O menino dos olhos verdes 64
Ele apertou minha mão com um pouco mais de força depois de se assustar com a primeira explosão.
― Carregar…
Calhou de este ser um daqueles dias tristes e carregados de emoções.
― Fogo!
O segundo tiro arrancou dele um soluço.
― Carregar…
― Não precisa olhar, se não quiser. ― Eu disse baixinho em seu ouvido.
― Eu preciso. Por ele. ― Ele respondeu.
― Fogo!
Não teve jeito. Foram necessários três e apenas três tiros para fazê-lo chorar. Ele desistiu de olhar e, ao invés disso, afundou a cabeça no meu ombro e passou os braços pelo meu corpo, procurando um abraço.
― Carregar…
― Está tudo bem. ― Eu disse para ele. ― Está tudo bem…
― Fogo!
― Não… não… ― Ele dizia entre soluços e lágrimas.
Olhei para o Rafa, que estava a alguns metros de distância da gente. Ele vestia preto, assim como todos daqui, exceto os militares, que trajavam o fardamento apropriado. Rafael exibia um semblante preocupado.
― Carregar…
Ainda não tínhamos conversado apropriadamente. Ele tinha me visto, me cumprimentado, mas tomar conta do Arthur estava sendo mais difícil do que eu pensava, então acabamos não conversando muito. Mas, fazer o que… era o que tínhamos para agora. Ele tinha que lidar com isso… da mesma forma com que eu estava lidando com meus próprios demônios. Não estava sendo fácil para ninguém.
― Fogo!
Eu, particularmente, não sabia o que era pior: O barulho dos tiros em homenagem ao falecido pai do Arthur, ou a música fúnebre de fundo, tocada ao som do mais melancólico timbre que uma gaita de fole era capaz de produzir.
― Carregar…
Deviam ter umas trinta ou quarenta pessoas aqui. Metade delas eram militares. Pela quantidade de medalhas no peito, eu diria que alguns eram mais importantes que outros, mas o desinteresse dos presentes desvalorizava com indiferença qualquer patente. A outra metade das pessoas era composta por familiares de Arthur.
― Fogo!
Minha mãe, seu Humberto e os pais do Rafa também estavam aqui. Assim como alguns amigos da escola, Giovanna, por exemplo.
― Carregar…
Era manhã, porém o sol estava encoberto por nuvens que deixavam o dia ainda mais triste. Garoava. Uma chuva fina e quase que imperceptível molhava os mais atentos. E agora, além do cheiro de terra molhada, nossos olfatos davam boas-vindas para o peculiar e, para alguns agradável, cheiro de pólvora.
― Fogo!
Pronto. Este era o último. Seja por bem ou por mal, a cerimônia estava chegando ao fim. Aos poucos os familiares foram formando uma fila para jogar alguma lembrancinha naquele
― ―
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buraco que, dentro de alguns instantes, seria selado para todo o sempre. A maioria presenteava o falecido Major Lopes com simples flores, mas Arthur segurava uma fotografia nas mãos. Aquela mesma fotografia que ele me mostrara ontem.
― Tenho outra igual, acho que vou dar essa para ele. ― Ele me dissera mais cedo neste mesmo dia.
Era uma fotografia de seus pais com o bebê Arthur no colo, com seus quatro ou cinco anos de idade. Arthur pretendia presentear seu pai com essa foto. Ele se separou de mim, se aproximou de onde o caixão estava e simplesmente deixou que aquele pedacinho de papel caísse lá dentro.
― Adeus, pai… ― ele disse para si mesmo. ― Adeus…
Em seguida, ele fechou os olhos, juntou as mãos, abaixou a cabeça e ficou em silêncio. Eu sabia que ele precisava de um tempo para se despedir a sós. Aproveitei o momento para procurar o Rafa. Ele não estava longe. Me aproximei dele e ele veio ao meu encontro.
― Como ele está? ― Ele perguntou se referindo ao Arthur.
Eu olhei em direção ao Arthur, que continuava na mesma posição e disse:
― Não muito bem…
― E quanto a você? ― Ele perguntou.
* * *
― É difícil não reparar. ― Arthur disse um tanto quanto desapontado.
Levantei minha mão e deixei que o anel prateado que circulava meu dedo entrasse em contraste com o céu, que agora ia se cobrindo de nuvens aos poucos por causa das oscilações mornas do verão. Ainda estávamos deitados na grama. Naquela mesma posição. Com nossas cabeças sobre a grama e com nossos corpos sob um luar que cada vez mais se tornava mais roxo.
― Eu sei… ― eu respondi.
― Devo assumir que com isso as coisas mudaram um pouco, não é? ― Ele disse se referindo a minha aliança.
Eu olhei para ele, sem saber o que responder. De fato, as coisas tinham mudado e tinham mudado muito. A minha relação com o Rafa estava mais séria que nunca… mas eu não tinha coragem de dizer isso para ele. Eu não queria dizer porque sabia que isso o magoaria. Ou, pelo menos, era isso que eu dizia para mim mesmo. Talvez, lá no fundo, eu só não queria dizer que as coisas tinham mudado porque simplesmente eu não queria acreditar que elas tivessem mudado.
