O menino dos olhos verdes 48
― Naaah! D-Dei… só… um gole… ― ele tentou falar.
― Aff… não acredito nisso, Arthur… ― eu disse pegando a garrafa vazia de vodka do chão.
Estava escrito Smirnoff. Cheirei a boca da garrafa e senti um cheiro forte de álcool.
― Eca! Não sei como alguém consegue beber isso. ― Eu disse para mim mesmo. ― Ei, Arthur, você consegue ficar de pé?
― Ah… cla-ro… ― ele disse.
Quando ele foi se levantar, acabou dando uma cambaleada nervosa, mas eu fui mais rápido e consegui segurá-lo a tempo.
― Aff… vamos sair daqui!
Eu peguei uma de suas mãos e passei seu braço em volta do meu ombro. Aí eu segurei ele pela cintura e disse:
― Ei! Mantém o equilíbrio. Vou te tirar daqui.
― Não! ― Ele disse. ― E-Eu… eu preciso… falar com ela…
― O que!? Tá maluco!? ― Eu exclamei. ― Você não vai falar com ela nesse estado nem fodendo!
― V-Vou sim! Sai! Me larga! ― Ele disse tentando me empurrar.
Mas ele não conseguiu escapar. Assim que percebeu que não tinha forças para sair, desistiu e se apoiou novamente em mim.
― Vem… anda logo! ― Eu disse tentando apressá-lo.
Consegui tirá-lo de lá e o levei para a entrada do salão, mais especificamente para um ambientezinho que continha vários puff’s coloridos. Botei o Arthur sentado em um desses puff’s e dei uma olhadinha na entrada da festa. O Rafa estava ali perto, no telefone, falando com seus pais.
― Arthur do céu… você está bem? ― Eu perguntei preocupado.
― Eu tô! Tô b-bem… sim… estou… bem… ― ele disse espremendo os olhos.
― Cadê seus óculos? ― Eu perguntei.
― Estou… bem… sim… ― ele disse enquanto tombava para o lado.
― Arthur! Foco! ― Eu pedi. ― Ei… onde foi que você deixou seus óculos? Eles estão aí contigo?
― Meus óculos? ― Ele perguntou.
― Sim… seus óculos…
Aí ele levou a mão até a cara e disse:
― Nossa! Meus óculos! Aí… explicaaaa muitas… coisas… estou… bem…
― Arthur! ― Eu o chamei. ― Cadê seus óculos?
― Não… ― ele disse. ― Não… não sei…
― Ai meu senhor do céu! ― Eu disse para mim mesmo.
Eu olhei para o Rafa, que estava a alguns metros de mim, e o chamei. Ele me viu e fez o sinal de espere com a mão. Daí ele falou por mais alguns segundos no telefone, desligou e veio correndo até onde a gente estava.
― O que aconteceu? ― Ele perguntou.
― Fefél… o Arthur bebeu…
― Sério? ― Ele perguntou.
Eu apontei o dedo para Arthur, que estava viajando ali sentado.
― Nossa… caralho… e agora?
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― Ele tá sem óculos… eu tentei perguntar pra ele, mas ele disse que não sabe onde estão… não podemos deixá-lo aqui sozinho!
O Rafa colocou as mãos na cabeça e se ajoelhou na frente do Arthur.
― Arthur! Cadê seus óculos? ― Ele perguntou.
― Ra-Rafael? ― Ele perguntou. ― É você, Rafael?
― Sim! Sou eu! Onde estão seus óculos?
― Meus… meus… óculos?
― Sim! Seus óculos!
Ele levou a mão até a cara e disse:
― Nossa! Meus óculos! Aí… explicaaaa muitas… coisas… estou… bem…
― Viu!? ― Eu exclamei.
O Rafa olhou mais uma vez para Arthur e disse:
― Arthur! Cadê a porra dos seus óculos?
― Meus… óculos? Não sei… ― ele disse.
― Você tem que se lembrar, Arthur. Se esforça! Óculos! Onde você os deixou?
― Aahhhhhhh! ― Ele disse num tom de que tinha se lembrado. ― Meus óculos?
― É!
― Visheee! Não sei…
― Porra! ― Rafa disse. ― Onde você os deixou? Você tem que se lembrar!
― Ahhhhh! Acho que eu sei!
― Aonde estão?
― Na mesa… ― ele disse.
― Que mesa?
― Na mesa dos meninos!
― Que meninos? ― Eu perguntei.
― Na mesa… dos meninos… dos meninos legais…
― Dos meninos legais? Que meninos legais?
― A gente… estava… bebendo… juntos… ― ele disse.
― Aff! ― Eu disse para o Rafa. ― Será que ele deixou na mesa do pessoal do nono ano?
― Que pessoal?
― O pessoal do Caio! Foi ele quem trouxe bebidas pra cá!
― O Caio… aquele Caio?
― Sim…
― Droga! E agora?
― Eu vou lá. ― Eu disse prontamente. ― Alguém tem que ir, né?
― Não vou deixar você ir lá sozinho!
― Alguém tem que ficar de olho no Arthur.
― Fica você, então! Eu vou lá!
― Não, Rafa! Não vou deixar você fazer isso!
― E nem eu vou deixar você fazer isso! Se você for, eu vou também e deixo o Arthur aqui morrendo.
― Aff, Rafael! Por favor, me ajuda aqui!
― Eu quero ajudar! Mas não vou deixar você ir lá não!
― Aff! ― Eu disse revoltado.
― Relaxa. Eu vou lá, pego e saio. Não vai demorar nada.
― Não, meu Gatinho… ― eu disse.
― Deixa comigo! ― Ele disse e veio me dar um beijo na testa. ― Tenta ligar para a mãe do Arthur… vê se ela pode vir buscar ele.
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― Tá… tudo bem… ― eu disse. ― Pega o paletó dele também! Está na nossa mesa!
― Okay!
Aí o Rafa virou as costas e entrou para dentro da festa. Meu coração se apertou contra meu peito. Enquanto isso, eu me ajoelhei na frente do Arthur e disse:
― Arthur! Me escuta! Preciso ligar pra sua mãe.
― NÃO! ― Ele gritou. ― ELA NÃO! POR FAVOR, LUCAS! ― Ele disse me segurando pelo colarinho da camisa.
― Você vai pra casa agora, Arthur.
― NÃO! ELA… ELA NÃO… ELA NÃO PODE… ME VER… NESSE ESTADO! POR FAVOR, LUCAS!
― Mas o que você quer que eu faça?
― Me… deixa… eu ir… casa… ir para… sua… casa… por… por favor…
― Eu não vou pra casa… eu vou dormir na casa do Rafa.
― Pode… ser… ― ele disse.
― Mas, de qualquer modo, nós precisamos avisar sua mãe.
― NÃO! ― Ele tentou resistir.
― Sim senhor!
― Não… papai…
Meu deus… esse garoto devia estar viajando. Papai? Será que ele estava pensando que eu era o pai dele? Hahaha…
― Não sou seu pai, Arthur!
― Meu… pai? O que tem ele? Ele chega hoje?
― Não!
― Ele não vem, né? ― Ele disse com uma voz melancólica. ― Ele nunca vem, né?
― Arthur! Não quero nem saber! Vou ligar pra sua mãe! ― Eu disse autoritariamente.
― NÃO! ELA NÃO PODE ME VER ASSIM!
Aí ele começou a chorar.
― O que foi? ― Eu perguntei.
Aí ele começou a rir.
― Rá! ― Ele disse rindo. ― Me peguei!
― Hã? Aff… já chega! Vou ligar pra sua mãe. Me dá seu celular!
Eu disse e enfiei a mão no bolso de suas calças.
― Cadê seu celular? ― Eu perguntei sério.
― Jamais saberá! ― Ele disse rindo.
Enfiei a mão no outro bolso e achei.
― Retardado. ― Eu disse.
― Me dá! ― Ele pediu estendendo a mão.
Liguei seu celular e cliquei no ícone de fazer ligações. O último número discado estava salvo com o nome de “casa”. Apertei o botão de ligar e botei o celular na orelha.
― NÃO! ― Arthur gritou. ― ELA VAI PEDIR PRA FALAR COMIGO! MANDA MENSAGEM DE TEXTO! POR FAVOR!
Droga! Mesmo ele estando bêbado, ele continuava inteligente. Ele tinha razão. Cancelei a ligação e perguntei:
― Sua mãe tem WhatsApp?
― Tem… só abrir aí… ― ele disse.
Abri seu WhatsApp e pude visualizar todas as suas conversas. Em primeiro lugar, estava o grupo do sétimo ano. Tinha uma galera conversando nesse exato momento, provavelmente
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estavam discutindo sobre o baile. Quando vi o que estava em segundo lugar, quase caí pra trás. Coloquei a mão na cabeça e disse:
― Meu deus, Arthur… o que foi que você fez?
Em segundo lugar nas suas conversas, estava o bate-papo da Giovanna. Apertei nele para ler o que ele tinha escrito.
― Arthur: Querida gi… eu soh2 e queriadizerque. Eu te amo mto. . Mto mesmo. .. penso em vc a todos cometo. Minha linda. Pq vc tinha que fazer isso comigo…pq vc ficou com aquela vaca… vai se fider. .Sja filha duma pura… mas6 eu tb amp msm assim… beijos queria fica com vc hj mas Jaque vc ñ quis… posso fazer nada… vaca.. vai tomar no seu cu… kd o Lucas… eu vou beijar ele de novo… eu sei que vc gosta dele e EU vou 9fazê contigo o que vc fez comigo… morra de inveja…
Geeeeeeeente! O que esse garoto tinha feito? Eu não sabia se ria ou se ficava triste… confesso que fiquei até lisonjeado por ele ter me citado, mas… meu deus, Arthur! Ele tinha acabado de zerar a vida… puta que pariu…
Pois é… eu fiquei tão chocado quanto você… a SORTE é que a Giovanna ainda não tinha visualizado. Apaguei a mensagem do celular do Arthur, ele não precisava ler isso quando acordasse amanhã. Eu teria que ir atrás da Gi o mais rápido possível, para tentar impedir um desastre. Mas, antes, eu tinha que conversar com a mãe do Arthur. O terceiro bate-papo do WhatsApp dele era comigo e o quarto com sua mãe. Cliquei no quarto e li as seguintes mensagens:
― Renata (mãe): Mamãe te ama, meu amor!
― Arthur: Estou indo dormir.
― Renata (mãe): Boa noite, meu amor! Beijos!
― Arthur: Ok…
Eu achei a conversa dele engraçada. Será que ele tinha vergonha de responder aos carinhos da mãe? Que fofinho! Bem… eu sei que não devia fazer isso, mas… a curiosidade falou mais alto. Subi algumas mensagens e xeretei a sua conversa com sua mãe:
― Arthur: Mamãe.
― Renata (mãe): Oi, filho?
― Arthur: Você vai demorar?
― Renata (mãe): Filho, vou precisar ficar até mais tarde aqui na loja… devo chegar aí meia noite. Não precisa me esperar para dormir.
― Arthur: Quer que eu deixe a chave no portão?
― Renata (mãe): Não precisa.
― Arthur: Mamãe…
― Renata (mãe): Oi, filho?
― Arthur: O telefone tocou hoje… mas não deu tempo de atender…
― Renata (mãe): Não tem problema filho…
― Arthur: Será que era ele? Faz tempo que ele não liga…
― Renata (mãe): Não sei…
― Arthur: Será que ele está bem? Por que ele não tentou ligar de novo?
― Renata (mãe): Claro que ele está bem! Para de ficar com coisa na cabeça, Arthur!
― Arthur: Mamãe…
― Renata (mãe): Oi…
― Arthur: Tô com saudades dele…
― Renata (mãe): Eu também…
― Renata (mãe): Só aguenta mais um mês, filhão…
― Renata (mãe): Natal está chegando… você tem que ser forte…
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― Arthur: É… eu sei…
― Renata (mãe): Já fez a lição de casa?
― Arthur: Sim…
― Renata (mãe): Tá sozinho aí?
― Arthur: Claro, né, mãe!
― Renata (mãe): Fecha a casa direitinho.
― Arthur: Tá… pode deixar…
― Renata (mãe): Mamãe te ama, meu amor!
― Arthur: Estou indo dormir.
― Renata (mãe): Boa noite, meu amor! Beijos!
― Arthur: Ok…
Olhei para Arthur e ele tinha jogado a cabeça para trás e fechado os olhos. Nossa… tadinho… isso não era engraçado… era triste… era imensamente triste… ver o que a infelicidade podia fazer com uma pessoa. Por que ele tinha que ter ido procurar consolo nas bebidas? Será que ele temia o amor e a amizade tanto assim? Será que ele não me via aqui, de pé, pronto para enfrentar qualquer coisa com ele e por ele? Droga, Arthur!
― Arthur: Mamãe…
Eu digitei.
― Arthur: Meu amigo Rafael me convidou para ir dormir na casa dele… alguns garotos do colégio também vão… eu posso ir também? Aí a senhora não precisa se preocupar em vir me buscar… pode ser?
Prontinho… agora era só esperar ela responder. E, por falar nisso… onde será que o Rafa estava? Ele já estava demorando demais… comecei a ficar preocupado. Tentei dar uma olhadinha no salão, mas eu não tinha visão das mesas. Olhei para o Arthur e ele estava paradinho igual uma pedra. Ele tinha fechado os olhos e jogado a cabeça para trás no puff. Eu fui até ele e me ajoelhei do seu lado.
― Arthur… ei… eu já volto, tá? Não sai daqui! Eu vou ali procurar o Rafa e já venho, um minuto! Não some! Tá bom?
― Uhum… ― ele disse sem olhar na minha cara.
― Estou com seu celular. Não vou deixar ele com você, porque senão você vai acabar fazendo besteira.
― Tá… ― ele concordou.
Me levantei e fui procurar o Rafa. Entrei no salão e ainda estava tocando um funk bem alto. Fui até o fundão e pude ver a mesa dos meninos do nono ano. Eles estavam todos lá bebendo, inclusive o Caio. Mas não vi sinal do Rafa. Dei uma olhadinha pelo salão até encontrá-lo num canto encarando a mesa com os braços cruzados. Fui correndo até ele.
― E aí! Conseguiu?
― Não…
― Por que?
― Porque eu ainda não fui lá…
― Por que?
― Não sei… eu estava esperando… para ver se eles saem dali…
Aff… ele estava com medo de ir até lá.
― Mas você chegou a ver se os óculos estavam lá?
― Acho que sim… são aqueles dali, não são? ― Ele disse e apontou para os óculos que estavam em cima da mesa dos meninos.
― É… são aqueles sim… deixa quieto, Rafa… eu mesmo vou lá pegá-los. ― Eu disse já que ele estava com medo.
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― Não! ― Ele gritou e me segurou pelo braço.
― O que foi?
― Eu pego.
― Não! ― Eu gritei. ― Você não precisa fazer isso!
― Não vou deixar você ir, eu vou!
― Não é disso que eu estou falando! Para! Para, Rafa! Porra! Você não precisa me tratar assim! Igual bebê, sempre! Eu posso muito bem ir até lá e pegá-los. Para de me tratar como se eu fosse uma criancinha indefesa! Eu sei me cuidar!
Quando eu disse isso, ele ficou me olhando sem graça.
― Porra! Foi mal! Desculpa! Viu o que você me fez fazer? Droga! ― Eu xinguei.
Virei as costas para ele e caminhei em direção a mesa dos garotos. Era só chegar lá, pegar a porra dos óculos e sair. Eu não precisava nem olhar na cara de ninguém.
Quando cheguei lá, alguns garotos me olharam confusos, inclusive o Caio. Eu fui até onde estavam os óculos, os peguei, virei as costas e saí. Foi quando eu tive o desprazer de ouvir um comentário muito infeliz:
― Ué… o que os óculos dele faziam aqui? ― Disse o primeiro garoto.
― Não são dele… são daquele veadinho que a gente embebedou… ― Disse o segundo garoto.
Eu ia deixar passar… juro que ia deixar passar, se o segundo garoto não fosse o Caio. Mas aquilo me fez perder a paciência. Eu já estava nos limites com ele e com qualquer outro garoto do tipinho dele. Eu não só estava com raiva porque ele tinha feito um comentário homofóbico, como também estava com raiva porque ele tinha mexido com o Arthur. Ele tinha embebedado meu amigo. Eu não ia deixar passar.
Me virei, voltei até a mesa deles e comecei o barraco… apontei o dedo na cara do Caio e só puis o que eu estava guardando fazia muito tempo para fora:
― VOCÊ DEVE SE ACHAR MUITO FODA, NÉ?
Nessa hora, todos os olhares da mesa se dirigiram a mim. Havia pelo menos sete garotos bem maiores que eu esperando para ver o que eu tinha para falar.
― VOCÊ DEVE SE ACHAR O LEGALZÃO, NÉ? AH, OLHA PRA MIM! DEI BEBIDA PRA UM MOLEQUINHO DE DOZE ANOS! SOU O FODÃO!
Os garotos estavam todos confusos. Alguns trocaram olhares entre si, outros olharam para a cara do Caio, que me olhava atento e em silêncio.
― OLHA, GENTE! EU SOU O MACHÃO, MAS, QUANDO NINGUÉM TÁ VENDO, EU DOU UMA CHUPADINHA NO PAU DO HERMES!
Quando eu disse isso, alguns garotos da mesa começaram a rir.
― VAI TOMAR NO SEU CÚ! SEU FILHO DUMA PUTA! VOCÊ É UM ZÉ NINGUÉM! ARTHUR É MIL VEZES MAIS HOMEM QUE VOCÊ!
Caio se virou para o garoto que estava ao seu lado e disse:
― Dá pra acreditar nisso?
E eu finalmente terminei meu discurso gritando:
― PEGA ESSA GARRAFA DE VODKA E ENFIA NO MEIO DO SEU CÚ!
Nessa hora, eu senti um braço passando com força pelo meu pescoço e me prendendo em um mata leão.
― Ficou maluco? ― O Rafa disse enquanto me puxava para trás.
― Dá pra acreditar nessas duas bichinhas? ― Caio disse para seu amigo.
― VAI PRO INFERNO!
Eu gritei mostrando os meus dois dedos do meio para ele, enquanto o Rafa me tirava dali me enforcando pelo pescoço.
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― FOI ELE QUEM QUIS BEBER, SEU MALUCO! ― Caio gritou para mim.
― MENTIROSO! SEU MENTIROSO DO CARALHO! ― Eu gritei para o Caio. ― ME SOLTA! ― Eu gritei para o Rafa.
― Você só pode ter perdido a porra do juízo! ― Ele disse no meu ouvido enquanto me sequestrava dali. ― Ficou maluco, Lucas?
― ME SOLTA!
Mas ele só foi me soltar quando chegamos na entrada do salão.
― O que você tem na cabeça, hein? Droga! Quer cometer suicídio?
― DROGA! ― Eu xinguei para mim mesmo.
Chutei a placa que estava na entrada e que dizia “Bem-vindos, formandos 2018!”. O suportezinho de madeira que a segurava quebrou e ela caiu no chão.
― PORRAAAAAA! ― Eu gritei com os olhos cheios d’água.
