preocupamos com você… e não queremos causar desconforto em você… mas eu gosto muito da sua mãe e estou disposto a trabalhar para fazer isso dar certo… então, se dependesse só de mim, eu diria que é sério.
― E você, mãe? ― Eu perguntei para ela.
― Ah, Lucas… nós dois nos conhecemos tem um bom tempo… ― ela disse. ― Nós dois nos damos bem… vocês dois se dão bem… então… não vejo porque não dar uma chance…
― Entendi… ― eu disse ainda sem entender bulhufas about whata fuck was happening.
Esse dia já estava pra lá de bizarro. O que será que ainda podia acontecer?
― E aí? ― Seu Humberto disse. ― Não vai dizer nada?
― O que quer que eu diga? ― Perguntei.
― Você nos dá sua benção? ― Ele perguntou.
― Minha benção!? ― Eu indaguei. ― E vocês lá precisam da minha benção?
― Bem… se você aprovar, não teremos mais nada no nosso caminho… e poderemos dar continuidade às coisas. ― Ele explicou.
― E se eu não aprovar? ― Perguntei.
― Mas você desaprova? ― Ele perguntou.
― Não. ― Respondi.
― Então você aprova? ― Ele perguntou feliz.
― Não. ― Respondi.
― Ué! ― Ele disse sem entender.
― É que… mas e quanto ao bebê? ― Eu questionei.
― O que tem o bebê? ― Ele perguntou.
― Sei lá… ― eu disse. ― Ele vai nascer dentro de pouco tempo. O senhor assumiria a paternidade? ― Perguntei.
― Lucas! ― Minha mãe reclamou da minha pergunta indiscreta.
― Ah… ― ele foi pego de surpresa pela minha pergunta. ― Bem… faltam alguns meses ainda, para ele nascer… nós não sabemos a que pé estaria nossa relação até lá… eu, sinceramente, não teria problemas em ajudar na criação… mas assumir a paternidade é algo que não depende só de mim… ― ele disse e olhou para minha mãe.
― Lucas, já chega! ― Minha mãe disse. ― Independente da sua aprovação, vamos continuar juntos. Desculpe, mas é um direito meu. ― Ela disse.
― Tá! ― Eu desisti. ― Eu aprovo os dois. Aff… não acredito que estou fazendo isso… tá! Foda-se! Têm a minha benção. Felizes? ― Perguntei.
― Obrigado, Lucas. ― O tio disse. ― Significa muito para mim. Para nós. ― Ele disse e olhou para minha mãe.
― Tá… mas só quero deixar bem claro que a quantidade de presentes lá naquela casa vai ter que aumentar. Rum.
Os dois riram do meu comentário.
― Aumentar muito. ― Eu disse e cruzei os braços.
Não demorou muito para chegarmos em casa. Assim que chegamos, mantive o plano e fui tomar banho. Desfiz minha mala da viagem e retirei as lembrancinhas que tinha trazido para minha mãe, para o tio e para o Arthur. Já que veria ele em breve, acho que seria bom presenteá-lo. Separei as coisas que levaria para a casa do Arthur e as guardei dentro da minha mochila. Agora que estava pronto para ir, peguei o telefone e liguei para o Rafa.
― Alô!? Lu!? ― Ele me atendeu.
― Oi… Gatinho… tudo bem?
― E aí? Como está? Você tá no Arthur? ― Ele perguntou preocupado.
― ―
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― Ah… então, eu fui lá… me encontrei ele, conversamos um pouco, ele chorou bastante e acabou dormindo… agora tô em casa…
― Ué… mas você já voltou de lá? ― Ele perguntou.
― Ei… então… sobre isso… eu tava pensando… tudo bem pra você se eu passar a noite lá com ele hoje?
― Ah… sem problemas, por mim, eu acho… ― ele disse.
― É que ele pegou no sono agora… daí aproveitei para vir aqui em casa, desfazer minha mala e preparar uma mochila para levar e passar a noite lá com ele…
― Hmm… entendi… não precisa se preocupar comigo… ― ele disse gentilmente.
― Ei… você não vai acreditar…
― O que? ― Ele perguntou.
― Minha mãe tá namorando…
― É O QUE!? ― Ele gritou do outro lado da linha.
― É… pois é… dá pra acreditar?
― Ela tá namorando quem? ― Ele perguntou.
― Meu tio… ― eu respondi.
― SUA MÃE TÁ NAMORANDO O IRMÃO DELA? ― Ele gritou.