― Não sei… ― foi o que consegui responder.
Abaixei minha mão e voltei a olhar para ele.
― O que eu faço? ― Perguntei mais confuso do que jamais estivera.
Ele fitou minha boca, pensou por um segundo e, em seguida, voltou o olhar para mim.
― Fica comigo. ― Ele pediu.
Pelo seu tom de voz, pude perceber o quão difícil tinha sido para ele dizer isso em voz alta. Nessa hora, meu peito se apertou e o ar fugiu dos meus pulmões. Como dizer não para ele? Porque recusar era tão difícil? Olhei para o céu púrpura e fechei meus olhos.
― Não posso. ― Respondi com dor no coração.
Senti meu sangue se esquentar enquanto meu coração batia mais forte. Eu só queria que isso tudo acabasse antes que eu cedesse. Ceder era cometer ao mesmo tempo o melhor e o pior erro da minha vida. E, acredite, eu queria muito ceder.
― Por favor. ― Ele pediu.
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Nessa hora, apertei ainda mais meus olhos, para evitar, inutilmente, que uma lágrima atrevida fugisse dos meus olhos. O meu eu racional sabia que ficar com ele nesse estado de confusão mental não seria saudável. Seria bom, mas seria errado. Seria deliciosamente errado. Mas não seria nenhum pouco saudável. Nem para mim, nem para ele. Nós dois estávamos confusos. Nós dois estávamos perdidos e queríamos todo o conforto que o outro podia dar.
Foi quando ele disse algo que me atingiu como uma descarga elétrica:
― Não precisa ser agora…
Imediatamente, olhei para ele incrédulo. Eu não estava acreditando no que ele acabara de propor. E, ao testemunhar minha reação, ele percebeu que tinha conseguido me atingir em cheio.
É isso mesmo que você está ouvindo. Arthur tinha acabado de me pedir para ficar com ele, mas não agora, e sim num futuro. Não era como se ele estivesse me pedindo para trair o Rafa. Ele não estava me pedindo para agir por trás das costas do Gatinho e ficar com ele. Ele estava me pedindo algo muito mais sério. Ele estava me pedindo para ficar com ele quando o Gatinho já não estivesse mais no nosso caminho. Insinuando, indiretamente, que a minha relação com o Rafa estivesse condenada a ter um fim. Um fim que só dependia de mim. Um fim que bastava eu querer para fazê-lo acontecer.
Nessa hora, imaginei (involuntariamente) possíveis fins para o meu relacionamento com o Rafa. Não que eu fosse executá-los, mas eles cruzaram minha cabeça mesmo assim. A primeira coisa é que eu pensei é que não precisaria ser triste, muito menos dramático. E nem doloroso. Talvez apenas cansaríamos um do outro. Talvez ele fizesse alguma coisa que me deixasse magoado. Talvez eu fizesse alguma coisa que deixasse ele magoado. Talvez os outros interesses da vida, não necessariamente relacionados com o nosso namoro, entrassem no caminho no final das contas.
Mas o que é que eu estava pensando? Terminar com o Rafa? Como isso era possível? Eu amava ele. Depois de tudo? Depois de tudo que ele me fizera? Depois de tudo que ele me ensinara? Eu me tornei uma pessoa muito melhor com ele. Ele era a pessoa que eu mais amava no mundo. Admirar sua personalidade única me deixava em êxtase, em transe. Nessa hora, me lembrei da sensação de olhar para ele, de tocar nele, de sentir sua pele, de sentir seu gosto, seu beijo, seu hálito, seu calor. O que é que eu estava fazendo? Onde é que eu estava com a cabeça?
Cheguei à conclusão de que Arthur era terrivelmente assustador. Ele conseguiu me destruir com apenas algumas palavras. Ele conseguiu me colocar em uma posição de me questionar sobre tudo que eu acreditava. Ele conseguiu me fazer duvidar do amor que eu sentia pelo Rafa. Ele conseguiu me fazer duvidar do amor que eu sentia por ele. Estar com ele era ao mesmo tempo insaciavelmente bom e inquestionavelmente perigoso. Cada segundo que seus olhos passavam em contato com os meus, me deixava ainda mais apaixonado por ele. E, mesmo sabendo disso, eu não conseguia parar de olhar para ele, incrédulo.
― Desculpa… ― ele disse em seguida. ― Eu queria que fosse diferente.
A vontade de dizer ‘eu te amo’ ardia em minha garganta mais uma vez, mas…
― Eu também… ― foi a única coisa que eu consegui falar.
Fez-se silêncio por um instante. Nem o vento se atrevia a sussurrar em nossos ouvidos. Vento que se intensificava cada vez mais e parecia trazer consigo uma tempestade.
Continuamos deitados na grama, lado a lado, esperando o nada acontecer. Apenas experimentando o passar dos segundos. Cada um com seus próprios pensamentos, cada um com suas próprias opiniões, mas dividindo um sentimento de inquietação, dúvida, confusão e dor. Fechei meus olhos e deixei que meus pensamentos conversassem entre si.