― Para, Lucas! Para que tá feio! ― Ele disse me abraçando com força. ― O que foi que deu em você?
― ELES DISSERAM…
― Shhhh! Para de gritar, meu amor! Para de gritar!
― Eles disseram… que tinham embebedado o Arthur…
― Aff… e você foi dar bola pra eles?
― Fui…
― Não chora não, meu amor, agora a gente tem que ser forte… pelo Arthur… ele precisa da gente…
― Tá… ― eu disse enxugando os olhos.
― Eu sei que você tá nervoso, mas… a gente já tá indo embora… se acalma… você não quer que ninguém te veja nesse estado, né?
― Não…
Saí dos braços dele e fui até o ambientezinho dos puff’s, onde eu tinha deixado o Arthur. Minha pressão caiu quando eu não o encontrei mais lá.
― Não… ― eu disse colocando a mão na testa. ― Filho da puta!
Olhei para o Rafa e ele estava de boca aberta.
― Vamos logo! ― Eu gritei e saí correndo de volta para a festa.
Quando chegamos no centro do salão, eu disse para o Rafa:
― Vai por ali que eu vou por aqui! Se encontrar, manda mensagem!
― Beleza!
Então nós nos separamos e fomos atrás do Arthur. Saí correndo pela festa na esperança de encontrá-lo antes que ele fizesse alguma cagada… mas não teve como. Quando eu o encontrei, só pude vislumbrar Giovanna chamando um tapa na sua cara, sem que eu pudesse fazer nada para impedir.
― NÃO! ― Eu gritei correndo na direção dos dois. ― Não bate nele, por favor! ― Eu pedi.
Quando alcancei os dois, eu perguntei:
― Gi! Pelo amor de deus! Não escuta o que ele tá dizendo, ele tá bêbado!
Nessa hora, a Bruna também chegou. Daí a Gi disse irritada:
― É bom que esse filho da puta esteja bêbado mesmo!
― Olhos… Verdes? ― O Arthur disse meio tonto enquanto colocava a mão no canto da boca, numa tentativa inútil de tentar amenizar a dor.
― O que aconteceu? ― Bruna perguntou enquanto pegava na mão da Giovanna.
― Nada… só mais um idiota tentando me assediar…
― O que foi que ele disse? ― Eu perguntei.
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― Um monte de merda.
― Droga… ― eu disse para mim mesmo.
Foi quando recebi um tapa na cara fortíssimo da Giovanna. O Rafa deve ter visto, porque ele veio correndo pra cá. Ela me olhou puta da vida e disse:
― Eu te confiei meu segredo, Lucas! Olha pra quem você foi contar! Achei que você fosse diferente! Mas, pelo visto, você é igualzinho aos outros! ― Ela se referia aos homens. ― Não vale nada!
Eu fiquei arrasado quando ouvi isso. Não sabia nem o que falar… só queria desaparecer da face da Terra e nunca mais ver ninguém. Eu sabia que tinha feito merda, então fiquei em silêncio e deixei ela falar.
― Ele me chamou de um monte de coisas… e falou que a Bruna também era uma vagabunda!
― Ele não é assim, Gi! Perdoa ele! Ele tá bêbado!
― Olha, quer saber? Foda-se! Foda-se ele, foda-se você! Vem, Bruna! ― Ela disse, pegou na mão da Bruna e virou as costas.
― Espera! ― Eu gritei.
Ela voltou a olhar para mim. Daí eu disse:
― Pelo menos apaga a mensagem que ele te mandou…
― Que mensagem? ― Ela perguntou enquanto pegava o celular.
― Não lê! ― Eu pedi. ― Só apaga…
Mas ela não me ouviu…
― “Querida Gi…” ― ela leu em voz alta. ― “Eu só queria dizer que eu te amo muito! Muito mesmo!” Aff… que palhaçada!
― Não lê! ― Eu disse tentando tomar o celular da mão dela, mas ela se esquivou e continuou lendo.
― “Penso em você a todos os momentos! Minha linda! Por que você tinha que fazer isso comigo? Por que você ficou com aquela vaca?” ― Ela disse e olhou para a Bruna, depois voltou a ler.
― Não lê! Não lê! ― Eu implorei.
― “Vai se foder! Sua filha duma puta!” O que que tá escrito aqui? Ah! “Mas eu te amo mesmo assim… beijos! Queria ficar com você hoje, mas, já que você não quis, eu não posso fazer nada… vaca… vai tomar no seu cú… cadê o Lucas?”
Nessa hora, ela parou de ler e ficou de boca aberta. Ela deve ter pensado que o Rafa não sabia sobre o meu beijo com Arthur e que eu teria traído ele. Mas, mesmo estando furiosa comigo, não quis ser a responsável por acabar com o meu namoro e com a minha vida, daí não terminou de ler a mensagem. Resolveu ter compaixão. Talvez, porque, no fundo, ainda fosse minha amiga.
Daí ela parou de ler e me olhou com cara de nojo.
― É… pelo visto, nossa amizade foi uma via de mão única, né, Lucas? Só a retardada aqui que te contava tudo… tenho nojo de você! Mas, tudo bem… não vou esquentar a cabeça não, vamos, Bruna! Vamos sair daqui!
As duas viraram as costas e foram embora. Eu estava sem palavras. Arrasado. Eu só queria chorar. O mais triste era ser o errado na história e não ter como me defender. O Rafa percebeu meu desespero e veio me dar um abraço. Eu estava abalado demais para pensar em retribuir. Daí ele me abraçou e botou a cabeça no meu ombro, enquanto eu olhava para o vazio.
― Relaxa, meu amor… ela só está estressada… logo, logo vocês fazem as pazes…
― Eu sou um idiota, Rafa… ― eu disse e comecei a chorar.
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Ele me abraçou mais forte e eu finalmente retribuí o abraço. Apoiei minha cabeça no seu ombro e apertei seu corpo.
― Por que…? ― Eu disse aos prantos.
― Meu amor… olha, eu sinto muito, mas você tem que ser forte agora… tem alguém que precisa de você…
Arthur tinha se sentado em uma das cadeiras que tinham ali. Ele tinha apoiado os cotovelos nos joelhos e tampado a cara com as mãos. Assim que eu me aproximei dele, percebi que ele estava chorando.
― Ei… Lu… meu pai tá me ligando… ele já deve estar aqui… temos que ir… ― Rafa disse.
― Tá… ― eu disse para o Rafa e voltei a olhar para o Arthur. ― Arthur… me escuta… a gente vai lá pra casa do Rafa agora, tudo bem? Eu mandei uma mensagem pra sua mãe avisando, então você não precisa se preocupar.
Ele fez que sim com a cabeça.
― Você consegue levar? Temos que ir, o pai do Rafa já está aqui.
Daí ele se levantou e ficou de pé com um pouco de dificuldades.
― Tô com sono… ― ele disse.
― Ei… aguenta só mais um pouquinho… você já vai dormir…
Segurei ele pela cintura e nós fomos saindo da festa juntos.
― Ei… vamos com o pai do Rafa… então tenta… tenta não parecer bêbado… okay? Você tem que lutar até chegarmos em casa…
― Tudo bem… ― ele respondeu. ― Eu… eu tô bem… pode me soltar…
Eu soltei sua cintura e ele conseguiu continuar andando normalmente. O Rafa foi na frente abrindo caminho na festa enquanto a gente seguia atrás.
― Ali o carro do meu pai! ― Rafa apontou assim que saímos do salão.
Peguei o celular do Arthur para ver se sua mãe tinha respondido, mas ela nem tinha visualizado ainda. Daí eu mandei outra mensagem:
― Arthur: Mamãe, estou indo para a casa do Rafael! Não precisa se preocupar comigo! Amanhã, quando acordar, ligo. Beijão!
Após enviar, percebi que tinha escrito “Beijão”… mas, pensando bem… o Arthur nunca diria isso… comecei a me questionar se a sua mãe não desconfiaria dele. Esse pensamento me preocupou. Eu não conseguia imaginar o que aconteceria se ela descobrisse que seu filho tinha bebido… espero que Arthur saiba como se virar com ela amanhã…
Fomos até o Toyota sedan prateado do pai do Rafa e entramos. O Rafa foi no banco da frente e, eu e o Arthur, no banco de trás.
― Pai… é… você se lembra do Arthur, né?
― Ah! ― Ele disse quando viu Arthur entrando no carro. ― Oi, Arthur! Oi, meu genro favorito! Boa noite!
― Oi, seu Danilo… ― eu disse um tanto quanto envergonhado por ele me chamar assim.
― Boa noite! ― Arthur respondeu enquanto se ajeitava no banco.
― Nossa… o que aconteceu? Vocês estão bem? ― Ele perguntou quando viu que meus olhos estavam inchados e vermelhos.
― Uhum… ― eu respondi.
Daí ele olhou para o Rafa, para confirmar se tinha acontecido alguma coisa, mas o Rafa deu de ombros.
― Pai, o Arthur pode ir dormir lá também?
― Ah… claro que pode! ― O pai do Rafa respondeu. ― Por que? O que aconteceu pra ele ir lá pra casa?
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Nessa hora, nem eu e nem o Rafa sabíamos responder, pois não podíamos falar a verdade e não tínhamos pensado em nenhuma mentira. Mas o Rafa conseguiu desenrolar alguma coisa:
― Ah, nada! Já que o Lucas ia dormir lá, a gente chamou o Arthur também, pai… pra gente poder brincar e jogar videogame.
― É mesmo, Arthur?
― Aham… ― ele confirmou. ― Posso ir?
― Ah, não tem problema nenhum, Arthur… eu até prefiro assim, pois você pode colocar um pouco de juízo na cabeça desses dois…
É… até parece que ia ser o Arthur que ia impedir a gente de… ah, você sabe…
― Mas você avisou sua mãe, né? Ela sabe disso?
― Sim senhor. ― Arthur respondeu.
― Ah, então tá ótimo!
UFA! Tínhamos conseguido driblar o pai do Rafa! Depois disso, o Rafa foi conversando com ele durante o caminho inteiro, para não dar oportunidade de ele conversar com o Arthur e perceber que ele estava tri-loco da vida…
O trajeto festa-casa foi bem agradável. O pai do Rafa ligou o aquecedor e o carro ficou bem quentinho. Arthur foi dando umas pembadas para o lado, mas eu sempre o cutucava e ele acabava acordando assustado.
Quando chegamos na grande casa da família Mackenzie, seu Danilo entrou com o Toyota na garagem. Descemos do carro e o Arthur deu sua primeira cambaleada. Sorte que seu Danilo não viu. Eu o segurei pelo cotovelo e disse baixinho no seu ouvido:
― Pelo amor de deus, Arthur! Aguenta mais um minuto! Já vamos te botar na cama! ― Ele fez que sim com a cabeça.
Daí nós quatro entramos na casa pela porta da garagem. Primeiramente, passamos por um longo corredor. O pai do Rafa foi na frente, acendendo as luzes da casa, o Rafa foi logo atrás e eu fiquei por último, assistindo a cada passo que o Arthur dava. Passamos pelo hallzinho da entrada e, finalmente, chegamos na linda sala espaçosa da casa deles.
Mas, quando estávamos quase chegando no sofá, Arthur deu uma cambaleada forte, caiu e bateu o joelho na mesinha de madeira que ficava no centro da sala. E, ao invés dele gritar de dor ou chorar, ele começou a rir.
Nessa hora, o pai do Rafa correu para socorrê-lo. Ele se ajoelhou ao lado do Arthur e perguntou:
― Arthur, você está bem? ― Aí ele deu uma cheiradinha no Arthur e deve ter percebido o cheiro de álcool, pois, logo em seguida, ele olhou sério para o Rafa.
― Estou… sim… senhor… ― ele disse meio enrolado como só um bêbado diria.
Nessa hora, eu botei a mão na cara. O pai do Rafa ajudou ele a se levantar e o botou no sofá. Arthur se atirou no sofá e soltou um suspiro de alívio.
― Ah… finalmente… estou… em… casa…
Seu Danilo olhou bravo para o filho e disse:
― Rafael, vem aqui na cozinha rapidinho pra gente ter uma conversinha séria.
Rafa soltou um suspiro mal-educado e seguiu o pai até a cozinha. Estava acabado… Arthur tinha sido pego… nós tínhamos sido pegos. Quando o Rafa saiu de cena, eu fui até o sofá em que Arthur estava e me sentei ao seu lado.
― Droga, Arthur… o pai do Rafa descobriu!
― Vish… ― ele disse rindo. ― Fodeu! Já posso dormir, mamãe? ― Ele disse caindo de sono.
― Não sou sua mãe, seu idiota! E, não! Você não pode dormir ainda!
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― Mas… mamãe, por favor… me deixa faltar hoje…
― Ah, deus do céu! ― Eu disse para mim mesmo. ― ARTHUR! ― Eu gritei no seu ouvido.
― Oi! O que?
― O pai do Rafa descobriu! Você consegue me entender?
― O que? ― Ele disse com uma cara de assustado. ― Como ele descobriu?
Eu botei a mão na cara.
― Porra, Arthur! Era só você ter aguentado mais um minuto!
Ele ficou sem graça e fez cara de choro.
― Não… não chora não! ― Eu pedi.
Mas, não teve como, ele começou a chorar. Ele, que estava deitado no sofá, afundou a cara no meu colo e me chamou:
― Luuuuuuuu…
― Oi, Arthur?
― Tô tonto…
― Eu sei… ― eu disse fazendo um carinho no cabelo dele.
― Tô passando mal…
― Eu sei…
― Desculpa… me desculpa…
Nossa, me partiu o coração vê-lo pedir desculpas…
― Por que? Você não fez nada de errado!
― Como não? Além de beber, eu ainda estou dando trabalho pra vocês…
― Não, Arthur… não se preocupa… você não fez nada de errado…
Depois de mais um minuto, o Rafa entrou na sala com cara de emburrado e veio se sentar no sofá com a gente. O pai dele entrou logo em seguida com uma expressão séria no rosto e veio se sentar na mesinha que ficava em frente ao sofá. Nessa hora, Arthur se levantou, tomou jeito e ficou sentado no meio de nós dois.
― Lucas, você também bebeu? ― Ele perguntou.
― Não senhor! ― Eu respondi prontamente. ― Seu Danilo…
― O que?
― Arthur… foram os meninos grandes que deram bebida pra ele… por que ele levou um fora de uma garota…
― Olha, Lucas, eu não quero saber, tá? ― Nessa hora, eu fiquei muito sem graça e senti que tinha perdido toda moral com meu sogro. ― Bebida é coisa séria. E ele não só bebeu, como também veio aqui pra casa, não é, Arthur?
― Desculpa, senhor… ― Arthur tentou se desculpar.
― Não é pra mim que você tem que pedir desculpas. ― Ele disse sério. ― Sua mãe sabe que você está aqui? Lucas, o Rafael me disse que foi você quem falou com ela.
― Na verdade, eu mandei uma mensagem, senhor Danilo. ― Eu disse.
― E o que ela respondeu?
Nessa hora, eu percebi que tinha feito merda.
― Ela ainda não visualizou, senhor… ― tentei ser honesto. Não adiantava mais mentir.
Nessa hora, ele botou a mão na cabeça.
― Ah, meu deus, Lucas… eu esperava isso dele… ― ele disse e apontou para o Rafa. ― Mas não de você. Arthur, eu preciso do número da sua mãe.
Arthur fez cara de choro, botou a mão na cara e disse:
― 3… 6… 3… 9…
― ―
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Seu Danilo foi discando o número que o Arthur falou no seu celular. Ele botou o celular na orelha e se levantou da mesinha, daí ficou andando de um lado pelo outro pela sala enquanto esperava chamar. Olhei para o Rafa e ele estava com a cara fechada e com os braços cruzados.
― Alô? É a dona…?
― Renata! ― Arthur exclamou.
― Renata? Ah… oi… desculpa ligar esse horário, mas… eu sou o pai do Rafael… Rafael Mackenzie? Amigo do Arthur… é… do Arthur… sim… e, seu filho, Arthur… sim, ele está aqui em casa… é… sim… aconteceu alguma coisa sim… o Arthur bebeu um pouquinho de Álcool no baile hoje… não… não… sim… é… ele está aqui em casa… sim, está bêbado… o Rafael e o Lucas o trouxeram aqui… os meninos disseram que mandaram mensagem pra você, mas você não visualizou ainda… sim… é… eles avisaram sim… entendi… não… tudo bem… claro…
Daí o pai do Rafa se aproximou da gente e disse:
― Sim… ele está aqui sim… passo sim… ― Aí ele entregou o celular para Arthur. ― Ela quer falar com você.
Arthur, muito sem graça, pegou o celular e atendeu.
― Oi, mamãe… … … … … porque sim! … não! … eu sei! … eu sei! … me desculpa! Tá! Eu entendi! … com o Lucas! … não, ele não! Só eu… porque eu quis, mãe! Não! Ele não tem nada a ver com isso! Não! Mamãe… mamãe… me escuta… podemos discutir isso amanhã? … aqui! … espera!
Arthur tirou o telefone da orelha e olhou para o pai do Rafa.
― Seu Danilo, ainda posso dormir aqui? Mesmo assim?
― Claro… ― ele concordou.
Arthur voltou a colocar o celular no ouvido.
― Posso… sim… tá bom… desculpa… eu sei… … … … … eu me viro, aqui… tá bom… passo… tchau… te amo…
Arthur terminou de falar e entregou o celular para seu Danilo.
― Ela quer falar com o senhor.
Ele pegou o telefone e botou na orelha.
― Oi… não… não tem problema nenhum… sim… se ele passar mal, eu te ligo… claro… amanhã ele pode almoçar aqui também, se estiver tudo bem com a senhora… claro… o Lucas vai ficar aqui também, então… não… problema nenhum… imagina… eu é que peço desculpas pelo incomodo… não! Que isso… sem problemas… tá certo… desculpa mais uma vez… sim… eu tomo conta sim… até mais… um abraço!
Daí, finalmente, ele desligou o telefone e nos olhou sério.
― O que vocês fizeram hoje, foi muito errado, meninos. Os três.
― Sim senhor… ― dissemos ao mesmo tempo.
― Rafael, já sabe, né? Não preciso nem falar que o senhor está de castigo. Aproveita sua noite com seus amigos que o senhor vai ficar um bom tempo sem sair de casa. E não quero nem saber que você entrou de férias hoje. Acabou. ― Daí foi a vez do Arthur. ― Olha, garoto, não me importa se você bebeu pra chamar atenção ou se foi por causa de garotas… bebidas são um problema e não toleramos isso aqui. Você tem quantos anos?
― Doze, senhor. ― Arthur respondeu.
― Doze anos… com dozes anos eu ainda brincava de boneco… não preciso nem falar que o que você fez foi errado, né?
― Sim senhor…
― Não sou senhor de ninguém… pode responder só sim ou não… ― Daí ele olhou para mim. Minha vez. ― E você, Lucas…
― Eu sei… eu sei… ― eu disse completamente sem graça.
― ―
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― Não, não sabe. A mãe dele poderia estar doida atrás dele agora… você já é grandinho pra saber que o que você fez foi errado, né?
― Sim senhor… ― eu disse.