― Não! O tio Humberto! Ele não é meu tio de verdade! ― Expliquei.
― Sua mãe tá namorando o seu Humberto? ― Ele perguntou surpreso.
― Aham… ― eu disse rindo.
― Por que!? ― Ele perguntou indignado.
― Eu sei lá! ― Eu disse rindo. ― Vai entender… eu só sei que cheguei de viagem e fui surpreendido com isso.
― Eita… e como você reagiu? Você tá de boa com isso? ― Ele perguntou.
― Ah cara… sei lá… é estranho… sempre gostei muito dos dois… e vê-los assim… sei lá… é esquisito demais… mas, se eles se gostam, quem sou eu para falar alguma coisa… ― expliquei.
― Entendi… nossa… que isso… estou chocado… ― ele disse rindo.
― É… pois é, Gatinho… agora acho que vou voltar lá no Arthur e esperar ele acordar. A mãe dele disse que ele passou a noite em claro, por isso caiu no sono agora…
― Coitado… ele tava muito mal? ― Ele perguntou.
― Então… ele me pareceu bem abalado. Mas sei lá… é uma situação difícil… ele chorou muito quando eu cheguei lá… deve estar sendo muito difícil para ele…
― Entendo…
― Então… mas era isso que eu queria falar contigo, Gatinho. Vou passar um tempo com ele, que ele tá precisando de um ombro amigo… mas a gente se fala, tudo bem?
― Claro… sem problemas… mande um abraço pra ele… fala que a gente se encontra amanhã, lá na cerimônia…
― Tá… tudo bem… eu falo sim… ― eu disse.
Despedi-me dele e desliguei o telefone. Agora que eu já tinha arrumado minha mochila, saí do meu quarto e fui até a sala, onde encontrei minha mãe e seu Humberto juntos no sofá.
― Uh-rum… ― pigarreei.
― Ah… oi, Lucas… ― minha mãe disse.
― Aqui, mãe… trouxe isso pra você… ― eu disse e entreguei-lhe uma concha, escrito Porto de Galinhas. ― E isso é pra você, tio. ― Eu disse e entreguei-lhe o quadro de areia que comprara lá na viagem.
― Ah! Obrigado, Lucas! ― Seu Humberto respondeu. ― Adorei!
― Que linda, querido! ― Minha mãe agradeceu. ― Obrigada!
― ―
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Entreguei os presentes para os dois e pedi para que me levassem no Arthur novamente. E lá fomos os três mais uma vez para o carro. Acho que nunca deixaria de ser estranho ver os dois juntos. Já dentro do carro:
― Então… ― eu comecei dizendo. ― Vocês dois pretendem se casar? ― Perguntei.
― Lucas! ― Minha mãe me repreendeu.
― Só pra saber se eu devo me preparar… ― eu disse rindo.
Seu Humberto riu da minha pergunta e minha mãe ficou desconfortável.
― Está muito cedo pra pensar nessas coisas. ― Minha mãe disse. ― Estamos juntos não tem nem uma semana, Lucas, seu idiota.
― Você gostaria que a gente se casasse, Lucas? ― Seu Humberto me perguntou.
Ouch. Pergunta difícil. Ei! Espera só um minuto! Era eu quem deveria estar fazendo as perguntas difíceis.
― Sei lá! ― Eu respondi. ― Acho que seria bom para o bebê… ter uma figura paterna presente e tal…
― Você é muito generoso, Lucas. ― Seu Humberto me elogiou.
― Ah… não é nem questão de ser generoso… ― eu disse sendo humilde. ― É mais questão de bom senso, afinal, toda ajuda é bem-vinda na hora de olhar um capetinha desses…
― Vish… se ela for encapetada igual o Lucas, vai ser foda… ― minha mãe disse me zoando.
― Ei! ― Eu disse revoltado. ― Eu lá dei trabalho?
― Nem um pouco… ― minha mãe disse sendo irônica.
― Aff… ― reclamei. ― Sou um santinho.
― Já escolheu um nome para ela, Lucas? ― Seu Humberto perguntou.
― É… quanto a isso… ― eu disse rindo. ― Nem comecei a pensar, na verdade…
― Ah, relaxa, vai ter tempo… ― ele disse sendo gentil.
― Sim… eu espero…
Continuamos o trajeto conversando e botando a conversa em dia até chegarmos na casa de Arthur novamente.