― Conversa comigo. ― Ele pediu em voz alta. ― Por favor.
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Eu demorei um pouco para pensar em alguma coisa para falar pra ele. Minha cabeça só conseguia pensar no que ele me dissera mais cedo. “Eu te amo”.
― Erm… terminou de ler aquele livro que você estava lendo? ― Perguntei tentando mudar o assunto.
― Quase… ― ele respondeu aliviado por isso. ― Estou numa parte muito boa agora…
― Eu imagino… ― respondi.
Continuamos em silêncio por um momento. Arrumar assunto era mais difícil do que parecia.
Foi quando senti uma gota de água atingir minha testa. Abri meus olhos e contemplei o céu completamente encoberto. Nesta hora, barulhos de trovões ecoaram pela atmosfera, anunciando que uma chuva estava prestes a cair. Senti mais dois pingos de chuva pousarem sobre meu corpo.
― Lucas… ― ele me chamou.
― Oi…?
― A gente vai continuar sendo amigo, né?
Me senti mal só por ele estar perguntando isso.
― Claro… ― tentei responder simpaticamente. ― É o que eu mais quero nesse mundo.
Ele pareceu acreditar, mas acabou perguntando para ter certeza:
― Eu digo… nada mudou entre a gente, né?
― Eu nunca deixaria nossa amizade acabar, Arthur…
― Obrigado… ― ele respondeu aliviado.
Mais algumas gotas começaram a cair e trazer consigo um nostálgico cheiro de terra molhada. Eu até queria me levantar e ir embora para me proteger da chuva, mas ficar deitado com ele estava tão bom que não seriam algumas gotinhas insignificantes de água que me fariam levantar.
Mas, pouco a pouco, essas gotinhas de água foram se transformando em uma chuva fina, que foi logo se engrossando. E, do nada, água começou a despencar do céu.
Levantei correndo e disse:
― Ah, droga! Vamos entrar!
Ele também se levantou, mas ao invés de correr em direção a porta, como eu estava fazendo, ele apenas ficou parado. Imóvel. Eu olhei para ele e ele olhou para mim.
― O que você está fazendo!? Vem logo! ― Eu o chamei.
Mas, ao invés de me ouvir, ele começou a rir. Sim. Ele riu. E riu muito. E riu alto. Se extravasou. Daí ele abriu os braços, fechou os olhos, inclinou a cabeça para trás e deixou que a chuva o molhasse, como se estivesse se divertindo com isso. Eu, sem saber bem o que fazer, entrei na onda dele e deixei de me importar com os pingos de chuva. E, instantes depois, eu já estava todo molhado. Caminhei em direção a ele, que continuava a rir e comecei a rir também.
― Do que você está rindo!? ― Perguntei curioso.
Ele se aproximou e disse:
― Fazia muito tempo que eu não tomava um banho de chuva… isso me faz lembrar que estou vivo…
― É… vamos torcer para que isso não nos renda um resfriado. ― Tentei ser lógico.
― Sim… ― ele disse e riu ainda mais alto.
― Qual a graça!? ― Perguntei mais uma vez.
Foi quando ele se aproximou ainda mais e botou suas duas mãos na minha cintura. Nessa hora, meu coração disparou. Eu sabia o que ele queria fazer. E eu congelei. Parei no tempo. Não sabia o que pensar. Não sabia como agir.
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Ele foi me puxando para perto com suas mãos e elas foram se deslizando para minhas costas lentamente. E eu deixei a coisa acontecer. Sendo bem sincero, parte de mim queria que acontecesse.
Tanto a minha respiração, quanto a sua, foram ficando ofegantes. E nossos rostos foram se aproximando cada vez mais. Quando nossas bocas estavam devidamente alinhadas, nós dois fechamos os olhos ao mesmo tempo e, finalmente, sem pensar em absolutamente nenhuma consequência, encostamos nossos lábios um no outro.
Sua boca era macia e estava com um gosto diferente desde a última vez que eu a provara. Parecia que agora estava melhor, talvez fosse o redemoinho de emoções que me devastava por dentro. Na hora eu não pensei em muita coisa… só que estava extremamente agradecido por estar beijando ele. Fazia muito tempo que eu não me sentia nesse estado de êxtase e euforia. Eu lembro que me senti assim nas primeiras vezes em que beijara o Rafa. Eu sabia que esse era um tipo de sentimento que se sentia pouquíssimas vezes na vida. Algumas pessoas morriam sem nunca o experimentar. Meu coração estava disparado e minhas mãos tremiam. A única coisa que eu conseguia pensar era que isso estava acontecendo. Isso estava acontecendo. Era agora. Nesse exato momento. Estava acontecendo. Era comigo.
Nossos corpos se aproximaram mais um pouco e eu devolvi o abraço, passando minhas mãos pelo seu corpo. A timidez foi dando espaço para o prazer e, num movimento ousado, sua língua invadiu minha boca. Sua boca era quente e úmida e seus lábios eram macios e deliciosos. A chuva nos banhava sem delicadeza e o frio que trazia consigo era incapaz de penetrar nossos corpos. Eu sentia meu sangue ferver, assim como o dele.