― Eu esperava isso dele… ― ele disse novamente e apontou para o Rafa. ― Mas não de você. Espero que entenda e que não faça mais nada de errado.
― Sim senhor… ― eu concordei.
― Não queria ser chato, meninos, só estou tentando ser pé no chão aqui. Bom… já chega de bronca… os três vão pra cama agora… nada de vídeo game ou de televisão, entendido?
― Sim senhor…. ― nós três dissemos ao mesmo tempo.
― Então… já pra cima! Terminamos aqui.
Nós nos levantamos do sofá e subimos as escadas para o quarto do Rafa. Eu ajudei o Arthur a subir, já que ele ainda não estava conseguindo controlar bem o equilíbrio. Chegando lá, meu colchão já estava montado e o pai do Rafa buscou outro no quarto do Gabriel, para arrumar para o Arthur. Ele mesmo arrumou o colchão, enquanto eu e o Rafa ficamos de olho no Arthur, que estava encostado na parede com os olhos fechados.
― Pronto… acho que é isso, meninos… Arthur, você já pode se deitar, se quiser… ― seu Danilo disse.
Arthur se jogou no colchão de qualquer jeito e apagou. Dormiu de terno, gravata, sapato e tudo.
― Meninos, acho que agora vocês já estão bem, né? Lucas?
― Ah, sim… obrigado seu Danilo… desculpa por hoje…
― Não! Relaxa! Não estou bravo com você… nem com você, Rafael… e nem com o pobrezinho ali que morreu… só tive que dar a bronca, porque… bem… eu sou o pai, né? E temos que fazer isso às vezes… pra botar juízo nessas cabecinhas desmioladas de vocês!
― Obrigado… obrigado mesmo… ― eu disse e fui dar um abraço nele.
― Awnt… ― ele se comoveu. ― Olha como o Lucas é carinhoso, Rafael! Por que você não é como ele? Vê se ensina uns modos para meu filho depois, viu, Lucas?
― Pode deixar, seu Danilo. Ouviu, Rafa? ― Eu disse rindo dele.
Rafa fez um biquinho de bravo.
― Bom… agora que vocês já estão em casa, não demorem para dormir, tá bom? Eu vou me deitar porque estou exausto… se o amigo de vocês passar mal a noite, me acordem, okay?
― Tá bom, pai… ― Rafa disse. ― A gente ainda vai comer lá embaixo, pode ser? Sobrou pizza?
― Mas vocês não comeram na festa? ― Ele perguntou.
― Não, pai! ― Rafa disse. ― Só tinha aqueles friozinhos que não matam a fome…
― Hum… bom… não sei se sobrou pizza… dá uma olhada lá… mas não demorem pra dormir, tá bom? Eu sei que amanhã é domingo e que vocês estão de férias, mas sem exageros! Oito da manhã quero todo mundo de pé!
― Rá rá rá… ― Rafa disse. ― Não vamos abrir os olhos antes das onze!
― É o que veremos! Bom, vou me deitar… tentem não fazer barulho lá embaixo e, mais uma vez, não demorem pra dormir, tá bom?
― Pode deixar, pai… boa noite…
Daí o Rafa foi dar um abraço e um beijo de boa noite no pai.
― Também quero um abraço, Lucas! ― Ele pediu.
E eu fui dar um abraço nele.
― Nossa… o que é isso? ― Ele disse me pedindo para virar de costas. ― Por que tem grama aqui atrás do seu terno? Tava rolando na grama, por acaso?
Eu ri e respondi:
― ―
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― Não! Claro que não! Por que rolaria na grama?
― Bom, de qualquer maneira… até logo, meninos, estarei lá embaixo, no quarto.
― Tá bom, pai… ― Rafa disse.
Seu Danilo saiu, fechou a porta do quarto e nos deixou a sós… com Arthur desmaiado no colchão.
― Erm… Lu, vou tomar um banho… você me acompanha? ― Rafa perguntou.
― E o Arthur?
Nós dois olhamos para o Arthur e ele começou a roncar.
― Tá! Mas e o seu pai? ― Perguntei.
― O que tem ele?
― E se ele voltar?
― Se quiser, pode ligar o chuveiro no outro banheiro, fechar a porta e fingir que você está lá… mas não acho necessário… papai já foi dormir… e, além do mais, o que ele poderia fazer se nos pegasse tomando banho?
― Ué… não sei…
― Já estou de castigo mesmo… vem logo! ― Ele disse e estendeu a mão.
Olhei para trás e pensei um pouquinho. Ah… que se dane! Peguei na mão do Gatinho e ele me levou para o banheiro. Assim que entramos, ele trancou a porta e eu retirei o paletó do meu terno.
― Onde posso deixar? ― Eu perguntei.
― Bota em cima da privada mesmo, ué… ― ele disse fazendo o mesmo.
Daí comecei a desabotoar minha camisa.
― Eiii! Espera! ― Ele gritou.
― O que foi? ― Eu perguntei.
Ele veio em minha direção, me segurou pelos pulsos e foi me empurrando até que eu encostasse na parede. Em seguida, ele me olhou fundo nos olhos. Fiquei encarando aqueles olhos azuis e aquele rostinho perfeito por alguns segundos. Seu rostinho, que era bem branco, estava com uma leve coloração avermelhada na região entre as bochechas e os olhos, comprovando sua timidez. Seus lábios, que eram finos, estavam mais vermelhinhos que o normal.
Eu fiquei hipnotizado com seu olhar e me senti completamente dominado por ele. Daí ele levou suas mãozinhas até a minha camisa e começou a desabotoar meus botões… um por um. E, após cada botão solto, ele me dava uma olhadinha, enquanto sentia meu desespero e minha paixão.
Quando ele finalmente terminou de desabotoar minha camisa branca, levou suas mãos até minha barriga e sentiu o calor do meu corpo. Daí ele foi passando as mãos em mim e subindo lentamente enquanto me comia com os olhos. Senti suas mãozinhas mornas irem experimentando meu corpo enquanto eu era possuído por uma onda de arrepios.
Daí ele se aproximou ainda mais até colar sua barriga na minha. Ele passou as mãos pelo meu corpo até alcançar minhas costas, levou sua boquinha até meu pescoço e expeliu todo ar quente da sua respiração em mim. Aí foi minha vez de respirar fundo e de fechar os olhos. Ele deu um beijinho muito suave no meu pescoço seguido de uma leve mordidinha.
Ele me segurou pela cintura e me virou com tudo contra a parede. Me segurei com as mãos para não encostar nela, que estava muito fria por causa dos azulejos. Daí, bem delicadamente, ele levou seus dois dedinhos indicadores para meus ombros enquanto me encoxava com vontade. Senti mais uma vez um arrepio tomar conta do meu corpo e tremi. Aí, bem lentamente, ele foi despindo meus ombros enquanto puxava minha camisa com seus
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dedinhos. Tremi novamente quando senti o tecido fino friccionar contra meu corpo. Ele deixou meus ombros nus e deu um beijinho bem demorado em um deles.
― Hummmmm… ― ele gemeu.
O seu beijinho inocente se transformou em uma lambidinha safada e ele foi subindo com a língua até chegar no meu pescoço. Tive que dobrá-lo e soltar um gemidinho.
― Aaaaawnt! Continua… por favor… ― eu pedi.
Daí ele colocou suas mãos nos meus antebraços e foi deslizando-as para baixo enquanto levava minha camisa junto. Minha camisa caiu no chão, entre nossos pés. Ele me deixou de peito nu, retirou sua camisa e me abraçou por trás novamente, colando sua barriga nua nas minhas costas.
Suas mãos exploraram cada pedacinho da minha barriguinha enquanto sua língua experimentava meu pescoço. Daí ele levou suas mãos até meu cinto e o desafivelou. Nessa hora, eu levei minhas mãos até a sua cabeça e senti seus cabelos e seu pescoço.
Lentamente, ele esfregou sua mão por cima do meu volume, me obrigando a gemer mais um pouco.
― Ah… Rafael… ― eu disse o nome dele em voz alta.
Daí ele desabotoou minha calça e abaixou meu zíper. Eu voltei a encostar as mãos na parede enquanto ia sendo possuído por ele. Lentamente, ele enfiou seus polegares na parte da frente da minha cueca e foi arrastando eles para o lado, até chegar na parte de trás. Daí ele começou a puxar minha cueca junto minha calça e, assim, foi despindo minha bundinha para que ele pudesse consumi-la, tudo isso com sua barriga colada nas minhas costas.
― Ah… continua… continua… ― eu implorei enquanto ele fazia um excelente trabalho de língua no meu pescoço.
Daí ele foi abaixando minhas calças, conforme ia agachando atrás de mim. Senti meu corpo sendo exposto para ele, exatamente do jeito que ele queria. Retirei meus sapatos e permiti que ele removesse minhas calças e minhas meias por baixo, me deixando peladinho.
Em seguida, ele envolveu meus tornozelos com as mãos e, lentamente, começou a subir. Suas mãozinhas foram percorrendo minhas pernas, minhas coxas, até chegar na região mais sensível do meu corpo. Ele, novamente, colou sua barriga nas minhas costas e, depois, enfiou uma de suas mãos na região entre meu saquinho e minha coxa, enquanto, com a outra, experimentava lentamente minha barriga.
Ele deu uma apertadinha no meu saco que me fez soltar um gritinho afeminado. Senti a pré-porra fluir livremente pelo meu pau, que apontava para cima, mais duro que nunca.
Ele terminou de retirar suas roupas e ficou peladinho igual a mim. Eu, que estava de frente para a parede e de costas para ele, senti suas mãozinhas me segurarem pela cintura. Daí ele enfiou um pé entre os meus e foi empurrando um deles para o lado, numa tentativa de abrir minhas pernas. Fui me deixando ser conduzido por ele enquanto experimentava o mais puro prazer de ser dominado por um gatinho loiro e selvagem.
Quando ele finalmente conseguiu me deixar de pernas abertas, senti sua ereção incrivelmente dura me tocar, enquanto era encoxado por uma virilha quentinha e deliciosa. Pude sentir a cabecinha de seu pau já melecada de pré-porra. Ele encostou-a na minha bunda, deixando-a babada. Senti seu pau latejar quando entrou em contato com a minha carne. O meu fez o mesmo.
Aí ele colocou suas mãos sobre meus ombros e foi passeando com elas enquanto sentia meus bracinhos nus. Minhas mãos estavam no alto da parede e ele percorreu cada centímetro quadrado dos meus braços até alcança-las. Ele repousou suas mãos por cima das minhas enquanto expelia novamente seu hálito quente no meu pescoço.
― Sabe o que eu quero? ― Ele perguntou.
― ―
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Daí ele foi até o meu pescoço e assoprou. O ventinho gelado me fez tremer de excitação e de frio.
― Aaaaahhh… ― suspirei enquanto era encoxado por ele mais uma vez.
― Quero você.
Daí ele me agarrou novamente pela cintura e me virou. Voltei a ficar de frente para ele, que me abraçou. Uma de suas mãos percorreu minhas costas enquanto a outra agarrava o pezinho do meu cabelo e me puxava. Joguei minha cabeça para trás e ele me deu outro beijinho suave e delicado no pescoço.
Foi quando ele me empurrou contra a parede e me pressionou contra os azulejos gelados. Nessa hora, senti minhas costas arderem de frio. Com uma mão, agarrei seus cabelos loiros com força. Com a outra, apertei suas costas desesperadamente numa tentativa de amenizar a dor que sentia. Me segurei para não gritar, pois não podia chamar atenção… mas gemi… e como gemi…
― Aaaaaaaaaaaaaaa… porraaaaa… tá frio…
Mas fui impedido de dizer qualquer palavra quando uma língua faminta invadiu minha boca. Nessa hora, eu tive que respirar fundo, para recuperar o fôlego, enquanto sentia a parede esquentando e entrando em equilíbrio térmico com meu corpo.
A sua língua entrou em contato com a minha e foi gostoso… foi gostoso senti-lo assim… sua boca era a segunda parte mais quente e gostosa de seu corpo… nos beijamos por alguns segundos até ele rodopiar comigo pelo banheiro.
Sem desgrudarmos nossas bocas, demos uma volta e meia até atingirmos a parede oposta do banheiro, onde ele alcançou o registro do chuveiro e o girou. O primeiro jato de água que nos atingiu estava, com toda certeza, a zero graus Celsius… a água estava tão fria que me fez perder o ar dos pulmões, como acontece quando a gente toma banho muito gelado. Mas, em menos de dois segundos, a temperatura se transformou e uma forte ducha de água quente caiu sobre nós para nos confortar. Rafa se aproximou ainda mais de mim, chegou bem perto do meu rosto, me olhou nos olhos e disse:
― Oi, Lucas Henrique…
Eu mordi os lábios quando ele me chamou assim.
― Oi, Rafael… espera… você tem nome do meio?
― Mackenzie… Rafael Mackenzie.
― Tá bom… ― eu disse rindo. ― Lannister eu até deixei passar, mas James Bond? James Bond é forçar a barra.
― Que foi? ― Ele disse rindo. ― Vira aí e cala a boca!
Me virei de costas para ele e ele pegou o pote de sabonete líquido que tinha ali. Ele espremeu nos meus ombros e eu tremi conforme sentia o líquido gelado entrar em contato com meu corpo. Daí eu senti suas mãozinhas me tocarem e começarem a massagear minhas costas.
― Ah… isso é bom… ― eu disse enquanto sentia a água quente percorrer meu corpo.
Daí ele foi até o meu ouvido, abocanhou o lóbulo da minha orelha e o chupou.
― Ah… Rafael… ― eu disse o nome dele novamente.
― E aí… ― ele disse baixinho no meu ouvido. ― Você quer foder ou só bater uma punhetinha?
Suspirei de prazer mais uma vez e me virei para ficar de frente para ele.
― Hum… não sei… o que você quer fazer?
― O que você quiser…
― Você vai me dar? ― Eu perguntei. ― Aqui e agora?
― Não. ― Ele respondeu me olhando sério no fundo nos olhos.
― ―
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― Hum… ― eu disse mordendo os lábios. Eu não conseguia resistir ao seu comportamento dominante. Ele sempre acabava me ganhando. ― Então o que você quer? Me comer?
― Uhum. ― Ele disse enquanto esfregava sabonete no meu peito.
― Se importa se ficarmos apenas na punhetinha? ― Eu sugeri.
― Não… o que você quiser.
Daí ele parou de esfregar sabonete em mim e se sentou no chão do banheiro.
― Vem! ― Ele me chamou. ― Senta aqui comigo! ― E estendeu a mão.
Eu segurei sua mão e me sentei na sua frente, com as pernas cruzadas. A água quente do chuveiro caía ao nosso lado e ambos estávamos exibindo ereções.
― Vem cá! ― Ele pediu. ― Deixa eu fazer pra você.
Ele, que estava sentado bem na minha frente, abriu um pouco as pernas e me convidou para ir sentar ali. Eu fui e me sentei bem na sua frente, de costas para ele. Ele passou as mãos por baixo dos meus braços e me abraçou por trás. Daí ele se encaixou perfeitamente atrás de mim e me puxou para mais perto. Colei minhas costas no seu peito e me deitei um pouquinho sobre ele, para ficar confortável. Respiramos fundo ao mesmo tempo enquanto o vapor de água subia e enevoava o banheiro. Ele começou a acariciar minhas coxas com as mãos, foi até o meu ouvido e disse baixinho:
― Agora você precisa fechar os olhos, meu amor…
Eu fiz que sim com a cabeça e os fechei.
― Relaxa… só relaxa e tenta seguir o som da minha voz…
Eu podia sentir o calor do banheiro e o do seu corpo em contato com o meu. Estava muito confortável repousar no colo dele.
― Você tem que se abandonar aos meus cuidados… deixa que eu vou cuidar de você essa noite…
Respirei fundo mais uma vez e tremi de tesão. Foi quando eu senti uma pesada gota de sabonete líquido atingir a cabeça do meu pau e escorrer por toda sua extensão. Ele foi despejando sabonete líquido por toda minha virilha e depois foi levando o filetinho para cima, enquanto inundava minha barriga com creme.
― Pronto, meu Gatinho… deixa que eu vou fazer pra você…
E a próxima coisa que senti foi sua mãozinha agarrando meu pintinho. Tive um pequeno espasmo de tesão quando ele encostou na cabecinha do meu pau e começou a esparramar o produto.
― Confia em mim, que eu vou fazer gostoso pra você…
Revirei meus olhos de prazer quando senti sua boquinha abocanhar meu pescoço. Ele começou a lamber minha carne com a maior calma do mundo. E, lentamente, bem lentamente, ele começou a perfazer movimentos de vai e vem em mim.
― Eu vou fazer gostoso pra você… ― ele disse mais uma vez.
Soltei ainda mais meu peso em cima dele conforme ia deixando os confins da Terra e ia partindo para o céu. As únicas coisas que ouvíamos eram as nossas respirações pesadas e o barulho do chuveiro.
E, enquanto uma mão cuidava de intensificar cada vez mais os movimentos de vai e vem no meu pequeno pênis, a outra percorria, com toda calma do mundo, minhas coxas, minha barriga e meu saquinho.
Era uma vez um menino chamado Lucas. Lucas morava no paraíso e só conhecia a felicidade. Lucas corria livremente pelos campos floridos do céu. Era uma vez, também, um jardim. Um jardim infinito, complexamente simples e cujos olhos dos homens não poderiam compreender tamanha beleza. No centro do jardim, havia uma fonte. Uma fonte tão misteriosa
― ―
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quanto compreensível. Uma fonte que armazenava, em suas águas, os melhores prazeres do mundo. Podia-se dizer que Lucas estava bebendo dessa fonte neste exato momento… não… melhor… podia-se dizer que Lucas estava tomando banho nessa fonte. Ele nadava, sem roupa alguma no corpo, na companhia de seu melhor amigo e parceiro… o pequeno anjinho louro, Rafael, que desfrutava dos mesmos prazeres que ele.
Sua língua mais uma vez percorreu meu pescoço até chegar na minha orelha, onde abocanhou meu lóbulo novamente e o chupou.
― Continua, por favor… ― eu pedi. ― Não para… eu quero sentir isso pra sempre…
Aí ele começou a intensificar cada vez mais os movimentos em mim até começar a fazer aquele barulhinho de punheta adolescente. Já era… não tinha como segurar mais.
― Aaaah… aaaah… aaaah… aaaah… ― eu comecei a gemer.
― Hum… tá gostando? ― Ele perguntou com uma vozinha safada no meu ouvido.
― Uhun… aaah… aaah… aaah… ― eu continuei a gemer.
Podia sentir meu coração bater muito rápido. Parecia que ia saltar do meu peito. Minha respiração também estava completamente descontrolada. Continuou assim até eu sentir a deliciosa sensação de alivio do orgasmo.
― Aaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhh ― soltei um longo e prazeroso gemido de prazer. ― Meu deus… ― eu disse para mim mesmo.
― Hum… geme mais um pouquinho… para mim? ― Ele pediu.
― Uhun… aaaaaahhh aaaaaaahhh aaaaaaahhh ― eu gemi. ― Aaaahh… Rafinha…
Eu sentia a porra fluir livremente pelo meu pau enquanto ele continuava me punhetando sem trégua.