― Tchau mãe, tchau tio. ― Despedi-me deles enquanto descia do carro.
― Tchau, filho! Se cuida! ― Minha mãe disse.
― Amanhã a gente se vê no funeral. Pode ser? ― Perguntei.
― Sim, sem problemas. ― O tio respondeu. ― A gente te pega lá, tchau, Luquinha! ― Ele se despediu de mim.
Assim que eles saíram, toquei a campainha e a mãe do Arthur me recebeu. Entrei para dentro e perguntei para ela se podia ficar no quarto com o Arthur, até ele acordar. Ela me permitiu, então assim eu fiz. Fui até o quarto do Arthur, entrei e ele ainda estava dormindo. Silenciosamente, botei minha mochila na sua escrivaninha e me sentei em sua cadeira. Olhei para ele e ele continuava a dormir calmamente.
Suspirei enquanto me sentava e, em seguida, respirei fundo e fechei os olhos. O quarto estava com um cheiro um tanto quanto familiar. Era o cheiro do Arthur. Uma mistura suave de baunilha, páginas de um livro novo e, claro, menino. Era uma mistura misteriosamente agradável. Aproveitei esse tempo que estava sozinho para refletir um pouco sobre a vida.
Não era estranha a nossa existência? Ou só eu achava isso? Há alguns dias atrás, Arthur chorava porque havia levado o fora de uma menina. Hoje, ele chorava porque havia perdido seu pai. Se, por algum motivo, tais eventos tivessem acontecido na ordem contrária, aposto que ele não choraria por levar um simples fora. Mas a vida era assim mesmo. A cada dia que passava, nós nos tornávamos mais maduros, mais adultos, menos crianças e, consequentemente, menos inocentes.
― ―
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Eu achava aterrorizante e, ao mesmo tempo, fascinante a forma como o universo nos acordava do nada, sem nos dar nenhuma explicação e nos presenteava de tempos em tempos com uma maré doce de dor, sentimentos, prazeres e ilusões.
Bem, a esta altura do campeonato, eu já estava bem confortável com a ideia de gostar de garotos. Devido aos recentes traumas que eu havia passado, hoje eu me sentia mais maduro para encarar a realidade de frente. Não que a adolescência estava ficando mais fácil… muito pelo contrário… crescer estava ficando cada vez mais difícil, a diferença é que eu estava me tornando cada vez mais maduro para lidar com ela usando as novas ferramentas e filosofias que eu aprendia com o tempo, por assim dizer.
Não estava sendo fácil para mim. Não estava sendo fácil para o Rafa. Não estava sendo fácil para o Arthur. Pra falar a verdade, cara… não estava sendo fácil para ninguém. Que vida difícil era essa… enfim.
Pensar nos garotos e na forma como eu gostava deles estava se tornando, aos poucos, o meu mais novo passatempo. Era curioso como o simples desenvolvimento do nosso cérebro mudava totalmente a forma como pensávamos.
Se, antigamente, meu passatempo como criança era me preocupar em descobrir as inúmeras para mim novidades da vida, todas e absolutamente todas contempladas pela nossa física, hoje, estava meio que se tornando um hábito pensar sobre a minha orientação sexual. Estava cada vez mais difícil tirá-la da cabeça. Era como se, em todo instante que eu tirava para pensar, minha cabeça automaticamente se auto inundava com os meus próprios problemas, que incluíam, obviamente, a minha orientação sexual. E, como eu estava dizendo, portanto, pensar nos garotos e na forma como eu gostava deles estava se tornando algum tipo de vício. Mas nada que eu devesse me preocupar agora.
Não era difícil eu me perder em meus próprios pensamentos. Ainda mais agora, com essa bomba que minha mãe me lançara. Eu, sinceramente, acho que demoraria um bom tempo para eu me acostumar com a ideia dos dois juntos. Mas o tio era um cara legal. Já que era pra minha mãe namorar, que fosse com o tio… ele até que era um bom partido. Mas, o que eu acho que realmente me deixou mais confortável nessa história, foi o fato de que este eventual namoro de certa forma solidificaria de vez o divórcio da minha mãe. Adeus papai. Se antes restasse alguma dúvida de que não haveria reconciliação entre meus pais, agora tínhamos total certeza. Fiquei até um pouco feliz pela minha mãe… ela estava seguindo em frente, assim como eu.