Sua testa molhada encostou na minha e eu pude sentir seus cabelos molhados em contato com os meus. Cada vez que ele exalava seu hálito em mim, uma onda de orgasmo existencial preenchia o vazio da minha mente. Eu amava existir, seja lá o que isso significasse. Eu estava completamente bêbado de paixão.
Nosso beijo estava temperado de emoções e isso fazia tudo ser diferente. Eu não estava com tesão no começo, mas foi só ele enfiar uma mão por debaixo da minha blusa que sua pele macia me despertou inúmeras sensações. Sua língua invadiu minha boca e eu a chupei. Eu percebi que ele gostou, porque, quando fiz isso, ele me agarrou com mais força. Meu pinto foi ganhando vida dentro da minha cueca e eu tentei disfarçar, afastando um pouco minha cintura.
Ele percebeu que eu me afastei um pouco e, para minha enorme surpresa, ele me agarrou pela bunda e me puxou para perto novamente, me dando uma baita de uma encoxada. E, se eu não queria que ele percebesse que eu estava duro, bem… agora não tinha como disfarçar. Ele sabia que eu estava duro tanto quanto eu sabia que ele também estava. Ele se empolgou com isso e enfiou sua língua um pouco mais fundo na minha boca. Eu retribuí o carinho agarrando seus cabelos e forçando sua cabeça contra a minha. Com sua mão que estava dentro da minha camiseta, ele me deu uma pegada nas costas e me apertou deliciosamente. Isso me custou um arrepio.
Dessa vez foi minha vez de meter a língua em sua boca e explorar livremente seu gosto viciante. Giramos nossas cabeças e esfregamos nossos lábios no processo. O barulho de beijo ecoou pelo ar. Meu coração parecia que ia explodir, assim como o dele. Nossas respirações estavam descontroladas e a euforia não parava de crescer.
E, novamente, para minha enorme surpresa, senti ele meter a mão entre as minhas pernas e agarrar meu brinquedinho duro.
― Eu achei que seria legal usarmos aliança por dois motivos: O primeiro é que ela simboliza a fidelidade e a lealdade que poderíamos ter um com o outro daqui pra frente… o que acha?
A lembrança da voz do Rafael ecoou pela minha cabeça.
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― Você quer dizer… nada de ficarmos com outros meninos? Concordo plenamente… ― foi a resposta que eu lhe dei aquele dia.
― Arthur! ― Eu gritei enquanto me separava dele.
Ele, assustado com minha reação, imediatamente retirou a mão do meu pinto.
― Desculpa! ― Ele se desculpou por isso. ― Desculpa! Lucas! Desculpa! Eu não achei que…
Nessa hora, me afastei dele e fechei os olhos. Passei a mão sobre meu rosto e, em seguida, sobre meus cabelos, para colocá-los para trás. Pensei um pouquinho a respeito do que acabara de acontecer. Essa não. Eu cedi.
― Lucas… ― ele me chamou mais uma vez.
― Eu não posso, Arthur… me desculpe… ― eu disse enquanto a instabilidade tomava conta da minha consciência.
― Foi mal… ― ele se desculpou mais uma vez.
― Não foi culpa sua… eu só… droga…
― Desculpa… ― ele pediu mais uma vez.
Acontece que, eu estava amando minha vida com o Rafa. Não era justo fazer isso com ele. Eu sei que o que tinha acabado de acontecer era errado. Era errado para mim, para o Arthur e para o Rafa. Com certeza isso não seria saudável para ninguém.
Agora que minha lucidez estava voltando, eu estava começando a perceber que o meu maior erro não tinha sido trair o Rafa, mas sim ter alimentado a paixão de Arthur com esse beijo. Eu me sentia um idiota. Eu estava completamente arrependido. O beijo tinha sido bom. Tinha sido ótimo na verdade, mas ele com certeza me custaria caro. Ô se custaria…
Olhei ele nos olhos e disse:
― Eu amo o Rafa, Arthur… me desculpa.
― Eu sei… ― ele respondeu triste.
― Eu gosto muito de você, mas isso não pode acontecer. Isso não pode se repetir…
― Eu sei!
― Eu queria muito que fosse diferente! ― Eu exclamei. ― Você sabe disso!
― Mas pode ser! Você não enxerga isso!? ― Ele tentou me convencer.
― Eu sei disso. Mas o que eu estou tendo com o Rafa é… não consigo descrever com palavras… eu amo ele… estamos super bem juntos… as coisas andam bem pra gente… e eu não quero que elas mudem… eu não quero perder o que eu tenho com o Rafa… eu também gosto de você… muito! Mas o que temos é diferente. Eu te amo de um jeito diferente. E você precisa entender isso, caso contrário vai acabar se machucando muito. Muito mesmo. E eu não quero que isso aconteça.
Nessa hora, seus lábios começaram a tremer e seus olhos começaram a encher de água.
― Eu sei… ― ele respondeu amuado.
― Me desculpa, mas não podemos ficar juntos… não agora…
― Eu sei… me desculpa…
― Eu sei que você está passando por um momento difícil… e eu tô aqui pra te ajudar… mas eu só posso te ajudar com o que é possível… e, repito, não quero que você se machuque…
Nessa hora, ele começou a chorar.