― Chega… chega… tá bom… por favor… ― eu pedi quando não aguentava mais suportar a sensibilidade pós-orgasmo.
Ele soltou meu pau e me abraçou mais forte. O colinho dele estava tão gostoso e confortável que eu poderia ficar aqui pra sempre.
― Gostou? ― Ele perguntou.
― Te amo… ― eu respondi e ele riu.
― Eu é que te amo, meu amorzinho… meu coração… minha vida…
― Ui… ― eu disse rindo. ― Também não é pra tanto, né?
― Hahaha! Não vê que estou tentando ganhar um boquete aqui? ― Ele disse e eu ri.
― Me dá mais um minutinho, por favor? ― Eu pedi. Seu colinho estava tão gostoso.
― Claro, meu amor… leve o tempo que precisar… você nem se deitou em cima do meu pau e o está amassando faz uma eternidade…
― Ai… desculpa! ― Eu disse me levantando um pouquinho.
Senti sua ereçãozinha tocar minha cintura. Aí resolvi lhe dar o que ele tanto desejava.
― Então… um boquete, né? ― Eu perguntei enquanto saia do seu colo e me virava, para ficar de frente para ele.
― Uhun… ― ele assentiu.
― Tá bom… vou te fazer esse favor… vai se levantar ou vai ficar aí sentado?
― Fica ruim pra você se eu continuar aqui?
― Talvez… mas eu faço esse esforço pra você…
Me deitei na sua frente e me posicionei de modo que eu conseguisse alcançar seu pintinho com a boca. Sua ereçãozinha de doze centímetros apontava para cima e latejava conforme eu me aproximava. Peguei ela pela base e botei só a cabecinha na boca. Daí eu comecei a chupá-la.
― Aaaaaahhh… ― ele gemeu involuntariamente.
Aí fui descendo até engolir seu pau todinho.
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― Aahh… meu deus… desse jeito eu não vou aguentar nadinha… ― ele disse.
Enfiei tudo que conseguia na boca e comecei a fazer vácuo enquanto mamava-o. Ele agarrou meus cabelinhos molhados e disse:
― Aaaahh… isso tá gostoso… não para… por favor…
Comecei a subir e descer ritmicamente enquanto deixava seu pauzinho todo babado.
― Não aguento mais… vou gozar… pode segurar pra mim?
Sem soltá-lo, eu fiz que sim com a cabeça. Daí abocanhei tudo que conseguia e ele me segurou pelos cabelos, para ter certeza de que eu não ia escapar.
― Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhh… ― ele gemeu intensamente.
Senti uma explosão de porra encher minha boca. O primeiro jato foi muito forte e praticamente já me deixou cheio. Recuei um pouquinho para ter espaço para mais um shot enquanto engolia o que podia do gozo dele.
― Aaaaaahhh… nossa… meu deus…
Ele gozou mais um pouco na minha boca enquanto experimentava uma deliciosa onda de prazer. Ele não aguentou e se jogou para trás, se deitando no chão molhado e quente do banheiro, enquanto eu terminava de engolir tudinho o que ele soltava.
― Aaaaiin… aaain… aain… ― ele gemia aliviado enquanto recuperava o fôlego.
― Gostou? ― Eu perguntei enquanto voltava a ficar sentado.
― Aaaaaain… ― foi a única coisa que ele conseguiu me responder.
― Se limpa aí logo, que já faz meia hora que estamos aqui… temos que ir lá ver se o Arthur está bem.
― Nossa, apressadinho! Deixa eu aproveitar a onda aqui!
Eu me levantei do chão e fui tomar banho de verdade. Peguei um pouco de sabonete, esfreguei pelo corpo e joguei um shampoozinho no cabelo. Me enxaguei e fiquei curtindo a água quente bater nos meus ombros até o Rafa tomar coragem para se levantar e se lavar também. Terminamos nosso banho e ele fechou o registro. Daí ele me entregou uma toalha. Nós nos enxugamos e as amarramos na cintura. O banheiro estava repleto de vapor, tínhamos tomado um banho bem quente… aí, quando ele abriu a porta, um pouco de vapor escapou para o quarto. Assim que saí do banheiro, senti que o quarto estava fresquinho, até um pouco frio, eu diria.
Olhei para Arthur e ele estava derrotado ali no colchão, do mesmo jeitinho que tínhamos o deixado. Ele estava deitado de barriga para baixo e ainda vestia seu terno e seus sapatos.
― Olha como ele dorme, que gracinha! ― Eu disse.
― Awnt! Vamos tirar uma foto! ― Rafa sugeriu.
― Hahaha…
― Estou falando sério! Pega seu celular aí.
Fui até a minha mochila e peguei meu celular e minha cueca.
― Joga aí! ― O Rafa pediu.
Joguei meu celular para ele, que pegou e disse:
― Não! Eu estava falando da cueca!
Eu ri. Ele foi até o Arthur e tirou uma foto enquanto eu vestia minha cueca e me livrava da toalha.
― Vou enviar pro WhatsApp dele, pra ele ter uma surpresinha quando acordar amanhã. ― Ele disse rindo diabolicamente.
Como vocês sabem, eu costumo dormir só de cueca em casa, mas, como estava na casa do Rafa, trouxera meu pijama. Peguei ele na mochila e o vesti. Era uma camisetinha branca e um shortinho de malha verde claro que chegava até meus joelhos. Rafa também se trocou e vestiu o seu pijaminha que eu mais gostava, que era sua camisetinha cavada branca de gola V e seu shortinho minúsculo azul claro, quase branco, que deixava suas coxas praticamente de fora.
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― Luluzinho… ― Ele me chamou enquanto pegava as nossas roupas que tínhamos deixado no banheiro e as trazia para o quarto.
― Oi? ― Eu perguntei.
― Você tá com fome?
― Ah… comeria… por que?
― Vamos lá na cozinha?
― Pode ser… ― eu concordei.
― Vem! ― Ele me chamou e estendeu a mão.
Eu peguei na sua mão e ele foi me guiando para fora do quarto. Quando saímos, ele apagou a luz, para deixar o Arthur dormindo no escurinho. Mas, para isso, ele ainda não tinha acendido a luz do corredor, então ficamos no escuro.
― Rafaaaaa! ― Eu gritei desesperado de medo. ― Acende essa porra!
― Espera! ― Ele disse e soltou minha mão.
― Ai meu deus do céu! Rafa! Socorro! ― Eu gritei desesperado enquanto tentava achar ele no escuro.
Daí a luz do corredor se acendeu.
― Nossa, seu cagão! Tô aqui! Não precisa ficar com medo!
Corri até ele e agarrei seu braço.
― Não tô com medo! ― Eu reclamei bravo.
― Não, não! Eu que tô! ― Ele disse me zoando.
― Ai, cala boca! ― Eu reclamei.
Daí ele voltou a pegar na minha mão e descemos as escadas da casa. Toda vez que o cômodo estava escuro, eu inventava uma desculpa para ele ir na frente e acender a luz. Fomos de mãos dadas até a cozinha, onde ele abriu a geladeira.
― Ei, Lulu, você lembra daquele dia que a gente ficou pela primeira vez?
― Sim, o que tem?
― Ah, que a gente veio aqui pra minha casa… e aí ficamos de novo… aí eu te ofereci pão velho…
Eu comecei a rir. A doce lembrança incandesceu minha mente e aqueceu meu coração. Daí o Rafa retirou um pudim da geladeira, que me fez rir de novo.
― É… parece que foi ontem… ― eu disse rindo.
― É… eu lembro que, naquele dia, eu estava muito nervoso… você estava com fome e não tinha nada pra comer… aí, além de passar vergonha, eu ainda fiquei com medo de que você nunca mais quisesse vim aqui na minha casa de novo…
― Hahaha… bobinho!
Aí ele pegou um pratinho e duas colheres no armário e serviu um pedação de pudim.
― É… acho que eu era um bobo mesmo… fazer o que? Eu morria de vergonha de você…
Daí ele pegou o pratinho com pudim, as duas colheres e estendeu a mão para mim. Eu a peguei e ele foi me guiando para a sala.
― É… e mesmo assim ainda conseguiu me pedir em namoro, hein?
― Claro! Alguém tinha que pedir! E, se fosse depender de você, do jeito que você é bunda mole, não íamos namorar nunquinha!
― Eiii! ― Eu reclamei.
Chegamos na sala e nos sentamos no sofazão gostoso e macio que tinha lá. Sim… o mesmo sofá que tínhamos levado bronca minutos atrás. Nos sentamos um de frente para o outro e ele levou a primeira colherada de pudim até a minha boca.
― Mas não foi culpa sua… foi difícil até pra mim… eu estava morrendo de medo de você dizer não.
― ―
497
Daí foi a vez de ele comer uma colherada de pudim.
― Sério? E por que eu diria não? ― Eu disse enquanto terminava de mastigar.
― Ué… ― ele disse de boca cheia. ― E eu que sei?
Daí ele me deu mais um pouco de pudim na boquinha.
― Vai que você tivesse medo, sei lá… ou que não gostasse tanto assim de mim… ― ele disse e levou mais uma colherada a boca.
― Hahaha… que jeito? Eu era xonadinho em você, meu amor… até hoje sou…
― Hahahahaha! Eii! Lembra que teve uma hora que eu pedi pra beijar sua boca? ― Ele disse fazendo aviãozinho com a colher.
Tentei me lembrar, mas não consegui.
― Não lembro… o que que aconteceu mesmo?
― Tá… primeiro eu me declarei pra você, aí, na sua vez, você foi se declarar e acabou chorando… ― ele disse enquanto enfiava a colher na minha boca.
― Tá… disso eu me lembro. ― Eu respondi enquanto mastigava.
― Aí depois que você chorou, eu disse assim “Posso beijar sua boca, meu amor?”…
― Hahaha… ― eu ri quando me lembrei disso. ― É mesmo… hoje você nem pede mais, né? Só chega metendo essa sua língua nojenta onde bem entender…
Ele comeu a última colher de pudim e disse:
― Claro! Já somos íntimos! Tão íntimos que eu até solto pum na sua frente.
― Hahaha… ― eu ri. ― Isso você sempre fez, seu idiota! ― Eu disse e joguei uma almofada nele.
― Aí… tô com vontade de comer alguma coisa salgada… espera aí que eu vou ver o que tem na geladeira. ― Ele disse e se levantou do sofá.
― NÃO! ― Eu gritei.
― O que foi? ― Ele perguntou assustado.
― Eu vou com você! ― Eu disse enquanto calçava meus chinelos.
― Ah, me esqueci de que você é cagão…
― Não sou! ― Eu me defendi.
Fui até ele e peguei na sua mão novamente. Fomos até a cozinha, onde ele abriu a geladeira e disse:
― Hum… tem pizza… quer?
― Aceito… ― eu disse rindo.
― Aff… e o que você não aceita, seu morto de fome? Quer de que? Frango ou calabresa?
― Hum… vou deixar você adivinhar… ― eu disse fazendo uma voz fofa.
― Ah… me esqueci de que você é chegado numa linguiça…
― Ei! Não! Meu sabor favorito é frango, seu besta! Já te falei isso um milhão de vezes!
― Hahaha… eu sei! Tô brincando… ― ele disse rindo e botando um pedaço de pizza num prato. ― Toma. Bota no micro-ondas e coloca uns trinta segundos.
Fiz como ele pediu e deixei as pizzas esquentando.
― Eiii! Tinha até me esquecido! Olha o que eu comprei!
Ele disse me arremessando um pacotinho daquelas balas Fini em formato de tubinho vermelho. Apanhei o pacotinho com as duas mãos.
― Você gosta? ― Ele perguntou.
― Não sei… acho que nunca comi… ― eu disse.
― O que? Impossível! Você nunca comeu tubinhos Fini?
― Não que eu me lembre…
― Abre aí pra gente! Tenho certeza de que você vai gostar!
― ―
498
Fui tentar abrir o pacote, mas não consegui. Era um plástico duro de puxar. Quando ele viu minha dificuldade, disse zoando:
― Ô meu deus… não tá nem conseguindo abrir o pacotinho de doces? Me dá isso aqui!
― Ai, que ódio! ― Eu disse enquanto tentava mais uma vez abrir o saquinho.
― Me dá aqui! ― Ele disse tomando da minha mão. ― Tá fraquinho, hein? Precisa comer mais, Lulu.
Daí ele abriu o pacotinho com extrema facilidade.
― Rá rá… me dá isso aqui…
― Espera! ― Ele disse tirando o saquinho do meu alcance.
Aí ele retirou um dos tubinhos de gelatina de lá de dentro e botou uma das extremidades na boca.
― Pega. ― Ele me ofereceu a outra ponta enquanto segurava a sua com os dentes.
Me aproximei dele e abocanhei a outra extremidade. Daí começamos a mastigar o tubinho conforme íamos avançando na direção um do outro. Quando chegamos pertinho da metade, ele partiu para me beijar, mas eu me afastei e virei o rosto, deixando ele no vácuo.
― Isso é por que você me chamou de fraquinho.
― Nauuuum! ― Ele fez biquinho e continuou esperando o beijo.
Daí o micro-ondas apitou, indicando que as pizzas estavam prontas.
― Vai ter que me bajular muito pra ganhar esse beijinho. ― Eu disse fazendo charme.
Fui até o micro-ondas e retirei o prato de pizzas. Daí nós dois voltamos para a sala, para comermos no sofá.
― E aí… e seu irmãozinho? Como tá?
― Hum… mamãe vai fazer três meses…
― Então já dá pra saber o sexo, né? ― Ele disse enquanto dava uma mordida na pizza.
― Acho que sim… mas ela ainda não foi no médico pra ver…
― Hum… e o que você acha que vai ser? Boy ou girl?
― Eu quero muito ter um irmãozinho… mas acho que ficaria feliz com uma irmã também…
― Hum…
― Eu tava pensando… vamos ter doze anos de diferença… é bastante coisa, não acha?
― Depende… vocês vão brigar menos que eu e o Gabriel, com certeza… a gente só tem três anos de diferença…
― Entendi…
― Mas não acho que isso vai fazer você gostar mais ou menos dele ou dela… no final, o amor vai ser o mesmo…
― Também acho…
― Sua mãe já tem um nome?
― Na verdade… é tarefa minha escolher…
― Jura? Nossa, Lu, que legal… Rafael é com F, e não com PH.
― Ah, idiota! ― Eu disse jogando outra almofada nele.
― Brincadeira, haha… mas você tem alguma coisa em mente?
― Uhum… se for menino eu estou pensando em João… ou Leonardo… não escolhi ainda…
― Lucas e João… Lucas e Leonardo… é… os dois combinam…
― Aham… e, se for menina, talvez Ângela… eu gosto desse nome…
― Eu gosto de Ana Clara… ― Rafa disse.
― É… Ana Clara é bonito, mas não quero botar Ana… minha mãe já é Ana…
― Bota Victória… aí você pode chamá-la de Vicky!
― ―
499
― Eu não! Deus que me livre!
― Hahaha…
Terminamos de comer e colocamos as louças sujas na pia.
― Bora subir? ― Ele me convidou.
― Uhum… ― eu aceitei.
Ele pegou na minha mão e voltamos para o quarto. Eu adorava andar de mãos dadas pela casa com ele… era tão gostoso esse carinho que a gente tinha… subimos as escadas e, finalmente, chegamos no seu quarto.
Quando acendemos a luz, fomos surpreendidos com o que encontramos.
― Puta que pariu, cara! ― Rafa exclamou dramaticamente. ― Que nojo! E agora?
Arthur tinha vomitado no colchão e dormia sobre o próprio vômito.
― Ah… droga… vou chamar meu pai… ― Rafa disse.
― Não! ― Eu exclamei. ― Não precisa incomodar seu pai por pouca coisa! Vem! Me ajuda a acordá-lo.
― Pouca coisa!?!?
Eu fui até Arthur, que estava deitado de barriga para baixo com vômito ao lado da cara e tentei acordá-lo. Balancei seu ombro e chamei seu nome.
― Arthur! Arthur!
Ele deu uma gemidinha e disse:
― Hummmmmm?
― Ei! Acorda, Arthur!
Daí ele acordou meio assustado. Sua bochecha e o canto de sua boca estavam melecadas de vômito.
― Arthur, acho que você vomitou… ― eu disse enquanto ele recuperava a consciência.
Ele piscou algumas vezes, olhou para baixo, para cima, para os lados e disse:
― Lu?
― Oi? ― Eu respondi.
― Acho que vou morrer…
― Não, Arthur, você não vai morrer… ― eu disse e olhei para o Rafa. ― O que você está sentindo?
― Acho que… acho que vou vomitar… ― ele disse.
― Não! Não vomita aqui não, vem… vem aqui…
Eu disse e tentei botar ele de pé. Ele ainda estava meio zonzo e desequilibrado, mas conseguiu se levantar e se apoiar em mim. Tampei o nariz para não sentir o cheiro horrível e não vomitar também. Levei o Arthur até o banheiro, coloquei ele sentado ao lado da privada e levantei o assento. Rafa se escorou na porta do banheiro enquanto assistia a cena com cara de preocupado.
― Pronto, se for vomitar, mira aí… ― eu disse e olhei para o Rafa novamente.
― Deixa eu ir lá chamar meu pai! ― Ele pediu.
― Não! Só vai nos trazer mais problemas!
― Você viu o que aconteceu da última vez que não fizemos a coisa certa! E se ele morrer aqui com a gente?
― Ninguém vai morrer! Ele só precisa vomitar! ― Eu tentei convencê-lo. ― Ele vai ficar bem.
― Não quero vomitar… ― Arthur gemeu escorado no vaso.
― Você precisa botar pra fora, Arthur… força… ― eu o encorajei.
― Mas eu nem estou com vontade… ― ele disse.
― ―
500
No próximo instante, ouvi o barulho do Arthur golfando litros na privada. O Rafa começou a fazer aquelas encenações super dramáticas de que ia vomitar também.
― Nossa! Que nojo! ― Ele disse colocando a mão na boca.
Dei uma olhadinha para o Arthur e ele estava vomitando só água… era só a cachaça saindo. Quando ele terminou, ele começou a chorar.
― Nãoooooooooo… ― ele começou a gemer para si mesmo com uma voz fininha e melodramática. ― Nãooooooooo…
― O que foi, Arthur? ― Eu perguntei.
― Não quero mais vomitar… é horrível… é horrível e nojento…
― Eu sei que é nojento, Arthur… mas olha pelo lado bom, pelo menos você não comeu macarrão!
Quando eu disse isso, ele imediatamente deu outra golfada na privada, dessa vez, mais demorada. Meu plano de deixá-lo com mais nojo tinha dado certo.
― Foi? Saiu tudo? ― Eu perguntei para ele.
― Uhum… ― ele respondeu com uma vozinha fraca e rouca.
― Meu cachorro já comeu o próprio vômito… ele disse que era azedo…
E lá foi ele dar a terceira golfada na privada.
― Chega… eu não aguento mais! ― Rafa desistiu de assistir e saiu da porta do banheiro, voltando para seu quarto.
Continuei ali com o Arthur, que gemia dramaticamente, por mais uns cinco minutos. Ele não vomitou mais.