Bem, e o fato de que a nossa condição financeira não era lá grandes coisas, não era segredo para ninguém. Eu ainda estava convencido de que teria de arrumar um emprego para ajudar nas despesas do bebê. E eu também havia prometido para mim mesmo que procuraria um emprego assim que virasse o ano, que por sinal, estava quase acabando. Logo chegariam as festas de fim de ano e era bom pegar um embalo nessa virada e aproveitar para botar em prática as vertentes de um novo Lucas.
Ter o tio por perto seria bom, pois ele poderia ajudar nas despesas do bebê. Bom, pelo menos um dia ele me dissera que eu e o Matheus éramos os filhos que ele nunca teve… bem… agora com minha mãe, ele tinha uma oportunidade de criar um filho do zero. Seria bom para ele, seria bom para minha mãe e, portanto, seria bom para mim. Nada que eu devesse reclamar. Mas, sendo bom ou não, continuava esquisito. Era estranho ver dois amigos próximos começarem a namorar do nada… mas acho que a vida era assim mesmo… fazer o que…
E aqui estava eu… perdido em meus próprios pensamentos… viajando num morno devaneio adolescente, mergulhando nos fascínios da perfeição inquestionável da vida.
Depois dessa longa reflexão, peguei meu celular, botei os fones de ouvidos e abri o Netflix. Aproveitei a ocasião para botar o Rick e Morty em dia.
― ―
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Assisti um pouco de Netflix, conversei um pouco com a mãe do Arthur, ajudei ela a cozinhar um bolo, assistimos um pouco de TV juntos, voltei para o quarto do Arthur, peguei um de seus livros que estavam na estante e comecei a ler, mais especificamente O Chamado do Cuco, da J.K. Rowling. Fiz tudo isso enquanto o pobrezinho do Arthur dormia como se não houvesse amanhã.
Quando foi por volta das dez da noite, ele acordou assustado.
― Boa noite… ― eu o saudei enquanto fechava o livro.
― Que horas são? ― Ele perguntou sonolento enquanto se levantava para ficar sentado na cama.
Olhei no relógio e respondi:
― Dez e quinze.
― Eu dormi… ― ele disse tentando explicar o óbvio.
― Eu percebi… ― eu disse sorrindo.
― Foi mal… ― ele se desculpou.
― Como se sente? ― Perguntei.
― Um lixo. ― Ele disse e voltou a se deitar na cama. ― Desculpa… dormi sem querer…
― Não tem problemas… você precisava descansar… ― tentei consolá-lo.
― Você ficou aqui o tempo todo? ― Ele perguntou.
― Não posso dizer que fiquei… ― eu respondi. ― Fui pra casa, trouxe uma mochila pra passar a noite aqui… tudo bem pra você? ― Perguntei.
― Ah… obrigado… desculpe sugar seu tempo… ― ele se desculpou mais uma vez.
― Relaxa… ― eu respondi educadamente. ― Por que você não toma um banho, enquanto eu e sua mãe preparamos o jantar? ― Sugeri. ― Você tá com fome?
― Na verdade não… ― ele respondeu.
― Mas você precisa comer… ― eu lhe orientei. ― Como está a cabeça?
Eu me levantei, fui até ele e botei minha mão em sua cabeça, para ver se ele não estava com febre.
― Está doendo um pouco… ― ele respondeu timidamente.
― Também, você dormiu antes que pudesse beber a água que eu te trouxe…
― Desculpa…
― Tudo bem… ― eu disse. ― Aqui, toma.
Peguei o copo de água que estava em seu criado mudo e lhe entreguei. Ele pegou e começou a beber. Bebeu tudinho até a última gota.
― Valeu… ― ele agradeceu.
― E aí? Banho? ― Sugeri.
Ele deu de ombros, como se não se importasse mais em tomar banho.
― De que adiantar tomar banho? ― Ele resmungou amuado.
― Não precisa tomar, se não estiver afim… ― eu disse.
― É só que… eu não vejo mais sentido em tomar banho… pra falar a verdade, acho que… eu sinto que… é como se a minha vida não tivesse mais sentido… não me sinto mais importante… estou tão perdido… você já se sentiu assim? ― Ele perguntou.
Me sentei na cama junto com ele e botei minha mão em cima da sua.
― Queria ele de volta aqui… queria que tudo isso fosse só um sonho… ― ele resmungou.
― Eu sei… ― eu disse compreensivamente.
― Não é um sonho, é? ― Ele perguntou com uma última gota de esperança.
― Sinto muito… gostaria de dizer que sim… ― respondi triste.