― Vem cá… ― eu disse e ofereci um abraço.
Ele veio até mim e eu o abracei. Envolvi meus braços sobre seu corpo enquanto ele afundava a cabeça no meu ombro. A chuva continuava a cair e redundantemente nos molhar. O garoto chorou horrores.
― Arthur… ― eu o chamei. ― Vamos entrar… o que você acha? Senão vamos acabar pegando um resfriado aqui fora…
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― Pode ser… ― ele gemeu manhosamente.
Nosso abraço terminou, ele tentou inutilmente limpar os olhos e então tomou a frente para entrarmos dentro de casa. Andamos pelos corredores pingando água. Até perguntei para ele se não tinha problema, mas ele disse que não, que logo secaria. Chegamos na porta de seu quarto e eu sugeri:
― Acho melhor tomarmos um banho…
Ele me olhou esquisito.
― Pode ir primeiro. ― Eu disse gentilmente.
― Ah, sim… ― ele respondeu sem graça. ― Tem dois banheiros… você pode usar o outro, se quiser… ― ele ofereceu.
― Valeu… ― eu agradeci.
― Você quer uma roupa emprestada? ― Ele perguntou.
― Não… eu trouxe de casa… ― eu disse e apontei para minha mochila.
― Ah… tudo bem então… ― ele disse um pouco sem graça.
― Tá… a gente se vê daqui a pouco… então… eu acho… ― eu disse um pouco constrangido também.
― É… acho que sim…
― Beleza… ― eu respondi.
― Então tá… ― ele respondeu. ― Eu acho que eu vou… ― ele disse e coçou a cabeça.
― Tá… ― eu concordei.
― Certo…
Daí eu me virei para ir embora. Foi quando eu me toquei de que tinha esquecido uma coisa.
― Arthur… ― eu o chamei.
Ele se virou imediatamente para mim.
― Oi!?
― Onde é o banheiro? ― Eu perguntei.
― Ah… sim… claro…
Daí ele ficou me olhando distraído e não respondeu.
― Arthur? ― Eu o chamei.
― Ah… é aquela porta… ― ele finalmente apontou.
― Valeu… ― eu disse e me despedi.
Saí da porta do quarto dele e caminhei em direção a esse outro banheiro. Entrei, tranquei a porta, encostei minhas costas nela e fui escorregando até cair sentado no chão. Essa não…
O que é que eu tinha feito!? Por que eu tinha feito isso, cara!? Me diz! Uma magoa foi me subindo pela garganta e trouxe consigo uma explosão de sentimentos. Quando vi, eu já estava chorando.
A única coisa que eu queria fazer era ir embora e me enfiar debaixo de um buraco para sempre. Eu estava muito confuso. Eu não sabia mais o que fazer. Eu amava o Rafa. Eu amava o Arthur. Queria ficar com os dois. Mas, infelizmente, isso não era possível. Eu amava minha relação com o Rafa. Eu amava passar tempo com ele. Eu amava o sexo. Nossa… o sexo era ótimo. Eu amava sua companhia. Eu amava o amigo que ele era para mim. Mas Arthur… com Arthur tudo isso era diferente… nenhum era melhor que o outro… nenhum era pior que o outro… eles tinham seus jeitos peculiares de ser. E o pior de tudo é que o amigo a quem eu costumava pedir conselhos a respeito desse tipo de coisa era ninguém mais, ninguém menos que Arthur. Então, por causa disso, o conselho que eu precisava agora não era ele quem poderia me dar. Eu estava sozinho nessa. Divido entre meus dois melhores amigos.
― ―
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Sim, eu queria ir embora. Eu sei que Arthur estava passando por dificuldades, mas estava difícil ficar aqui. Cada segundo que passava parecia demorar séculos. Eu não aguentava mais, mas eu não podia ir embora. Eu estava preso aqui com ele. Até amanhã. A melhor coisa que nos poderia acontecer seria se pegássemos no sono. Porque isso faria com que a noite passasse rapinho. Talvez devêssemos dormir… talvez fosse exatamente isso. Dormir era bom! Dormir era ótimo! Dormir era a melhor saída. Seria a melhor forma de passar o tempo sem ter que agonizar existindo.
Após achar essa solução interina, criei coragem e fui tomar um banho. Só quando retirei completamente a roupa e entrei debaixo do chuveiro de água quente, que percebi o quão frio estava. As roupas molhadas tinham abaixado minha temperatura e eu estava literalmente tremendo de frio. Deixei que o vapor inundasse o banheiro enquanto meu corpo experimentava os poderes relaxantes de um banho quente. Aproveitei esse momento para reatar meu controle e reorganizar minhas emoções. Parei de chorar, lavei meu rosto e suei meu nariz o quanto pude.
Terminei meu banho e desliguei o chuveiro para me secar. Bom… era hora de encarar a realidade… era hora de olhar nos olhos de Arthur novamente…
Já trocado, saí do banheiro e caminhei em direção ao quarto dele. A porta estava aberta. Olhei para os lados antes de entrar e, assim que entrei, encontrei ele sentado em sua cama, mexendo em seu celular. Parei em frente a porta e o saudei.