― Acho que já estou bem… ― ele disse enquanto se levantava do chão do banheiro.
― Tem certeza, Thur? Não quer mais vomitar?
― Não… acho que já deu… a vontade passou… estou me sentindo muito melhor agora…
― Nossa… que bom ouvir isso… já consegue ficar de pé sozinho?
― Sim… agora estou bem… olha…
Ele disse e tentou se equilibrar em um pé só, mas acabou cambaleando. Eu o segurei a tempo.
― É… não tão bem assim… ― ele disse rindo.
― Você precisa se limpar… ― eu disse enquanto apertava o botão de descarga do vaso.
― É… acho que sim… ― ele concordou limpando a boca com a manga do paletó.
― Não, seu doido! Não é pra limpar com o paletó! Vem cá! ― Eu disse e abri a torneira da pia. ― Pronto, enxagua a boca aí que eu já volto.
Deixei ele se limpando no banheiro e voltei para o quarto, para ver a situação do colchão.
― Nossa… ― eu disse fazendo cara nojo. ― Que merda…
― E agora? ― Rafa perguntou me olhando sem saber o que fazer.
― E agora que temos que botar o Arthur pra tomar banho… você tem alguma roupa pra emprestar pra ele? Ele tá todo sujo…
― Ah… acho que tenho… pera… ― ele disse e foi até seu armário.
― Eu vou tentar fazer ele tomar banho… você pode cuidar do colchão?
― O que? O que você quer que eu faça com o colchão?
― Não sei, ué! Tira o lençol e limpa ele!
― Eu não sei limpar um colchão!
― Ué, e você acha que eu sei? Quer dar banho no Arthur, então?
― E se ele vomitar?
― Ô meu deus… então o que você quer fazer?
― O mesmo que você!
― ―
501
― Aff… depois eu que sou o bunda mole, né? Pega uma roupa aí pra ele e vem logo!
― Tá! Tá aqui! ― Ele disse enquanto pegava uma de suas trocas de roupas no armário.
Fomos até o banheiro e Arthur estava se olhando no espelho.
― Arthur, quer tomar um banho? ― Eu ofereci.
Ele nos olhou com cara de sofrimento e fez que sim com a cabeça.
― Vem cá… me dá aqui seu terno…
Fui atrás dele e o ajudei a tirar o paletó. Ele tentou desabotoar sua camisa, mas fracassou logo no primeiro botão. Ele não conseguia concentrar sua atenção em um único ponto. Daí o Rafa foi até ele e o ajudou a desabotoar todos. Ele tirou a camisa e ficou de peito nu. Daí ele se apoiou em um dos ombros do Rafa para se equilibrar e tirar os sapatos. Na hora que o Rafa foi desafivelar seu cinto, ele reclamou:
― Eiii! O que você está fazendo?
― Tô tirando seu cinto, ué… ― Rafa disse na maior naturalidade do mundo.
― Por que?
― Pra você tomar banho, dã!
― Posso tomar banho sozinho!
Daí ele foi tentar ir até o chuveiro, mas acabou cambaleando.
― Não, não pode. ― Rafa disse. ― Abaixa logo as calças! Não precisa ter vergonha! Não há nada aí que nós já não vimos!
― Não vou abaixar as calças! ― Ele reclamou bravo.
― Abaixa logo! ― Rafa insistiu e foi na direção dele.
― Não! Saí, seu pervertido!
― Não sou pervertido! ― Rafa se defendeu.
― É sim!
― Arthur. ― Eu o repreendi com voz séria.
Ele me olhou com cara de cachorro manhoso, deu um suspiro melancólico e começou a desafivelar seu cinto. Daí ele desabotoou seu botão e abaixou seu zíper. Quando ele abaixou as calças, o Rafa começou a rir.
― HAHAHAHAHA…
Arthur estava vestindo uma cuequinha boxer de ursinhos. Ele ficou muito sem graça quando o Rafa começou a rir na cara dele. Eu suspirei decepcionado e disse:
― Não liga pra ele, Arthur. Sua cueca é muito bonita.
― Ah, qual é! Foi mal! ― Rafa se desculpou enquanto tentava segurar o riso.
― Vem… ― eu o chamei e liguei o chuveiro.
Arthur abaixou a cueca, entrou debaixo do chuveiro, se sentou no chão e encostou a cabeça na parede. A cena do Rafa me masturbando ali naquele mesmo chão, minutos atrás, repercutiu na minha mente e me provocou um arrepio. Tentei não olhar muito para o corpo do Arthur e evitar os pensamentos e os impulsos sexuais que estavam tentando me dominar. Peguei o pote de sabonete líquido e me agachei ao seu lado.
― Toma. Me dá sua mão.
Ele estendeu a mão e eu despejei um pouquinho de sabonete nela.
― Passa no corpo. ― Eu o orientei.
Aí ele começou a esfregar sabonete no corpo. O Rafa estava do nosso lado observando tudo em silêncio. Daí eu fui até ele e perguntei baixinho:
― Fefél, você tem uma escova de dentes pra emprestar pra ele?
― Vish… acho que não…
― Ele não pode ficar sem escovar os dentes! Será que eu empresto a minha?
― Tá maluco? Pra ele limpar o vômito da boca? Que nojo!
― ―
502
― Não! Eu não usaria de novo! Eu daria pra ele… e amanhã compraria outra…
― E você daria sua escova cheia de bactérias pra ele?
― Que bactérias? Minha boca é limpinha!
― Não vamos dar sua escova pra ele! Isso é nojento! Acho melhor arrumarmos alguma coisa pra ele comer… vai tirar o gosto do mesmo jeito…
― Tá… pode ser… você pode ir lá embaixo pegar?
― Claro… tudo bem… já volto. ― Ele concordou.
Aí ele saiu do banheiro e me deixou sozinho com Arthur. Peguei o vidro de shampoo e me agachei ao lado dele.
― Aqui, Arthur, pega… ― eu disse e botei shampoo na sua mãozinha.
Ele começou a esfregar os cabelos. Eu dei uma olhadinha no seu corpo e admirei seu peito de menino. Era impossível resistir… eu não estava conseguindo me controlar… eu tinha que olhar para seu pintinho, não tinha mais como…
Dei aquela secadinha rápida e vi que ele estava mole e um pouco grandinho. Meu coração começou a se acelerar e minha respiração foi ficando ofegante. Pisquei algumas vezes e tentei afastar os pensamentos safados… mas estava difícil resistir a eles. A cabecinha do seu pau estava para fora e exibia uma coloração rósea-avermelhada irresistível. Mordi os lábios. Eu não conseguia mais parar de olhar para ele. Eu simplesmente não conseguia… era mais forte que eu… a vontade de cair de boca ali só aumentava.
Arthur percebeu que eu secava sua região proibida incessantemente e tentou escondê-la. Mas ele não conseguiu escondê-la por completo, e eu não consegui parar de olhar. Daí eu percebi que seu pintinho estava começando a crescer. O garoto estava ficando excitado como eu. Aquilo só foi me deixando mais curioso e hipnotizado. Eu queria tocá-lo… eu queria muito tocá-lo… mas era inapropriado… suas costas de menino gritavam por atenção… seu peito… suas coxas… tudo… eu estava completamente perdido olhando para ele.
Foi quando o Rafa voltou para o banheiro e percebeu que Arthur estava exibindo uma senhora ereção.
― Opa… o que eu perdi? ― Ele disse brincando.
Olhei para Arthur e pude ver suas bochechas ficando vermelhas.
― Trouxe um pedaço de pizza para ele… e um pedaço de pudim também… se ele quiser.
― Tá ótimo… erm… Arthur… acho que está bom já… você tá com fome? ― Eu perguntei enquanto fechava o registro do chuveiro.
― Um pouco… ― ele respondeu.
Rafa entregou uma toalha para ele enquanto ele se colocava de pé. Ele começou a se enxugar e eu peguei a cuequinha que o Rafa tinha separado para ele.
― Aqui, Arthur… ― eu disse enquanto me agachava na sua frente.
Ele botou a toalha no pescoço, segurou nos meus ombros e enfiou o primeiro pé na cueca. Por uma fração de segundo, ele encostou seu tornozelo na minha mão. Pude sentir a maciez de sua pele de menino entrando em contato com a minha. Foi excitante. Depois, ele enfiou o segundo pé e eu tive o grande prazer de poder subir aquela cuequinha pelo seu corpo. Escondi sua ereção e sua bundinha redonda com esse afortunado pedaço de tecido fino. Repeti o processo com o shortinho e ele conseguiu vestir a camiseta por conta própria.
Foi engraçado vê-lo usando as roupas do Rafa. Ele ficava… gatinho. Nos dois sentidos da palavra. Saímos do banheiro e voltamos para o quarto.
― Arthur… ― eu disse. ― Seu colchão já era… você vai ter que dormir no meu…
Ele olhou para o Rafa, depois olhou para mim e perguntou:
― Mas você vai dormir comigo?
― ―
503
― Ah! Não… ― eu disse tentando não dar a entender que eu não queria dormir com ele. ― Vou dormir com o Rafa, dã!
― Ah… okay…
Na verdade, eu até gostaria de dividir a cama com ele… ter o prazer de poder dormir com ele era realmente uma oportunidade tentadora. Novamente, tentei afastar os pensamentos sacanas da cabeça.
― Aqui, Arthur… te trouxe pizza… você quer? ― Rafa disse oferecendo o prato com um pedaço de pizza.
― Uhum… ― ele aceitou.
Ele pegou o prato, se sentou no colchão e começou a comer. Eu e o Rafa nos sentamos na cama dele.
― Como você está, Arthur? ― Eu perguntei.
― Melhor… bem melhor… ainda mais agora, que eu estou comendo.
― Isso é bom…
― Como é a sensação, Arthur? ― Rafa perguntou.
― Que sensação?
― De ficar bêbado…
― Ah cara… é horrível… lá na festa eu estava muito tonto… ainda estou um pouco, mas o pior já passou… eu tipo… fiquei muito tonto… é estranho…
― Hum…
Ficamos em silêncio assistindo o Arthur comer. Ele devorou o pedaço de pizza e, depois, ainda comeu o pedaço de pudim que o Rafa tinha trazido para ele. Quando ele terminou de comer, eu perguntei:
― Tá com sono, Arthur?
Ele fez que sim com a cabeça.
― Então deita aí pra dormir… me dá aqui o prato. ― Eu fui até ele e peguei o prato de sua mão.
Ele se deitou no meu colchão e se cobriu.
― Olha, eu e o Rafa vamos levar os pratos e o colchão lá pra baixo, tá bom? Mas daqui a pouco a gente volta… qualquer coisa, pode gritar… tá?
Ele fez que sim com a cabeça.
― Segura aqui, Rafa. ― Eu disse entregando os pratos para ele.
Depois disso, eu retirei o lençol do colchão e a fronha do travesseiro. O Rafa me levou até a lavanderia e me mostrou onde eu poderia deixá-los. Tiramos o colchão do quarto e o levamos também para a área de serviço. A área de serviço era uma casinha que ficava na área de lazer da casa dele, lá onde também ficava a piscina.
― É… acho que é isso… ― eu disse enquanto terminava de encostar o colchão na parede.
― É… ― ele concordou. ― Podemos ir?
― Uhum… ― eu concordei.
Saímos da casinha, ele apagou a luz e fechou a porta. Atravessamos a área de lazer e fomos caminhando em direção a casa dele, mas ele acabou parando no meio do caminho, mais especificamente em frente a piscina… ele parou ali e ficou olhando para o céu.
― O que foi? ― Eu perguntei enquanto me aproximava dele.
A casa dele, atrás de nós, estava toda apagada. Mas, mesmo que fosse tarde da noite e estivéssemos cercados de escuridão, o céu nos banhava com uma luz prateada e as estrelas nos presenteavam com um brilho claro e sutil.
― Ah… nada… só estava tentando ver se avistava outro meteoro.
― ―
504
― Hum… o céu tá lindo, não tá?
― Está sim. Quer ficar aqui um pouquinho? ― Ele me convidou.
― Pode ser… mas está frio…
― Não tem problema… ― ele disse calmamente.
Nós dois nos sentamos na beira da piscina, um do lado do outro, e ficamos observando o céu estrelado.
― Vem cá… ― ele me chamou. ― Deixa eu te esquentar.
Eu me joguei um pouquinho para o lado e me deixei ser abraçado por ele. O colinho dele era realmente reconfortante. Ficamos curtindo a presença um do outro em silêncio enquanto assistíamos ao espetáculo que estava o céu hoje. Ficamos ali por um tempinho pensando na vida, até que eu me cansei de fitar o céu e passei a olhar a piscina. Fiquei ali admirando as águas que dançavam calmamente e brilhavam com o azul resplandecente das luzes da piscina.
― Em que você tá pensando? ― Eu perguntei para ele. ― Tá quietinho demais pro meu gosto…
― Hum… nada… tô pensando em você… na verdade…
― Tá pensando em que de mim?
― Pra ser sincero… eu estava pensando em como você vai ser um bom irmão…
Não pude esconder o sorriso ao ouvir isso.
― Por que um bom irmão?
― Não sei… pelo seu jeitinho com o Arthur… e comigo também…
― Que jeitinho?
― Sei lá… seu jeitinho… eu gosto do seu jeitinho…
― Awnt… fala isso não que eu me apaixono…
― Tarde demais… ― ele disse e me deu um beijinho na cabeça. ― E você? Tá pensando em que?
― Ah… em muitas coisas, na verdade…
― Acho que temos a noite toda…
― Ah, deixa eu ver… tô preocupado com a Gi… com o Arthur… com a nossa viagem… com você… com todo mundo…
― Estou ouvindo…
― Pisei na bola com a Gi, Rafa… e se ela nunca mais quiser ser minha amiga?
― Então ela será a menina mais idiota do mundo!
― Eu tinha tanta coisa pra falar pra ela… droga…
― Eu sei… sinto muito por isso… liga pra ela amanhã… diz que você quer conversar…
― E se ela não me atender?
― Então espere um dia ou dois… uma hora ela vai te ouvir… ela tem que te ouvir…
― É… acho que sim…
― Quer conversar sobre o que aconteceu na festa? Com os garotos?
― Aff… eles são uns idiotas.
― Fiquei com muito medo quando vi você gritando com eles…
― Desculpa por isso…
― É sério… eu fiquei com muito medo deles fazerem alguma coisa contra você… sei lá, te bater… te judiar…
― Eu perdi a paciência… eles chamaram o Arthur de bichinha… ele não merecia isso.
― É… eu acho que não… mas você também não merece apanhar por bobeira.
― Não é por bobeira! É o Arthur, Rafa!
― Eu sei… eu sei… mas você tem que admitir que o que fez foi errado!
― Tá! Eu admito! Mas eu não estava pensando na hora!
― ―
505
― Só… só tenta não fazer isso de novo, tá bom? Eu não sei o que faria se fizessem alguma coisa com você lá… eu acho que… eu acho que mataria todos. Então… não se mete mais em confusão, tá bom?
― Tá bom, meu amor… me desculpa… ― eu disse e abracei seu corpo.
Ele me deu outro beijinho na cabeça e disse:
― Tá com frio?
― Uhum… ― eu concordei.
― Eu vou lá buscar uma cobertinha pra gente, pode ser?
― Tá…
Quando ele se levantou, eu percebi que ficaria sozinho aqui fora.
― Espera! ― Eu disse me levantando.
― Que foi?
― Eu vou com você.
― Ô meu amor, mas você ainda tá com medo?
― Não tô com medo! ― Menti.
― Sei…
― Só quero ficar perto de você!
― Pera aí! Eu vou lá correndo e já volto!
Aí ele virou as costas para mim.
― NÃOOO! ― Eu gritei.
― Que foi? ― Ele se virou novamente.
― Não me deixa aqui sozinho!
― Então admite que tá com medo.
― Não tô com medo!
― Tá sim, seu cagão!
― Não tô!
― Então fica!
― Fico! ― Eu disse fazendo cara de bravo e cruzando os braços. ― Não tô com medo!
― Já volto, não vou demorar nem um minuto!
Aí ele foi correndo pra dentro de casa e me deixou sozinho na área de lazer. Aqui fora continuava bem escuro e o vento fazia uns barulhos estranhos. Olhei para a imensidão que era a casa dele. Era uma casa enorme de dois andares cujas luzes estavam completamente apagadas. Meu coração começou a bater mais rápido. Olhei em volta e haviam algumas árvores bem escuras balançando com o vento. Elas lembravam monstros assustadores. Minha mente fértil começou a agir contra mim.
Aff… onde o Rafa estava? Já fazia mais de um minuto que ele tinha saído. Pensei em voltar para dentro de casa, mas estava tudo escuro lá. Olhei para a casinha que tinha ali na área de lazer e comecei a imaginar um bicho feio saindo de lá de dentro. Droga! Onde o Rafa estava?
Daí, do nada, uma alma penada branca saiu pela porta da casa dele gritando e correndo em minha direção. Tomei um puta susto e soltei um grito. Daí o Rafa saiu debaixo do lençol e começou a rir.
― Filho da puta! ― Eu gritei enquanto tentava recuperar meu fôlego.
Senti meu coração bater incrivelmente rápido. Meu deus! Ele queria me matar, só pode!
― Eiiii! ― Ele disse rindo. ― Você deve ter acordado todos os vizinhos, gritando desse jeito!
― EU!? ― Eu disse revoltado. ― Seu doido! Olha aqui! ― Eu disse e coloquei uma de suas mão em cima do meu peito.
― Nossa… você se assustou mesmo, hein?
― ―
506
― CLARO! VOCÊ VEIO DO NADA!
― Seu cagão! Vem logo! Peguei uma cobertinha pra gente! Pra você ficar quentinho!
― Cuzão. ― Eu xinguei ele.
Daí nós voltamos a nos sentar na beira da piscina. Ele jogou a mantinha por cima da gente e eu voltei a me acomodar em seu ombro. Seu corpo era tão quentinho que dava vontade de ficar ali com ele para sempre.
― E você, Rafa? ― Eu perguntei.
― O que tem eu?
― Ah… é que às vezes eu sinto que eu falo demais… e acabo não deixando você falar também… às vezes eu me esqueço de que você é quietinho…
― Ei! Eu não sou quietinho!
― É sim! Eu quase nunca sei o que você está pensando!
― É porque eu não penso em nada! Esqueceu que eu sou o cabeça de vento? ― Ele disse rindo.
― Não, tô falando sério, pô. Para de gracinha.
― Aff… mas o que você quer que eu fale?
― O que quiser! Eu estou aqui pra te ouvir.
― Eu não tenho muita coisa pra falar…
― Mas, mesmo não tendo muita, tem alguma coisa, né?
― Não… não sei… eu gosto de te ouvir… te ouvir me faz bem…
― Tá vendo? Eu não sabia disso! Viu como é bom compartilhar o que você sente às vezes?
― É claro que sabia!
― Não sabia não!
― Aff… que seja…
Ficamos de mão dadas em silêncio por um minuto.
― Posso te perguntar uma coisa? ― Eu disse.
― Que coisa?
― É… sobre… é sobre uma coisa… um pouco antiga, já…
― Coisa antiga?