Nessa hora, seus lábios começaram a tremer, daí ele cobriu o rosto com as mãos e abaixou a cabeça.
― ―
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― Desculpa… ― ele disse enquanto se entregava novamente ao choro melancólico.
Olhei para cima e suspirei. Cara… como isso era difícil… acho que nunca tinha ficado tão sem jeito quanto estava agora.
― Está tudo bem… ― eu disse enquanto me aproximava dele. ― Ei… está tudo bem…
Puxei ele para um abraço.
― Você é importante para mim, se servir de consolo… ― eu disse gentilmente. ― Te ver assim me corta o coração.
― Foi mal… ― ele se desculpou.
― Por que você não toma um banho? Você está com uma cara horrível… ― eu sugeri novamente. ― Se não for por você, tome por mim, pelo menos… ― insisti.
Ele me olhou e fez uma cara de sofrimento.
― Só acho que vai te fazer bem… só isso… ― confessei.
― Tá… tudo bem…
Ele finalmente criou coragem e se levantou da cama.
― Eu vou ajudar sua mãe com o jantar.
E assim aconteceu. Fiz Arthur tomar um banho e fui até a cozinha ajudar sua mãe a preparar o jantar. Preparar o jantar mais ou menos, porque ela tinha feito tudo… eu só a ajudei a arrumar a mesa mesmo. Três pratos, três copos. Três garfos, três facas. Três pessoas, três lutos.
Me sentei na mesa junto com Dona Renata e ficamos conversando até Arthur terminar de tomar seu banho. Instantes depois, ele apareceu na cozinha. Sua cara, pelo menos, parecia estar melhor.
― Oi, filho… ― ela o saudou.
― Oi… ― ele respondeu sem vida.
― Fiz o macarrão que você gosta. ― Ela disse enquanto retirava a tampa da panela.
― Ah… obrigado… ― ele agradeceu.
― Está com fome? ― Ela perguntou.
― Não estava… até agora… ― ele disse e soltou um sorrisinho.
Nossa… como foi bom vê-lo sorrir. Foi bom para quebrar a tensão. Tanto para mim, quanto para sua mãe, já que estávamos cansados de tantas preocupações.
― Então senta aqui pra comer com a gente! ― Ela disse enquanto lhe passava um prato.
Nós três nos servimos e começamos a comer. Macarrão com queijo e salsicha. Bem, não falamos muita coisa durante a refeição, até porque estávamos todos ocupados comendo. Apenas o tradicional ‘me passa o sal’. Assim que terminamos de comer, Dona Renata foi até o forno e retirou o bolo que havíamos cozinhado mais cedo.
― Tcharan! ― Ela disse enquanto trazia o bolo até a mesa. ― Olha o que a mamãe e o Lucas preparamos pra você!
Ele riu sem graça e disse:
― Ah… valeu… mas não precisava gente… de verdade…
― Ah, qual é… não vem fazer desfeita do meu bolo! ― Eu disse brincando e ele sorriu.
Era bom vê-lo sorrindo. Que bom que ele estava voltando ao normal. Bem, enfim… comemos o bolo e conversamos um pouco.
Não preciso nem dizer que já era bem tarde. Já se passavam das onze e meia. Eu e o Arthur acabamos indo para a sala assistir um pouco de TV no sofá, para distrairmos um pouco a cabeça. Algum tempo depois, sua mãe apareceu na sala e nos avisou que estava indo dormir, que já era bem tarde. Ela pediu para que nós não demorássemos para deitar, até porque amanhã seria um longo dia. Concordamos com a sua exigência e ela nos deixou a sós, na sala.
― ―
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Continuamos assistindo TV por mais ou menos meia hora, até que o filme que estávamos vendo terminou.
Conforme os créditos iam subindo, olhei para ele e perguntei:
― Ei… está com sono?
― Na verdade não… dormi o dia inteiro… você está? ― Ele perguntou.
Sinceramente? Sim, até porque eu tinha chegado de viagem hoje e ainda não tinha tido oportunidade de descansar. Mas eu podia ficar acordado com ele, se fosse preciso.
― Não muito. ― Menti.
― Tem certeza? ― Ele perguntou novamente.
― Uhum… ― respondi. ― Quer fazer alguma coisa? ― Perguntei.
― Não sei… você quer?
― Não sei… ― respondi.
― Quer ir lá fora? ― Ele sugeriu. ― Está muito calor aqui…
― Pode ser… ― eu concordei.