― Oi… ― eu disse timidamente.
― E aí… ― ele respondeu enquanto guardava o celular.
Entrei em seu quarto, fechei a porta e caminhei até sua cama, em que eu me sentei para fazer companhia para ele.
― E agora? ― Ele perguntou.
― E agora que… sei lá… ― eu respondi sem saber muito bem o que dizer.
― Estamos bem? ― Ele perguntou.
― Depende… ― eu respondi. ― Você está bem?
― Acho que sim… ― ele disse sem se esforçar para fazer parecer ser verdade.
― Se você está bem, eu estou bem…
― Então estamos bem? ― Ele perguntou mais uma vez.
― Se você quiser… ― eu disse dando de ombros.
― Eu quero… ― ele afirmou.
― Então estamos bem… ― eu respondi.
Ficamos em silêncio por um instante.
― Quer falar sobre o que aconteceu? ― Eu perguntei.
― Preciso? ― Ele perguntou fazendo uma cara de dor.
― Se você quiser…
― Não sei o que dizer… ― ele explicou.
― Pode dizer qualquer coisa… ― eu pedi.
Ele fez que sim com a cabeça e pensou um pouco.
― Acho que eu me perdi um pouco… ― ele começou dizendo.
― Se perdeu? Como assim? ― Eu perguntei.
― Se eu fosse chutar um dia em que tudo começou, acho que eu diria que foi naquela partida de xadrez…
― Foi você quem quiser jogar aquilo… ― eu me defendi e ele riu.
― É que… até então eu estava bem tranquilo comigo mesmo… ― ele explicou. ― Eu estava ficando apaixonado pela Gi… e isso é verdade…
― E eu acredito… ― eu disse e botei minha mão no ombro dele.
― Pois é… daí… aquilo meio que aconteceu…
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― Aquilo o que? ― Eu perguntei. ― O beijo? Naquele dia?
― Sim… ― ele respondeu.
― Ou o sexo?
Quando eu disse isso, ele me olhou um pouco constrangido. Talvez por essa palavra não estar totalmente inserida em seu vocabulário ainda.
― Também… ― ele respondeu timidamente.
― Ei… não precisa ficar com vergonha… não é como se você tivesse feito nada de errado… ― tentei acalmá-lo. ― Você se mostrou pra gente tanto quanto a gente se mostrou pra você… e daí? Não tem nada ver… a vida que segue… não esquenta com isso… e nem precisa ficar com vergonha. Podemos falar a respeito sempre que você quiser.
― É… eu sei… ― ele disse olhando para baixo.
― Certo… então continua… ― eu o encorajei.
― Depois que a gente ficou… eu meio que… me desapeguei de tudo que acreditava… sei lá… tipo… de preconceito e tal… foi estranho…
― Hmm… ― eu disse. ― Acho que estou conseguindo entender…
― É… até então meu lance era com meninas, como eu já tinha te falado…
― Eu sei… ― eu disse simpaticamente.
― Mas… naquele dia… eu meio que me permiti gostar do que estava acontece… porque… eu confesso que foi muito bom…
― Eu ficaria surpreso se não tivesse sido… ― eu disse rindo.
― Pois é… ― ele concordou. ― E foi exatamente isso que aconteceu… essa foi a palavra… eu meio que me permiti gostar de você… mais do que devia…
― Ah… ― eu disse querendo ver aonde ele queria chegar.
― E… no dia seguinte eu não conseguia parar de pensar no que tinha acontecido… e nem dois dias depois… e a semana passou e eu não conseguia… eu não conseguia… desculpa, eu vou ter que falar isso… eu não conseguia tirar aquilo da cabeça… eu não conseguia te tirar da cabeça…
― Está tudo bem, Arthur… ― eu tentei acalmá-lo passando a mão em suas costas.
― Não é que eu não conseguia tirar você, Lucas, da cabeça. É mais o que você significou pra mim naquela hora… naquele momento… eu meio que estava gostando do que estava acontecendo… e o fato de saber que era reciproco… que você também gostava de mim… sei lá… mexeu muito comigo… desculpa…
― Eu entendo… e foi recíproco mesmo… ― eu concordei.
― Daí… depois… depois teve aquele lance com a Giovanna… que ela me deu um fora… e, sendo bem sincero com você, eu jurava que eu e ela ficaríamos juntos… e… desculpa por falar isso, mas… não que seja culpa sua, nem do Rafael, mas… eu achei que fosse dar certo com ela por causa de vocês… vocês dois tem uma relação de dar inveja… e eu achei que isso fosse acontecer na minha vida também… com ela… mas não foi o que aconteceu…
― Eu entendo, Arthur… mas ei, eu e o Rafa não temos uma relação perfeita, longe disso… ― eu disse rindo e lembrando das minhas brigas com o Rafa.