― Sim…
― O que foi?
― E aquela história… sobre…
― Fala logo.
― E aquela história sobre disputar as estaduais do futebol?
― Aff… não quero falar sobre isso.
― O que? Por que?
― Porque não.
― “Porque não” não é resposta.
― Por que vai estragar a noite.
― Se você não falar, vai estragar a noite.
Ele suspirou e ficou em silêncio por um minuto.
― Não é… nada demais…
― Fala logo.
― Aff, Lu… deixa pra lá…
― Fala! ― Eu insisti.
― Olha, o treinador me chamou para disputar o campeonato estadual de futebol. Eu e mais dois garotos.
― ―
507
― Mas isso é ótimo! Por que você não quer falar sobre isso?
― Porque… porque isso significaria… droga, Lucas… por que você faz isso?
― Isso significaria o que?
― Olha, isso é uma oportunidade muito grande… muito grande mesmo… o treinador disse que, se fossemos jogar lá, teriam muitos representantes de grandes times de olho nos novos talentos… e ele disse que, com certeza, eu receberia alguma proposta grande, pois estou muito bem treinado…
― Até agora não vejo problemas…
― É claro que você não vê problemas. Ninguém vê problemas. Só eu. Mas eu vou te explicar o problema. O problema é: Se eu aceitasse alguma dessas propostas, seria inviável continuar morando aqui. Eu provavelmente teria que me mudar pra São Paulo, pra conseguir participar de todos os treinos e jogos… seria impossível cumprir todos os horários e continuar morando aqui. Isso significaria o fim. O fim de tudo. O fim de nós.
Puta que pariu! Por que eu tinha que perguntar? Droga, Lucas… por que você faz isso? Senti um puta arrependimento… eu não sabia o que dizer. Simplesmente estava sem chão. Eu queria que tudo fosse uma grande mentira… parei para refletir no que isso significava, e… era um ótimo futuro profissional para ele ou nós… o nosso relacionado… isso, com certeza, era uma das piores escolhas que alguém poderia enfrentar.
― Tá vendo porque eu não queria te contar? Tá feliz, agora?
― E o que você vai fazer? ― Eu perguntei.
Mas eu não sabia se queria ouvir a resposta.
― A pergunta não é o que eu vou fazer. É o que eu fiz. ― Ele disse olhando para o céu. ― É lógico que eu disse não.
E era justamente disso que eu tinha medo… eu não sabia se ficava feliz ou triste com isso… não… não adiantava mentir… eu estava feliz. Quer dizer, eu não estava feliz, feliz… mas, a sensação que eu estava sentindo, era muito próxima da felicidade… não… não era felicidade… era alivio… eu estava me sentindo aliviado… e isso só me fazia perceber o quão egoísta eu era. Mas, infelizmente, era a mais pura e simples verdade. Eu o queria para mim. Eu o queria para mim acima de tudo.
― É lógico que eu disse não. E é lógico que eu disse não por causa de você. Não adianta mentir.
― Rafa… ― eu disse me sentindo um mal por isso.
― Não! Você não disse que era pra eu falar? Agora me escuta! Essa é uma ótima oportunidade. Disso ninguém pode duvidar. Mas é uma ótima oportunidade pra quem quer ser jogador de futebol profissional. Sinceramente? Eu não quero isso pra minha vida. Já quis um dia… antes de conhecer você. Mas, com o tempo, acabei percebendo que isso não se passava de um sonho bobo… um sonho de criança… sem fundamento algum… assim como o sonho de ser astronauta. E foi você quem me fez cair na real.
― Rafa…
― É sério… por causa de você, eu melhorei na escola, no meu relacionamento com meus pais, com meus amigos, até com as pessoas que eu não conheço… eu mudei… você me mudou… você me mudou pra melhor… então, quando eu digo que não quero seguir a porcaria de uma carreira ridícula de jogador de futebol, é por causa de você. E não é um treinador Dias ou muito menos meu pai que vai me fazer mudar de ideia. Eu não quero isso pra minha vida. Quando eu olho pra você, eu penso em como você consegue se relacionar bem com as pessoas sem nem ao menos se esforçar! Lucas, você é especial. Você, sem dúvidas, será muito bem-sucedido naquilo que quiser. Você tem esse seu jeitinho de indefeso e inofensivo, mas, no fundo, você sabe o que faz! Sempre soube! Eu demorei para perceber, mas, de uns tempos para cá, para
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mim, você se tornou claro como cristal. Você esconde o seu melhor dos outros. Não sei se faz isso por timidez ou humildade, mas você não me engana. Esse seu jeitinho… todo mundo te ama, Lucas. Não adianta se enganar. Todo mundo te ama. E eu tenho muito medo de te perder. De te perder para essas pessoas.
Olhei para ele atónito.
― Você é o tipo de pessoa que não faz merda. Você nunca fez. Tudo o que você já fez foi para ajudar um amigo, ou para fazer alguém sorrir. Eu invejo isso de você… e é essa inveja que está me fazendo ser uma pessoa melhor… porque, a cada dia que passa, eu tento ser mais como você. Você só quer o bem, Lucas! Como não amar alguém assim? Como eu posso ficar bravo com você, se você me traiu, se, no fundo, eu morro de medo de te perder? Quantas vezes eu já quis botar juízo nessa sua cabecinha, mas tive medo de fazer, achando que você ia ficar bravo comigo e me deixar? Das trinta e seis meninas que eu beijei, sabe com quantas eu consegui construir alguma coisa de verdade?
Fiquei em silêncio olhando para ele.
― Com nenhuma. E, se fossem trinta e seis meninos, sabe com quantos eu teria construído alguma coisa de verdade? Com nenhum! Porque eu não faço ideia de como isso aconteceu. Essa nossa… amizade! Nossa amizade só foi possível porque você é assim! Nossa amizade aconteceu porque você simplesmente quis! Deve ser alguma coisa nesses olhos verdes!
Abracei ele com força e fechei os olhos.
― Sim. Com certeza é alguma coisa nesses olhos verdes. Porque eu não quero perdê-los. Eu não quero perdê-los nunca. Não sei o que faria sem você… ― ele me abraçou com mais força. ― Você me pediu para contar o que sinto, não é?
Eu fiz que sim com a cabeça.
― Pois bem… prepare-se para ouvir uma coisa que eu garanto que você não sabia. Você sabia que, toda vez que eu fico confuso, ou triste, ou que não sei mais o que fazer, eu penso em você? Sim… eu penso em você. Eu fico conversando comigo mesmo… “Ah, o que o Lucas faria nessa situação?”… e, quando eu tento te imitar e imitar sua doçura, coisas boas acontecem… seja comigo ou com os outros… e eu fico feliz… mas eu não fico feliz porque coisas boas estão acontecendo… eu fico feliz porque eu penso que você sorriria, se me visse fazendo essas coisas… eu fico feliz porque você ficaria feliz… então é isso. Eu nem te disse nada porque simplesmente não tinha aceitado. Não fazia sentido te entregar mais um fardo. Você já tinha muitos problemas na vida… ainda tem! Por que te deixar mais preocupado ainda? Olha, Lucas… eu tenho muito medo de te perder… e mais medo ainda de te magoar… de te machucar… porque… porque eu te amo muito… e… e eu… eu te amo demais, Lucas… é sério… eu… eu…
Senti meu ombro ficando molhado com alguns pingos de lágrimas. Comecei a chorar também.
― Eu também te amo… ― eu disse baixinho no seu ouvido.
― É sério… obrigado… obrigado por ser meu amigo… por ser meu melhor amigo… ― ele disse.
Aí ele começou a chorar ainda mais. Acho que nunca tinha visto ele chorar tanto assim… o garoto estava aos prantos… ele estava chorando tudo o que tinha acumulado por um bom tempo.
Estávamos envolvidos por uma cobertinha quentinha enquanto nos abraçávamos a luz do luar e das estrelas. Eu nunca tinha me sentido tão confuso assim na vida. Eu estava feliz, triste, emocionado, amedrontado e sei lá mais o que… eu estava completamente sem palavras. Na verdade, eu não estava confuso. Muito pelo contrário. Eu nunca tinha me sentindo tão lúcido na vida.
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Ficamos nos abraçando em silêncio por mais uns dez minutos. Estava tão quentinho e confortável nos seus braços que eu quase dormi. Toda hora ele passava as mãos nos meus cabelos e enchia minha cabeça de beijinhos. Eu amava ele. Eu amava ele incondicionalmente.
― Obrigado por se abrir… ― eu disse por fim.
― Obrigado por me escutar… ― ele agradeceu.
― Sempre.
― Sempre.
Foi quando eu ouvi um barulho vindo da sua casa. Nessa hora, confesso que fiquei com um pouquinho de medo.
― Rafa? ― Eu o chamei.
― Oi…?
― Você ouviu?
― Ouvi…
― Tô com medo. ― Eu disse abraçando ele mais forte.
― Não deve ser nada… deve ser só o vento.
Daí ouvimos outro barulho.
― Rafaaaaa… ― eu disse me jogando em cima dele.
― Aff… pera… vou lá ver o que é…
― NÃO! Tá doido? Não me larga aqui sozinho não!
― É rapidinho!
― NÃO! ― Eu disse segurando ele.
Foi quando Arthur apareceu na porta.
― Arthur!? ― Eu e o Rafa dissemos confusos ao mesmo tempo.
― Ei! Vocês disseram que iam voltar! E que não iam demorar!
Olhei para a cara do Rafa e depois olhei para Arthur.
― Ah… foi mal, Arthur…
― Já faz meia hora! ― Ele disse enquanto se aproximava da gente.
Daí ele se sentou ao nosso lado e olhou para o céu.
― Estão falando sobre o que?
― Ah… sobre nada… ― Rafa disse.
― Nada… só estávamos namorando aqui… ― eu disse.
― Hum…
― Tá sem sono? ― Eu perguntei.
― Sim… erm… eu meio que estava pensando na vida… daí não consegui dormir.
― E sobre o que você estava pensando? ― Perguntei.
― Em nada… só na vida mesmo… em como ela é engraçada…
Eu tinha me acomodado no colo do Rafa e nós dois estávamos envolvidos na mantinha.
― Por que diz isso? ― Eu perguntei.
Arthur começou a rir e disse:
― Só eu que percebi o que aconteceu?
Eu olhei para o Rafa e ele estava tão confuso quanto eu.
― Tá… olha só… vou dizer minha teoria para vocês…
― Teoria? ― Eu disse rindo.
― Sim… minha teoria… minha teoria de que, no mundo, só existem três tipos de pessoas.
― Ah, é? E quais seriam esses tipos?
― É bem simples. No mundo existem pessoas boas. Existem pessoas más. E existem pessoas inteligentes.
― ―
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Nessa hora, eu comecei a rir.
― Rafael! ― Arthur o chamou.
― O que? ― Rafa perguntou.
― Olha para o Rafa… ele não é mau.
― É… acho que não sou, Arthur…
― Mas tampouco é inteligente.
― Eiii! ― Rafa reclamou.
― Segura a onda, cabeça de vento, estou te chamando de bonzinho, aqui.
― Sei… ― ele disse vendo até onde Arthur queria chegar.
― Já você, Lucas… quem te vê, te conhece…
Eu comecei a rir.
― O que tem eu, Arthur?
― Você é bonzinho. Disso ninguém pode duvidar.
― Awnt, obrigado, seu fofo! ― Eu disse sorrindo para ele.
― Mas você também é inteligente…
― Isso quem diz é você…
― Você… você viola minha teoria… ninguém é inteligente e cem por cento bonzinho ao mesmo tempo…
― É… acho que não, Arthur… ― eu disse rindo.
― Mas você é.
― Longe disso, Arthur…
― Você não faz sentido aos olhos da minha teoria.
― Então sua teoria deve estar errada… ― eu disse rindo.
― Ou…
― Ou o que? ― Eu perguntei vendo aonde ele queria chegar.
― Isso só pode significar uma coisa…
― Ah é? E o que significa?
― Como ninguém pode ser as duas coisas ao mesmo tempo… e você, aparentemente, é as duas coisas ao mesmo tempo, você não é nenhuma das duas! Ao invés disso, você é mau!
― Opa! Sou muito mau, Arthur. Adoro sair por aí pisando na grama e roubando doces de criancinhas. ― Eu disse rindo e olhando para o Rafa, que sorriu.
― Mas não faz sentido você fazer as coisas que faz!
― Que coisas!?
― Ser bonzinho com todo mundo!
― Tá, olha só! Não sei de onde vocês dois tiraram que eu sou bonzinho com todo mundo, mas eu não sou!
― Ah, pelo amor de deus, Lucas! ― Rafa disse rindo.
― É, Lucas, pelo amor de deus! ― Arthur concordou com o Rafa.
Eu suspirei e deixei ele concluir.
― Então… pra você ser bonzinho com todo mundo, você só pode ser burro!
― Eiiii! ― Eu reclamei.
― Mas é isso que eu não consigo entender… porque você não é burro. Você é inteligente. Você é o mais inteligente daqui.
― Arthur… ― eu disse rindo. ― Achei que já tínhamos superado isso. Preciso te lembrar novamente de que foi você quem ganhou no xadrez?
― É aí que tá, Olhos Verdes… é aí que tá o mistério da vida! É por isso que a vida é engraçada! Será que foi só eu que percebi? Me escuta! Sim, eu ganhei no xadrez. Mas, mesmo
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assim, você ainda ganhou seu beijo e eu não fiquei com a garota. Agora me diz… quem venceu de verdade? Eu posso ter ganhado, mas, quem venceu, foi você.
Ficamos em silêncio olhando para a piscina.
― Não sei o que você é, Olhos Verdes. Mas sei o que você não é. Você não é burro.
― Chega, Arthur. ― Eu disse enquanto me levantava. ― Pelo visto, você ainda está bem alcoolizado, né?
― Já quer subir, Lu? ― Rafa perguntou enquanto se levantava também.
― Sim. Arthur precisa dormir.
― Pessoas boas podem tentar… pessoas más, também… ― Arthur disse enquanto se levantava do chão. ― Mas o mundo pertence às pessoas inteligentes!
― Tenho certeza de que sim, Arthur… ― eu disse enquanto pegava na mão do Rafa e o puxava para dentro de casa.
Rafa veio até meu ouvido e disse baixinho:
― Acho que ele enlouqueceu de vez…
― Você ainda tem alguma dúvida? ― Eu disse rindo.
Entramos para dentro de casa e Arthur nos seguiu. Quando chegamos no quarto, não demoramos para deitar. Arthur acabou dormindo no meu colchão e eu fui me deitar na cama junto com o Rafa. Nos deitamos de conchinha e ele me abraçou por trás. Sua cama era muito confortável… ainda mais na presença dele. Dividimos o mesmo travesseiro e a mesma coberta. Sua cama tinha seu cheirinho peculiar e delicioso de Rafael… o cheirinho de menino mais gostoso do mundo.
Arthur foi o primeiro a ir embora desse mundo. Dois minutos após deitarmos, ele já tinha começado a roncar. Rafa não demorou muito e foi logo em seguida. Soube disso assim que comecei a ouvir o barulhinho que ele sempre fazia enquanto dormia… era tipo um ronquinho, mas bem mais baixinho e muito mais fofo.
Eu não dormi rápido… muito pelo contrário. Demorei para pegar no sono. Tinha muitas coisas na cabeça. Mas, o que mais me incomodava, era o Rafa. Era ele e tudo que ele tinha me dito agora pouco. Aquilo ficou girando na minha cabeça por um bom tempo. A ideia dele desistindo de uma grande oportunidade… por minha causa… realmente tinha sido um choque… algo difícil de engolir. Fiquei imaginando o que faria no lugar dele. É claro que eu nunca trocaria meu querido Rafinha por causa de uma porcaria de jogo de futebol. Mas não era esse meu medo. E se eu tivesse que trocá-lo por uma coisa que eu realmente quisesse fazer? Mas, mesmo assim, eu não conseguia ver nada que valesse mais que meu Rafa… daí comecei a pensar na vida… no futuro…
Comecei a pensar que, inevitavelmente, em algum dia, cresceríamos… cresceríamos e nada seria tão fácil como estava sendo agora. Pois, venhamos e convenhamos, as minhas únicas preocupações eram os estudos e o namoro. Eu ainda nem precisava me preocupar com dinheiro… ou com o meu irmão que ainda nem tinha nascido… ou com a minha mãe que ainda conseguia trabalhar e cuidar de mim de boa… mas, daqui a alguns dias, querendo ou não, esses problemas seriam partes fundamentais da minha vida. Algum dia teríamos que começar a trabalhar… e, infelizmente, esse dia estava mais próximo para mim que para ele.
Eu estava preocupado com o futuro. Não adiantava mentir. Eu tinha medo do futuro da nossa relação. Será que, em algum dia, nos casaríamos? Eu sei que isso é uma coisa bem séria de se pensar… e bem idiota de se pensar aos doze, mas… era ele quem eu amava… eu não me via amando outra pessoa… eu não o via amando outra pessoa… e eu não via um mundo onde a gente fosse estupido o suficiente para brigar… ou para parar de gostar um do outro…
O Rafa era meu porto seguro e eu era o dele. O que seria de nós no futuro? Será que um dia eu pararia de gostar dele? Será que um dia ele deixaria de ser atraente? Será que o tesão
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acabaria? Era impossível… eu o achava infinitamente gostoso… eu não conseguia conceber um universo em que eu não sentisse essa forte atração sexual que eu sempre senti pelo Rafa.
Isso tudo estava girando na minha cabeça e tirando meu sono. E esse era só um dos meus problemas. Ainda tinha Giovanna. Ainda tinha Maurício. E, o pior de tudo… ainda tinha Arthur.
Por que eu me senti tão tentado a dormir com ele quando ele “ofereceu”? Digo ofereceu entre aspas porque ele havia perguntado inocentemente se eu dormiria com ele. Por que eu quis dizer “sim” mais do que eu quis dizer “não”? Isso tudo só me deixava mais confuso…
Eu, com toda certeza, não dormiria se não estivesse sendo abraçado pelo Rafa. Ter o seu corpo colado ao meu, era, sem dúvidas, a melhor fonte de paz e tranquilidade do mundo. Tentei relaxar e esvaziar a cabeça enquanto fechava os olhos e deixava o sono tomar conta do meu corpo e me levar para longe dali.
* * *
A essa altura do campeonato, eu já estava seguro de que acordar ao lado da pessoa que eu mais amava era a melhor coisa do mundo.
Apesar da hora, o quarto ainda estava escurinho. Estava bem quentinho embaixo das cobertas e eu podia sentir minhas costas suando, uma vez que estavam coladas no corpo quente e gostoso do Rafa. O cheiro de menino que estava no quarto era enlouquecedor. O cheiro de Rafa tinha se intensificado em dez vezes. Dormir com ele era realmente inebriante.
Agora que eu tinha acordado, podia sentir o peso de seu braço sobre meu corpo, sua respiração pesada sobre minha nuca e sua… ereção… bem… tocando meu bumbum.
Vagarosamente, me virei para ficar de frente com ele. Eu queria assisti-lo dormir um pouquinho. Meu anjo perfeito. Mas acho que acabei acordando-o.