Acontece que, a casa dele tinha um quintal bem grande. Um grande gramado com a grama bem aparada se escondia entre os muros de sua casa. Tinham algumas cadeiras e uma mesa decorando o lugar, mas, apesar disso, Arthur, ao chegar no meio do quintal, simplesmente se jogou na grama e se deitou de barriga para cima, com os braços e as pernas abertas. E, assim, se pôs a admirar o céu.
Me aproximei dele e me sentei ao seu lado, na grama também. Era uma noite agradável de dezembro. O céu estava limpo de nuvens e carregado de estrelas.
― Está se conectando com o universo, agora? ― Perguntei.
― Tipo isso… ― ele respondeu. ― Devia tentar também.
E devia mesmo. Eu, que estava sentado ao seu lado, girei meu corpo para trás e me deitei na grama também, joguei minha cabeça na grama e abri meus braços e pernas, como ele fizera. Nossas cabeças ficaram lado a lado e meus pés apontavam na direção oposta à dele. Eu podia olhar para ele simplesmente girando a cabeça para o lado. E ele podia fazer o mesmo. Mas, mesmo assim, continuamos olhando para cima, encarando a imensidão celeste.
― Seu quintal é bonito. ― Eu elogiei.
― Valeu… ― ele agradeceu.
― Acho que eu nunca tinha vindo aqui…
― Não? ― Ele perguntou.
― Não…
― Eu sempre venho aqui… ― ele confessou. ― É um ótimo lugar para pensar.
― Estou percebendo. ― Eu concordei. ― E em que você pensa? ― Perguntei.
― Ah… em tudo… ― ele respondeu.
― Tudo é bom… às vezes…
― Às vezes… ― ele concordou.
Ficamos em silêncio por um momento. Apenas observando as estrelas sobre nossas cabeças.
― Curtiu sua viagem? ― Ele perguntou.
― Sim… bastante… ― respondi.
― Como foi?
― Pra quem nunca tinha andado de avião ou visto o mar, posso dizer que foi um tanto quanto inesquecível…
― Imagino… ― ele disse.
― Te trouxe um presente… ― eu disse enquanto fuçava nos meus bolsos.
― Um presente? ― Ele disse surpreso.
― ―
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― É… só não sei se você vai gostar… ― eu disse enquanto tirava a correntinha com pingente de coruja do bolso. ― Aqui! ― Eu disse enquanto passava ela para ele.
― Uau… ― ele disse enquanto a pegava. ― Obrigado! ― Ele agradeceu.
― Gostou? ― Perguntei.
― É linda… ― ele respondeu encantado enquanto levantava ela para o alto e a colocava em contraste com o céu.
― A coruja é símbolo de inteligência… que me fez lembrar de você… ― eu disse gentilmente. ― O menino mais inteligente que eu conheço.
― Você está sendo humilde… ― ele respondeu. ― Você sabe que é tão inteligente quanto eu…
― Não é o que o xadrez disse… ― eu disse e olhei para ele, me lembrando daquele dia.
― O xadrez disse muita coisa… ― ele disse e virou o rosto para mim.
Nossos olhares se cruzaram.
― Preciso te confessar uma coisa… ― ele disse encarando minha boca.
― Eu já sei o que você vai falar… ― eu disse enquanto encarava seus olhos. ― Eu não saberia, se não fosse recíproco.
― Preciso te dizer mesmo assim… ― ele pediu.
― Descobriu há quanto tempo? ― Eu perguntei calmamente.
― Há muito, mas acho que eu só não queria acreditar… ― ele confessou.
― E agora você acredita? ― Perguntei.
― Seus olhos são verdes? ― Ele respondeu. ― Não me faça perguntas óbvias. ― Ele pediu. ― E você? Descobriu há quanto tempo? ― Ele perguntou.
― Há muito… eu só não queria acreditar… ― admiti.
― Acredita agora? ― Ele perguntou.
― Acredito o suficiente para cometer o maior erro da minha vida. ― Respondi.
Nós nos olhamos calmamente por alguns segundos enquanto a Terra continuava a girar lentamente.
― Eu te amo. ― Ele confessou olhando no fundo dos meus olhos.
Fechei os olhos, suspirei, respirei fundo, contei até três e respondi:
― Eu sei… se a ocasião fosse outra, seríamos perfeitos um para o outro, não seríamos?
― O universo não seria cruel o suficiente se não fossemos… ― ele concordou.
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