― É sério, Lucas… é bem perceptível a amizade que vocês dois têm… para qualquer um que vê vocês de fora… vocês são perfeitos um para o outro… e eu achei que eu e a Gi formaríamos um casal assim também… mas o mundo não é perfeito… e acontece que nós dois não temos a mesma sorte. E isso que me deixou bastante pra baixo esses dias…
― Nossa, Arthur… me desculpa… eu não tinha ideia… ― eu disse sentido com o desabafo dele.
― É… daí eu meio que me imaginava com ela… numa relação tão perfeita quanto a de vocês… o problema é que… sendo bem sincero… eu e ela somos muito diferentes… nem éramos
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amigos… o que eu procurava nela era diferente do que o que você e o Rafa procuram um no outro… de uns tempos pra cá eu venho me imaginando numa relação onde o que mais pesa é a amizade e não o… o… ah, você sabe… o…
― O sexo? ― Eu perguntei.
― Isso. ― Ele respondeu. ― Ainda é difícil pra mim dizer isso em voz alta…
― Eu imagino… ― eu ri da fofura e inocência dele.
― E… eu meio que me imaginei numa relação onde a amizade era mais importante… e… isso somado àquele nosso beijo… e… somado ao fato de que meu preconceito em ficar com outros meninos tinha diminuído consideravelmente depois daquilo… eu meio que… imaginei como seria legal se nós dois…
Eu estava literalmente sem palavras…
― Desculpa… ― ele disse. ― Acho que imaginei mais do que devia…
― Nossa… isso foi uma das coisas mais legais que eu já ouvi! ― Apesar de eu estar tentando botar ele para cima, isso tinha sido bem sincero da minha parte.
― Pois é… ― ele disse timidamente.
― Estou falando sério… estou muito feliz por você ter me contado isso! ― Eu disse e dei um abraço nele.
― É… ― ele disse sem saber o que dizer.
Ele me abraçou de volta e ficamos assim por alguns segundos. Daí foi a minha vez de falar.
― Olha, Arthur… eu também, como você sabe, gosto muito de você… mais do que devia… se é que você me entende…
Nessa hora, ele ficou um pouco vermelho.
― Minha relação com o Rafa não é perfeita… longe disso… passamos por muitas dificuldades juntos… e eu acho que é por isso que somos tão próximos… e isso não tem nada a ver com o fato de sermos dois meninos… ou com o fato de termos sido amigos antes de começarmos a namorar… ou com o fato de eu ser o Lucas e ele o Rafa. Não fomos sortudos… um pouco, talvez… mas, se a nossa relação é o que ela é hoje, foi porque nós dois demos duro nela…
Ele continuou me ouvindo em silêncio.
― Tudo começou muito devagar pra gente… demorei meses pra me declarar pra ele… sem saber se ele ia aceitar ou não… sem saber se isso ia acabar com nossa amizade ou não… eu tive que arriscar… o segredo foi ser paciente e esperar pelo melhor momento… acontece que… eu estava disposto a ser amigo dele e ele também estava disposto a ser meu amigo… o interesse era mútuo… e, graças a isso, a coisa cresceu naturalmente…
― Entendo… ― ele disse me ouvindo com calma.
― Depois que começamos a ficar… muita coisa aconteceu… a escola descobriu… nossos pais descobriram… tudo isso aconteceu… os traumas foram bem pesados. A partir daí, eu passei a temer o sofrimento dele, assim como ele teme o meu… isso nos uniu… mas foi muito difícil superar tudo isso… principalmente no começo.
― Eu imagino… ― ele disse empaticamente.
― O que eu quero dizer é que… foi muito difícil construir isso… e eu estou gostando muito da nossa relação do jeito que ela caminha… é por isso que eu não estou disposto a arriscar perdê-la. Eu gostei muito de te beijar. Tanto hoje, quanto aquele dia. Mas isso não pode se repetir. E você tem que me prometer não contar nada pra ele. ― Eu pedi.
― Credo, Lucas! É claro que eu não contaria nada para ele.
― Me promete? ― Pedi.
― Prometo! Lógico! Por que eu faria isso? ― Ele perguntou.
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― Eu não acho que você faria… ― eu disse. ― Mas vamos fingir que não aconteceu, pode ser? ― Eu pedi.
― Claro… como quiser. ― Ele respondeu.
― Obrigado. ― Agradeci.
― Sem problemas… ― ele disse.
― Então, é isso… ― eu disse. ― É assim que eu me sinto… apenas saiba que não tem nada de errado com você… a gente não pode ficar junto por que eu já estou compromissado. Mas apenas por isso. Eu tenho certeza que, na hora certa, você vai achar alguém ideal pra você. E vai poder namorar o quanto quiser… e essa pessoa vai gostar tanto de você quanto você vai gostar dela… sendo um menino ou uma menina…
Ele sorriu com este meu último comentário.
― Valeu… ― ele agradeceu.
― Quer falar sobre mais alguma coisa? ― Perguntei.
― Não… ― ele respondeu. ― Na verdade, não…
― Você está bem? ― Perguntei.
― Acho que agora estou…
― E que tal dormirmos um pouco? ― Sugeri.
― Pode ser, eu acho… ― ele aceitou.