Os dois olhões azuis mais lindos do mundo se abriram na maior tranquilidade do universo para me saudarem com um formoso “oi”. Eu adorava a cara de bravinho que ele sempre fazia quando acordava, como se estivesse revoltado com o sol, por estar nascendo.
― Oi… ― eu disse com o rosto bem pertinho do dele.
― Oi… bom dia… meu amor… ― ele disse com soninho.
― Dormiu bem? ― Eu perguntei.
― Tem como não dormir bem abraçando a pessoa que eu mais amo no mundo?
Ele me abraçou e me puxou para mais perto. Eu afundei minha cabeça no seu peito e inspirei seu cheirinho matinal de menino. Dei um beijinho no seu peito e disse:
― Acho que nem te agradeci… obrigado por ontem…
― De nada… é sempre um prazer bater uma punhetinha para você…
― Não é isso! ― Eu disse rindo. ― É por ontem… na piscina… por tudo que você falou… obrigado mais uma vez por se abrir pra mim…
― Eu é que agradeço por você se abrir pra mim… ― ele disse.
― De nada… ― eu respondi educadamente.
Quando eu percebi que, na verdade, ele tinha feito um trocadilho erótico, eu comecei a rir.
― Você não presta nem de manhã!
― É difícil evitar quando se está duro… ― ele disse rindo.
― Hum… você está duro, é? ― Eu disse enfiando a mão no seu shortinho de pijama e sentindo sua ereção.
― Hummmmm… ― ele gemeu. ― Isso é bom.
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― Gente… ― Uma vozinha vinda do chão reclamou. ― Vocês… poderiam… por favor… calar a boca… e arrumar… a porra de um quarto… só pra vocês?
― Arthur! ― Eu disse rindo ao me lembrar de que o nosso pequeno amigo nerdzinho havia pernoitado ali.
― Tampa os ouvidos, Arthur… porque, de manhã, a gente sempre geme mais… ― Rafa disse enfiando a mão na parte de trás do meu short e sentindo minha bunda.
― Ahh… pelo amor de deus… minha cabeça vai explodir… ― ele reclamou. ― Que horas são?
― Hora de transar gostoso… ― Rafa disse jogando uma perna em cima de mim.
― Espera, môrzinho, o Arthur precisa de ajuda… ― eu disse enquanto tentava escapar dos seus beijos.
― Ah, qual é… uma rapidinha… por favor… ― ele implorou.
― Não! Depois a gente faz isso! ― Eu disse enquanto me levantava da cama.
― Argh… ― Rafa reclamou entristecido.
Fui até o colchão do Arthur e me sentei ao seu lado. Com uma mão, eu apanhei uma das suas e, com a outra, eu comecei a alisar seus cabelos.
― Bom dia, Arthur… tá melhor?
― Minha cabeça dói… ― ele reclamou.
― Você tá de ressaca, seu bobinho…
― Como eu vim parar aqui na sua casa, Rafa? ― Arthur perguntou sem abrir os olhos.
― É uma longa história… ― Ele disse coçando a cabeça. ― Você não se lembra?
― Não… a única coisa de que eu me lembro… é… que eu estava no baile… o Lucas me contou que a Gi… que a Gi não ficaria comigo… daí… daí eu resolvi beber… daí… eu me lembro que bebi com os garotos do nono… depois disso… eu me lembro que estava em uma piscina… contando minhas teorias para vocês… ah… droga… vocês devem estar me achando um idiota, né? Minha mãe sabe que eu estou aqui?
― Você não se lembra de nada mesmo, Arthur? ― Rafa perguntou.
― Não… por que?
― Nadica de nada?
― Não… acho que não… tá tudo muito confuso ainda…
― Como tá a bunda?
― Que bunda? ― Arthur perguntou assustado.
― Ainda tá doendo?
― O QUE!? ― Ele disse enquanto enfiava a mão na bunda.
― Depois que eu gozei pela segunda vez, eu fiquei preocupado… mas você ficou insistindo que queria dar para o Lucas de novo… e que o Lucas tinha comido gostoso… e que o Lucas tinha metido gostoso… daí você disse que queria foder mais… qual foi a palavra que você usou mesmo? É… com fome? Não… não era isso… GULOSO! Você disse que estava guloso!
Eu não aguentei e comecei a rir. A cara do Arthur foi ótima. Ele estava de boca aberta. Daí, quando eu comecei a rir, ele olhou para mim.
― É claro que é mentira, seu bobo, não fizemos nada com você! Você estava bêbado!
Arthur continuou olhando sério para mim.
― Lucas, se aconteceu alguma coisa… eu preciso saber…
― Claro que não, seu doido! Olha! Depois que você vomitou, a gente teve que te dar banho… mas só fizemos isso porque realmente não dava… você tinha vomitado em si mesmo! Mas não te tocamos em momento algum, se é o que você está pensando!
― Putz… é mesmo… agora que estou me lembrando… eu vomitei muito… e, depois… vocês ainda me deram banho… nossa cara… que droga!
― ―
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― Desculpa por isso, Arthur… desculpa por rir também… ― Eu me desculpei.
― Droga… droga!
― Olha, desculpa…
― Não! Não é isso… meu WhatsApp! Por favor… me diga que foi só um sonho…
― Arthur… sinto muito por isso, mas… quando eu vi, já era tarde demais…
― O que eu disse para ela?
― Hum… bem… primeiro, você disse que a amava… depois, a chamou de alguns nomes feios… depois, chamou a Bruna de alguns nomes feios… depois, pediu desculpas, disse que amava mais uma vez e, depois…
Mas fiquei em silêncio.
― Depois o que?
― Foi só isso. ― Eu concluí.
Ele não precisava saber.
― Ah… cara… e como vim parar aqui?
― Achamos que você não ia querer que sua mãe te visse naquele estado… daí te trouxemos para cá…
― Ah… isso é bom… então minha mãe não sabe? ― Ele disse com um pingo de esperança.
― Ela sabe, Arthur… o pai do Rafa descobriu e fez questão de ligar para ela…
― Ah… cara… ― ele disse colocando as mãos na cabeça e fechando os olhos. ― Não… cara… por que?
― Mas… é isso… sinto muito, Arthur…
Ele suspirou e respirou fundo algumas vezes.
― Não… não sinta… eu que fui o idiota de beber, não é? Acho que só estou pagando pelos meus erros…
― Talvez… ― eu disse.
― Tem mais alguma coisa? ― Ele perguntou.
― Ah… bem… se serve de consolo, a Gi também brigou comigo…
― Ah… foi por causa de mim?
― Ela ficou brava quando descobriu que eu contei o segredo dela para você. Mas ela tem razão. Eu que pisei na bola com ela.
― Desculpa, Lu… por favor… me desculpa…
― Não é pra mim que você tem que pedir desculpas… você deve desculpas a sua mãe… e a Gi também… e a Bruna… seja homem e trate de se desculpar com elas, okay? ― Eu o orientei.
― Não quero, Lu… ― ele disse com os olhos cheios d’água.
― Acho que… ninguém quer… sinto muito por isso. ― Eu disse fazendo um carinho nos seus cabelos.
― Sinto muito também, Arthur… ― Rafa disse enquanto observava tudo.
― Valeu… ― ele disse. ― E obrigado pela casa também… e… desculpa por… vomitar…
― Não esquenta… eu te entendo…
― E… obrigado pela roupa também…
― Nada…
― E desculpa o trabalho…
― Relaxa! Olha, o que você acha de guardar seus modos e sua educação pra sua mãe? Você vai precisar…
― Ah… droga… nem me fale… ― ele disse.
― O que você acha de tomar um café? Pode beber água, também, se quiser… dizem que é bom pra ressaca… ― Rafa disse sendo gentil.
― ―
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― Obrigado… vou fazer isso sim.
Nos levantamos, escovamos os dentes e lavamos o rosto, e, finalmente, descemos as escadas para tomar café. Fomos recebidos pela mãe e o pai do Rafa, que estavam de boa. Dona Olívia fez inúmeras perguntas ao Arthur, para saber se ele estava bem. Ofereceu água e café várias vezes. Disse o quanto ficou preocupada com ele quando soube o que aconteceu.
Ela também ficou feliz ao me ver, eu e ela nos dávamos super bem. Discutimos algumas coisas sobre as viagens, ela fez algumas perguntas sobre minha mãe e sobre meu futuro irmão ou irmã.
Seu Danilo não quis voltar atrás e deixou o Rafa de castigo sem pensar duas vezes. Arthur se desculpou um milhão de vezes por aparecer de madrugada bêbado na casa deles, por vomitar no colchão e por sujar o banheiro todo. A mãe do Arthur, dona Renata, foi buscar ele na casa do Rafa e pareceu ser de boa também. Ela apareceu lá super preocupada e, quando viu o filho, tratou de dar-lhe um abraço bem longo e caloroso. Arthur ficou muito sem graça… parte por ver a mãe depois de fazer merda e parte por isso acontecer bem na nossa frente. Mas eles não ficaram por muito tempo. Ela tratou de tirá-lo dali o mais rápido possível, para “não incomodar mais”… mesmo que ninguém estivesse sendo incomodado.
O resto da tarde eu passei com o Rafa. Minha mãe apareceu para me pegar lá para as seis da tarde. Bom… esse foi o meu sábado.
E, foi assim, que as férias finalmente começaram. O Rafa estava de castigo, então… eu não pude vê-lo nos próximos dias que se seguiram. Mas isso nem foi um problema, pois eu tinha muitas coisas para colocar em ordem antes dessa viagem. Viajaríamos dia 6 de dezembro, quinta-feira. E, nosso retorno estava previsto para quase duas semanas depois, dia 17 de dezembro, segunda-feira. Queríamos estar em casa antes das festas de fim de ano, pois os Mackenzie’s sempre reuniam a família toda e faziam uma grande festa de natal e de ano novo. E eu também tinha prometido para minha mãe que passaria o natal com ela. Nada demais.
Como o baile tinha acontecido de sexta (dia trinta) para sábado (dia primeiro) eu não ficaria muito tempo longe do Rafa. Apenas quatro dias. Quatro dias que seriam fundamentais para determinar meu aproveitamento na viagem.
No sábado mesmo, eu tratei de ligar umas quinhentas vezes para a Giovanna. Obviamente, ela não me atendeu. No dia seguinte, domingo, tentei contatá-la novamente. Graças aos céus, consegui. Ouvi quarenta minutos de bronca, choro, desabafo, mais bronca, mais choro, mais e mais bronca, mas ela acabou me perdoando. Eu tive que falar durante horas e horas para que ela começasse a me entender e me perdoar. Acabei ganhando seu perdão, mas Arthur não.
Durante esses quatro dias, também tive que conversar com minha mãe. Conversamos durante horas. Ela me encheu de perguntas sobre a viagem e mandou altos papos sobre dinheiro, comida, proteção solar, hotéis, taxis perigosos, tubarões, águas vivas, areia movediça, trovões, placas tectônicas, lixos na praia, desastres ambientais, doenças contagiosas de mendigos da terceira idade, fragilidade da mulher solteira, obesidade mórbida e… deixando o pior para o final… sobre sexo. Mesmo negando até a morte que eu ainda não fazia sexo com o Rafa, ela pareceu não acreditar.
Também fui todos os dias no seu Humberto e o enchi de perguntas sobre o mar. Claro que ele sempre dizia que tudo seria diferente quando eu visse com meus próprios olhos, mas… eu estava curioso… mal podia esperar para ver…
Conversamos bastante sobre minha mãe, sobre o Duque e… deixando o pior para o final… sobre o Matheus. Sim… conversamos sobre o Matheus.
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É claro que eu estava curioso para saber o que tinha acontecido com ele. Eu estava tentando evitá-lo a todo custo, por causa do meu lance com ele, mas… não tinha como negar, eu estava curioso…
Seu Humberto me disse que Matheus tinha empinado o nariz de vez. Ele me disse que não gostava nenhum um pouquinho daquele amigo dele, o Bola. Que o garoto era um metidinho da rua 3 e que estava ensinando um monte de coisas erradas para o Matheus. Tio Humberto, a princípio, disse que essas “coisas erradas” eram palavrões e modos de menino arrogante e malcriado. Mas, para mim, ali tinha coisa… para mim, essas “coisas erradas” não se limitavam a palavrões. Aqueles dois, com certeza, deviam estar aprontando muito entre quatro paredes… ah… deixa pra lá… eu não podia me deixar levar pelos desejos carnais. Por mais que eu sentisse uma atração fodida naquele garoto, eu devia manter distância… pelo bem do meu relacionamento… pelo bem da minha estabilidade com o Rafa. Foda-se se Matheus estava se acabando na punheta com um playboyzinho dissimulado. Ele já havia me trazido problemas o suficiente. Pensar nele era abusar da sorte.
Também tentei ligar para o Arthur, para ver se tinha ficado tudo bem entre ele e a sua mãe. É claro que, por causa do jeito dele, ele acabou não me explicando direito o desfecho de sua ocorrência. Mas ele me disse que não ficou de castigo. Menos um problema na minha vida.
Bom… a viagem estava programada para dia 6. Mas, quando foi dia 5, recebi uma visitinha inesperada em casa. Quando eram mais ou menos onze horas da manhã, a campainha tocou.
Fui correndo atender e, quando abri o portão de casa, dei de cara com o menino mais lindo e mais gostoso do mundo. Ele tinha, em uma das mãos, um presente embrulhado em papel verde claro.
― Bom dia, Olhos Verdes.
Quando o vi, não me contentei de felicidade e pulei em seus braços.
― Gatinho! Que saudades, meu amor!
Ele me abraçou de volta enquanto tentava recuperar o equilíbrio.
― Pensei que estivesse de castigo… ― eu disse.
― Eu estou! ― Ele disse.
Quando olhei para o sedan prateado, avistei Gabriel.
― Gabriel! ― Eu corri para lhe dar um abraço.
― Oi, Lucas! ― Ele me cumprimentou. ― Vim deixar essa peste aí. Algum problema? ― Ele perguntou enquanto descia do carro para me receber.
― Que saudades! ― Eu disse enquanto o apertava com força.
― Uou, uou, uou… vai com calma, garotão! Preciso estar inteiro para minha garota.
― Por onde andou? ― Eu perguntei enquanto o soltava.
― Estudando, ué! Agora entrei de férias. Olha, papai e mamãe não sabem que fugimos. Para eles, eu e o Rafa estamos comprando repelente e protetor solar no mercado, okay?
― Tudo bem! ― Eu disse empolgado.
― Bom… não vou ficar muito tempo, porque tenho uma garota me esperando… o Rafa pode ficar aí?
― Claro que pode! ― Eu disse feliz.
― Rafael, te pego daqui… uma hora?
― É só isso que você aguenta, mano? ― Ele disse rindo e colocando a mão no saco.
― Aff… volta a pé, então, retardado! ― Ele disse enquanto voltava para o carro. ― Lucas, daqui uma hora eu volto pra pegar essa peste. E, Rafael, lembre-se de que não podemos nos atrasar, pois estamos de castigo…
Gabriel deu partida no carro e pisou no acelerador.
― ―
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― Você também tá de castigo? ― Perguntei encantado.
― Sempre! ― Ele disse rindo enquanto abanava a mão e arrancava com o carro num desespero que só alguém atrasado para uma foda estaria.
Olhei para o Rafa e ele estava com um embrulho na mão. Ele me entregou a caixinha e disse:
― São só chocolates… não sabia bem o que te comprar…
― Ah… obrigado… ― eu disse. ― Você é um fofo… ― dei um selinho nele. ― Entra, Gatinho, fica à vontade…
Conforme entravamos em casa, eu fui desembrulhando seu presente. Ao retirar o papel, descobri uma caixinha de bombonzinhos redondinhos que estavam dispostos em forma de coração.
― Awnnt, Gatinho! ― Eu disse sorrindo.
― São bombons de chocolate com morango… não são aqueles da cantina, mas… são tão bons quanto.
― Amei! ― Eu disse enquanto dava um abraço nele.
Estávamos na sala quando ele perguntou:
― Cadê sua mãe?
― Ah… minha mãe? Ela saiu… foi no obstetra… fazer alguns exames de rotina por causa da gravidez…
― Hum… então… ― ele disse olhando pelos cantos. ― Você está sozinho em casa?
― É… acho que sim…
Ficamos nos olhando nos olhos durante alguns segundos.
No próximo instante, já estávamos ambos pelados em cima da cama curtindo nossos corpos. Eu coloquei pra tocar uma música no meu computador, no volume máximo, para que pudéssemos gemer à vontade, sem que os vizinhos ouvissem, porque hoje eu estava a fim de gritar… hoje eu estava a fim de gritar e de gemer muito! Coloquei pra tocar Burning Rain, do Ten Seconds Over Tokyo.
Estávamos nos beijando loucamente enquanto nossas ereções se tocavam e provocavam as mais prazerosas sensações nos nossos corpos.
― Hum… eu estava com muitas saudades… você não tem noção… ― ele disse enquanto chupava meu pescoço.
― Hum… eu também… ― eu disse enquanto arranhava suas costas. ― Principalmente disso aqui…
Agarrei o seu pintinho e o apertei. Ele soltou um gemidinho de prazer e mordeu meu pescoço.
Depois de mais dez minutos de pegação na cama, ele alcançou o tubinho de lubrificante KY que estava no criadinho mudo e disse baixinho no meu ouvido:
― Sabe o que eu quero?
Daí ele foi virando meu corpo para que eu ficasse de barriga para baixo e bunda para cima.
― O que? ― Eu disse enquanto sentia a cama macia entrar em contato com meu corpo todo.
Ele foi no meu outro ouvido e sussurrou baixinho:
― Fazer sexo… bem gostoso…
Eu tremi de tesão.
― Você também quer? ― Ele perguntou.
― Uhum… ― eu implorei enquanto tentava recuperar o controle da minha respiração.
― Transar bem gostoso… você quer?
― ―
518
― Uhuuum… quero… quero… ― eu implorei mais uma vez.
― Mas você tem que me prometer uma coisa… ― ele disse enquanto me puxava pela cintura para que eu ficasse de quatro.
― O que você quer? ― Eu perguntei.
Ele montou em cima de mim, me abraçou pela barriga e sussurrou no meu ouvido:
― Quero que você me prometa que vai gemer…
― Uhum… ― eu disse enlouquecido. ― Eu prometo.
― E que vai gemer muito…
― Eu prometo… eu prometo… ― eu disse enquanto sentia ele pegar nas minhas bolas.
― Muito mesmo…
― Eu prometo!
― Quer foder? ― Ele perguntou enquanto derramava lubrificante na minha bunda.
― QUERO! ― Eu gritei desesperado.
Ele começou a esfregar seu dedinho na minha entradinha e, logo em seguida, já mandou um dedo pra dentro, pra lubrificar melhor.
― Aaaaaaahhh… ― eu gemi.
― Hum… tô gostando de ver… ― ele disse.
Ele se lubrificou e, do nada, mandou tudo pra dentro.
― Aaaaaaaaaaaaaaaaahhh! ― Eu gemi de prazer.
O Rafa era um filho da mãe… ele sabia como me pegar de jeito… eu não conseguia resistir… ele, sem dúvidas, sabia fazer muito gostoso… ele me conhecia melhor que ninguém.
Assim que ele enfiou sua piquinha em mim, me abraçou por trás e colou seu peito nas minhas costas. Ele deu uma mordidinha de leve na minha orelha e disse:
― Não estou ouvindo você gemer…
Aí não tinha como… comecei a gemer pra valer. Ele começou a intensificar os movimentos de vai e vem e, depois de um minuto fodendo, nossos corpos já estavam um pouquinho suadinhos.
Nossas coxas estavam coladas e ele me segurava firmemente pela cintura. Sua virilha batia na minha bunda a medida que ele mandava seu pintinho para dentro. De vez em quando, ele passava as mãos nas minhas costas, me fazendo tremer de tesão.
― Aaaahhh… aaahhh… ― eu gemia.
Era tão gostoso dar para ele… chegou a um ponto em que ele começou a fazer movimentos tão rápidos que a cama começou a balançar e bater na parede. Nessa hora, eu gemia sem parar. Se não fosse a música, a vizinhança inteira estaria nos escutando. Eu estava de quatro e ele estava mandando ver ali atrás. Foi quando a porta do quarto se abriu…
― Lucas, abaixa essa mú………….. ta que pariu…
― AAAAAAAAAAAAAAAAAA! ― Eu gritei enquanto puxava um lençol para cobrir meu corpo. ― AAAAAAAA! AAAAAAAAAA! AAAAAAAAAAAA!
Rafa, em menos de um segundo, tinha virado um pimentão, de tão vermelho que tinha ficado.
― DESCULPA, SENHORA ANA! DESCULPA! ― Ele gritou enquanto disputava comigo um pedaço do lençol.
― AAAAAAAAAA! AAAAAAAA! AAAAAAAA! ― Eu continuei gritando.
― Ah… “eu não faço essas coisas não”… ― minha mãe disse me imitando. ― Sou eu quem faz, né, Lucas Henrique?
― MÃEEEEEEEE! SAI DAQUI! ― Eu gritei irritado.
Será que essa mulher queria me matar de vergonha?
― ―
519
― Desculpa, meninos! Estou saindo! Estou saindo! ― Ela disse enquanto fechava a porta.
Olhei para o Rafa e ele tinha botado as duas mãos na cara, para escondê-la.
― Puta que pariu! Se veste logo! ― Eu disse jogando sua cueca para ele.
Apanhei minha cueca do chão o mais rápido possível, mas, quando fui me vestir, minha mãe apareceu na porta novamente.
― Ah, quase me esqueci, Lucas…
― MÃEEEEEEEEEEEEEE! ― Eu gritei enquanto subia minha cueca. Rafa já tinha vestido a dele.
― Acabei de voltar do médico. Você vai ganhar uma irmãzinha!
― NÃO QUERO SABER! SAI DAQUI! ― Eu gritei mais uma vez enquanto apanhava minha bermuda do chão.
― Humpf… e eu ainda tinha esperanças de que você seria o homenzinho da relação…
― AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! ― Gritei de ódio.
Joguei meu travesseiro nela, mas ela conseguiu fechar a porta antes. Olhei para o Rafa e ele disse:
― Me mata… por favor…
― Relaxa, Gatinho… pelo menos ela leva na esportiva… ― tentei consolá-lo.
Pois é… acredite ou não, minha mãe me flagrou dando o cú… quer coisa pior que essa? Eu sabia que devia ter trancado a porta! Não se pode confiar em mais ninguém nesses dias…
Nos vestimos rapidamente e o Rafa ficou pensativo sentado na cama.
― Acho que vou chorar… ― ele disse.
Me sentei ao seu lado e comecei a passar a mão nas suas costas.
― Que foi, Gatinho? Aconteceu, aconteceu… ela viu. Supera! Não podemos fazer nada a respeito.
― Meu deus, Lu… você não tá entendendo… sua mãe… nos pegou… meu deus… quero morrer…
― Relaxa, Gatinho…
― Como vou olhar na cara dela agora?
― Ah, para de reclamar, você quase não vem aqui! E eu que moro com ela?
― É sério… vou chorar… ― daí ele começou a chorar mesmo.
― Meu deus, Gatinho! Por que você tá chorando? ― Eu perguntei. ― Esquece isso…
― O Gabriel ainda vai demorar… meia hora…
― Relaxa… se quiser podemos esperar aqui no quarto mesmo…
― Mas… ― ele tentou falar.
― Mas o que?
― Sua mãe vai pensar que estamos…
― Ué… mas nós estávamos…
― Não…
― Tá bom, se quiser, podemos ficar lá na sala…
― Não!
― Então o que você quer fazer?
― Quero morrer…
― Ah, isso eu não vou deixar… vem, vamos lá pra sala…
― Nãooooo… ― ele choramingou.
Peguei na sua mão e o puxei para fora do quarto.
― Anda logo! ― Eu disse.
― Não quero! ― Ele choramingou novamente.
― ―
520
Fui arrastando ele até a sala. Minha mãe estava na cozinha. Daí ligamos a televisão e ficamos sentados no sofá, um do lado do outro.
― Ah… e parabéns… pela irmãzinha…
― Ah… é… é mesmo… obrigado… eu acho… ― eu disse coçando a cabeça.
― Tá feliz?
― Hum… estou sim… eu acho…
― Eu sei que você queria um irmão, mas… meninas também são legais… eu acho…
― É… eu acho… ― É… eu acho que estava feliz mesmo assim.
Quando minha mãe percebeu que estávamos na sala, ela veio nos ver.
― Terminaram lá? ― Ela perguntou.
Rafa voltou a parecer um morango. Um moranguinho bem gato e loiro.
― Mãe… por favor… para! ― Eu pedi.
― O que foi, Lucas? Larga mão de ser bobo… comecei na sua idade também… ô época boa… em que eu era gostosa… minha primeira vez foi com um rapaz de quinze anos… claro que o piupiu dele era bem maior que o seu, mas… espera… essa não foi a primeira vez de vocês, né?
― Mãeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee… ― eu implorei. ― Não na frente do Rafa.
― Tá bom, eu paro! Ô menino revoltado… nem parece que estava…
― MÃEEEEE! ― Eu gritei pegando no pulso do Rafa e o levando de volta para o quarto.
Sim… minha mãe tinha me flagrado… fiquei com muita dó do Rafa… ele estava morrendo de vergonha. Ele ligou umas quinhentas vezes para o Gabriel, para mandar ele vir buscá-lo. Gabriel acabou o zoando por não ter durado uma hora… mesmo saber o motivo.
Meia hora depois do nosso mico, Gabriel buzinou no portão para pegar o Rafa, exatamente na hora que eles haviam combinado. Rafa praticamente saiu correndo de casa quando ouviu a buzina. Ele gritou um “tchau” para minha mãe sem nem ao menos olhar na sua cara.
― Nossa, ele está com pressa, né? ― Minha mãe perguntou ao aparecer na sala.
― PRESSA DE IR EMBORA E NUNCA MAIS TE VER, MULHER! ― Eu gritei.
― Mas o que foi que eu fiz? ― Ela perguntou se fazendo de inocente.
― AAAAAAAAAAA! ― Eu gritei e fui para meu quarto.
Bem… obviamente, eu não cheguei a discutir isso com minha mãe. Não tinha como chegar nela e perguntar… “e aí, mãe… o que a senhora achou?”. Eu sabia que, se eu fosse tentar conversar com ela, ela só pioraria a situação. Era da natureza dela me fazer passar vergonha. Parecia até que sentia prazer fazendo isso.
Mais tarde, o Rafa fez mó drama por mensagens. Ele ficou me enchendo o saco o dia inteiro perguntando se minha mãe tinha falado alguma coisa, mas ela nem falou nada. Ele queria porque queria saber o que ela estava achando. Eu não estava tão preocupado quanto ele. Eu conhecia minha mãe. Ela conseguia me matar de vergonha sempre que quisesse, mas ela também conseguia ser bem discreta às vezes… e foi o que aconteceu. Ela gostava de me envergonhar só na frente do Rafa. Assim que ele foi embora, ela parou de me zoar.
E o Rafa também estava pensando que minha mãe era igual a dele. Eu não conseguia imaginar o que Dona Olívia faria se pegasse o Rafael de quatro dando o cú para mim. Ela seria o tipo de mãe que não conseguiria disfarçar o constrangimento e, com certeza, estragaria ainda mais a situação. Sem falar que o Rafael era seu menininho de ouro. Em que mundo ela poderia imaginar seu principezinho loiro dando o cuzinho por aí… se bem que… o Rafa mal me deixava comê-lo… raros eram os dias em que ele estava solidário o suficiente para pensar na fome do próximo.
― ―
521
Eu nem me irritava mais com isso. Sim, eu adorava comê-lo, mas, frequentemente, ele conseguia fazer uma passiva ser bem mais divertida… pelo menos pra mim… e eu o amava e o odiava por isso. Fazer o que…
Enfim… não cheguei a discutir isso com minha mãe. Passei o resto do dia jogando meu Minecraft em paz, trocando mensagens e fotos com o Gatinho e arrumando minha mala, pois amanhã seria o grande dia.
* * *
― Pegou bermudas?
― Peguei.
― Camisetas?
― Umas dez.
― Cuecas?
― Peguei.
― Sunga?
― Peguei.
― Óculos de sol?
― Peguei.
― Protetor solar?
― Peguei.
― Escova de dentes?
― Peguei.
― Chinelo?
― Peguei.
― Toalha?
― Peguei.
― Bermudas?
― Já disse que peguei!
― Hum… protetor solar?
― Mãe! Já disse que peguei!
― Camisinhas?
― Aaaaaaaaaaaaaaa… nós ainda nem fazemos isso, mãe!
Com a mala pronta, que, por sinal, estava gigante, me dirigi até fora de casa. A família Mackenzie passaria aqui daqui dez minutos. Meu coração já estava batendo mais forte.
― Pegou bermudas? ― Minha mãe perguntou mais uma vez.
― Mãe… já disse que peguei!
― Tá com o dinheiro aí?
― Sim.
― Você se lembra das regras, né?
― Sim senhora. Não pedir dinheiro emprestado. Controlar meus gastos. Trazer uma lembrancinha para senhora. Tomar cuidado com comidas, taxistas, com o mar e nunca andar sozinho.
― E nem aceitar nada de estranhos.
― E nem aceitar nada de estranhos. Entendi, mãe.
― Eles estão vindo?
― Estão sim… o Rafa disse que, daqui dez minutos, ele chega.
― Hum… entendi…
― ―
522
― LUCAS! ― Eu ouvi alguém me chamar do outro lado da rua.
― Tio! ― Eu gritei.
Ele atravessou a rua e veio me ver.
― Já está indo?
― Estou sim!
― Hum! Que legal! O Rafael está vindo pra cá?
― Está sim, tio!
― Oi, Ana! ― Ele disse e foi lhe dar um abraço.
― E aí, Luquinha… vim buscar o Duquito.
― Ah… tá… vem… vamos lá dentro comigo pegá-lo.
― Tá…
― Mãe, dá uma olhadinha na mala que eu já volto.
Eu e o tio Humberto entramos na minha casa e fomos atrás do Duque.
― Duque! ― Eu o chamei.
Meu cachorrinho veio correndo e pulou em cima de mim.
― Você vai ficar com o tio, garotão. Se comporte.
Ele foi cheirar o tio e fazer festinha.
― Tio… então… o senhor cuida da minha mãe?
― Pode deixar, Lucas. Viaje tranquilo. Vou cuidar de tudo aqui para você.
― Okay… obrigado, tio! ― Eu disse dando um abraço nele.
Foi quando ouvimos uma buzina.
― São eles. ― Eu disse.
Fui correndo até o portão e avistei o seu Danilo no banco da frente e o Rafa no banco do carona. Eles desceram do carro e nos cumprimentaram.
― Bom… acho que é isso… ― eu disse.
― Pois é… vai com deus, então, meu filho! ― Minha mãe veio me dar um abraço e um beijo.
― Valeu, mãe…
― Liga, viu? Quando chegar no aeroporto, antes do avião decolar, depois que ele pousar, quando chegar no hotel. Não me deixa no escuro não, tá bom?
― Aham…
― Faz ele ligar pra mim, tá? ― Ela disse para seu Danilo.
― Claro, pode deixar! ― Ele concordou.
― E lembre-se das regras, Lucas…
― Tudo bem, mãe…
― Tá bom então… tchau, meu filho, boa viagem. ― Ela disse me soltando.
― Tchau, Luquinha. ― Tio Humberto veio me dar um abraço.
― Tchau, tio.
Fiz um cafuné na cabeça do Duque enquanto seu Danilo botava minha mala no porta-malas.
Despedi-me mais uma vez da minha mãe e do tio e entrei no carro. Gabriel ainda estava tomando banho e Dona Olívia estava terminando de conferir as malas, por isso só o seu Danilo e Rafa tinham vindo me buscar. Daí nos dirigimos para a casa deles.
Chegando lá, fui recebido por Dona Olívia.
― Oi, Lucas! Tudo bem com você?
― Oi, tudo bem sim…
― Tá com a mala pronta?
― Aham…
― ―
523
― Espera só um pouquinho que o Gabriel já está terminando de tomar banho. Senta aí no sofá.
― Tudo bem… ― eu disse enquanto me sentava.
― RAFAEEEEEEEL! ― Ela gritou.
― QUE? ― Ele respondeu lá da cozinha.
― VAI TOMAR BANHO LOGO, SENÃO VAMOS NOS ATRASAR!
― TÔ INDO!
Daí o Rafa apareceu na sala e me convidou para subir. Subimos as escadas da sua casa e chegamos no seu quarto.
― Lu, espera aí que eu vou tomar um banho rapidinho, tá? ― Ele disse tirando a camiseta.
Eu fiz que sim com a cabeça e me sentei na sua cama.
― Se quiser, liga a TV aí… ― ele disse me passando os controles.
― Valeu… ― eu disse.
Ele pegou uma troca de roupa, que estava separada em cima de sua escrivaninha, e se dirigiu para o banheiro de seu quarto, me deixando sozinho ali.
Liguei a TV na Fox e estava passando The Walking Dead. Sentei na cama do Rafa e fiquei assistindo por um minuto. Foi quando eu olhei para a sua escrivaninha e vi um caderninho um tanto quanto familiar.
Olhei para a porta do banheiro e ouvi o chuveiro ser ligado. Será que ele tinha deixado seu diário ali sem querer? Meu coração começou a bater mais rápido. Eu estava curioso.
Eu sei que, no passado, eu disse que nunca o leria, mas… eu estava curioso. O que será que ele escrevia ali?
Me levantei da cama e olhei mais uma vez para a porta do banheiro. Caminhei lentamente até sua escrivaninha e me aproximei do caderninho vermelho. Foi quando a porta do banheiro se abriu.
Tomei um susto e olhei para trás. Rafa saiu com a toalha enrolada na cintura e disse:
― Hahaha… esqueci minha cueca…
Eu, para disfarçar, voltei a me sentar na sua cama. Quase que ele me pega fuçando nas suas coisas…
― Nossa… você já viu? ― Ele me perguntou e eu fiquei nervoso.
― Vi o que? ― Eu perguntei tentando disfarçar. Será que ele tinha desconfiado de que eu queria fuçar no seu diário?
― Esse episódio…
― Ah… ― Eu disse quando percebi que ele estava se referindo a The Walking Dead. ― Já sim… esse é muito bom…
― Aham… ou, vou tomar banho rapidinho, já volto, viu… ― ele disse.
― Tá, Fefél… tô aqui, qualquer coisa…
― Tá bom… ― ele disse e voltou para o banheiro.
Ouvi a fechadura do banheiro se trancar e ele começou a cantar no chuveiro. Olhei para a escrivaninha e o livrinho vermelho estava ali… paradinho… escondendo seus mais profundos segredos e pensamentos…
Olhei para a porta do banheiro e pensei mais uma vez se faria isso ou não. Me levantei e fui até a porta do seu quarto. Olhei pelos corredores e eles estavam vazios. Olhei mais uma vez para a porta do banheiro e alcancei o caderninho.
Meu coração estava acelerado. Eu não fazia ideia do que encontraria ali. Abri na última página e estava escrito:
― ―
524
Hoje, finalmente, vamos viajar… estava pesquisando sobre Porto de Galinhas na internet e descobri que a cidade recebeu esse nome porque recebia escravos ilegais em seus portos. Porém, os escravos chegavam escondidos embaixo de caixas de engradados de galinhas da angola. Daí, a chegada dos escravos costumava ser anunciada como “Tem galinha nova no porto!”.
Espera… não era isso que eu queria ler. Eu queria ler o que ele havia escrito sobre mim. Voltei uma página e estava escrito:
Daí ela nos pegou… eu não culpo ninguém… só nunca mais faço nada com a porta destrancada ouvindo música alta.
Eu ri ao me lembrar da cena. Minha mãe não valia nada. Olhei para a porta do banheiro, para ter certeza de que o Rafa não sairia, mas ele ainda estava cantarolando no banheiro. Voltei mais algumas páginas e li:
Querido diário, hoje conheci alguém especial…
Espera. Eu reconheci essa página. Me lembrei de que tinha sido essa página que eu havia visto quando abri seu diário pela primeira vez. Eu não cheguei a ler o resto, aquele dia, mas confesso que estava muito curioso.
Querido diário, hoje conheci alguém especial… não sei porque, mas acho que seremos grandes amigos… sei lá… eu sou meio tímido e ele também me pareceu ser, então… não sei o que será daqui para frente… ele pareceu ser bem legal… eu também conheci seu primo, o Arthur… ele é legal também…
Eu ri comigo mesmo… será que, no primeiro dia que nos conhecemos, ele pensou que Arthur fosse meu primo? Hahaha…
Comprei um chocolate para ele… ele gostou… e eu gostei que ele gostou… mas ele me pareceu meio triste… talvez porque tivesse trocado de escola… eu ficaria triste se tivesse que trocar de escola… mas vamos ver…
Apresentei a escola para ele, contei sobre o Igor… e, durante a aula de matemática, ele acertou a pergunta que a professora fez, mesmo sem saber a matéria… esse é o menino que entrou na minha sala… esse é o menino que eu já considero especial… esse é… o Olhos Verdes.
Nessa hora, comecei a chorar… não sei porque, mas ler isso me deixou muito emotivo… sem querer, deixei cair uma lágrima sobre a página… bem aonde estava escrito “Olhos Verdes”. Avancei mais algumas páginas para frente e li:
Arthur também nos contou sua teoria hoje. Sua teoria de que, no mundo, só existem três tipos de pessoas: As boas, as más e as inteligentes.
Ele também disse que não compreende o Lucas. Que ele não faz sentido aos olhos de sua teoria. Ele disse que não entende como o Lucas pode ser bom, inteligente e altruísta ao mesmo tempo, mas… eu entendo. Eu entendo muito bem. Ele pode não saber o que o Lucas é, mas eu sei. O Lucas é um anjo. O Lucas é o meu anjo.
― ―
525
Bem… quanto a sua segunda teoria… eu não sei se o mundo pertence aos inteligentes, mas, com toda certeza, o mundo pertence aos anjos.
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