Ele tinha dormido a tarde toda, eu estava acordado desde o voo. Eu estava exausto. Desde a viagem, eu não tinha dormido nadinha. Não tinha tido tempo nem pra respirar. Tinha sido uma catástrofe atrás da outra, mas pelo menos agora eu teria um pouco de paz.
Depois dessa nossa conversa, nos abraçamos mais uma vez e finalmente fomos dormir. Ele dormiu em sua cama e eu dormi num colchão que sua mãe tinha preparado para mim.
Sem muita cerimônia, na manhã seguinte acordamos bem, vestimos o maldito preto e fomos para o velório. E a história se segue daí.
* * *
― Adeus, pai… ― ele disse para si mesmo. ― Adeus…
Em seguida, ele fechou os olhos, juntou as mãos, abaixou a cabeça e ficou em silêncio. Eu sabia que ele precisava de um tempo para se despedir a sós. Aproveitei o momento para procurar o Rafa. Ele não estava longe. Me aproximei dele e ele veio ao meu encontro.
― Como ele está? ― Ele perguntou se referindo ao Arthur.
Eu olhei em direção ao Arthur, que continuava na mesma posição e disse:
― Não muito bem…
― E quanto a você? ― Ele perguntou.
― Mais ou menos… ― eu disse. ― Foi uma noite difícil…
― Eu imagino… ― ele disse.
Olhei para o Rafa, mas o fato de eu ter beijado Arthur na noite anterior me causou uma inquietação que me fez ficar incomodado só de olhar para ele. Por que olhar nos olhos dele era tão difícil agora que eu escondia uma coisa?
― Que foi? ― Ele perguntou.
Eu chacoalhei a cabeça e tentei pensar em gatinhos fofinhos.
― É estranho… ― eu disse. ― Você está com uma pessoa, e de repente… puft… sabe que nunca mais vai vê-la novamente.
Rafa olhou em direção ao caixão e observou Arthur.
― Tadinho… ele deve estar sofrendo muito… como foi a noite de vocês? ― Ele perguntou.
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Olhei ele nos olhos e o sentimento de inquietação voltou a tomar conta do meu corpo. Eu queria contar sobre Arthur para alguém. Eu precisava desabafar e tirar essa agonia do meu peito. Mas não podia. Muito menos para Rafa. Esse era o tipo de segredo que, querendo ou não, ia morrer comigo.
― Ele chorou… bastante… ― eu disse. ― Eu chorei um pouco, também… ― eu acrescentei e um soluço subiu até minha garganta.
― Ah… fica assim não… ― Rafa disse e me ofereceu um abraço.
Eu fui até ele e passei minhas duas mãos sobre seu corpo. Ele me abraçou de volta. E, só de sentir o calor e o conforto de seu abraço, me deu vontade de chorar. Mas não chorei. Não seriam lágrimas que resolveriam meus problemas.
Cara… como isso era difícil… saber que eu tinha agido pelas costas dele… saber que Arthur me amava, que eu amava ele e que não podíamos ficar juntos… saber que Arthur tinha acabado de perder o pai… saber que ele devia estar se sentindo completamente sozinho e perdido no mundo… era demais… era muita coisa pra cabeça… porque o mundo tinha que ser tão cruel? Rafa entendeu que eu devia estar passando por muita coisa… ele só não sabia o quanto era essa muita coisa.
― Gatinho… ― eu disse com a cara enfiada em seu peito.
― Oi? ― Ele perguntou.
― Promete que nunca vai me deixar… ― pedi.
― Que papo é esse? ― Ele perguntou. ― Aconteceu alguma coisa?
― Minha vida tá uma bagunça… ― eu disse e choraminguei.
― A de alguém não tá? ― Ele respondeu.
― A adolescência é uma droga… ― eu resmunguei.
― Nem me fale… queria voltar a ter cinco anos… ― ele disse rindo.
― Queria voltar a não existir… ― eu disse de forma pessimista.
― Ei… qual é! ― Ele tentou me consolar. ― Se você não existisse, a vida ia ser tão mais sem graça…
― Não pra mim… ― eu disse rindo sem graça.
Ele me abraçou mais forte e me deu um beijo na cabeça.
― Não diz isso… ― ele me consolou.
― Odeio velórios. ― Eu concluí.
― Alguém não odeia? ― Ele perguntou.
― O morto. ― Eu respondi e ele riu.
― Deixa de besteira, meu Gatinho… ― ele respondeu.
Alguns segundos depois, Rafa disse:
― Olha o Arthur vindo aí!
Nessa hora, meu coração gelou. Algo no fato de eu não querer esses dois conversando. Me soltei do abraço com o Rafa o mais rápido possível e voltei a olhar para frente. Arthur estava vindo em nossa direção.
― Oi… ― Arthur nos saudou.
Nessa hora, senti o fôlego sumir dos meus pulmões. Rafa foi até ele e estendeu os braços.
― Sinto muito, cara…
Daí ele deu um abraço em Arthur. Eu ainda estava gelado. E se Arthur tivesse vindo aqui para contar sobre nosso beijo para o Rafa?
― Valeu… ― Arthur agradeceu os pêsames.
Sua serenidade me acalmou. Arthur estava calmo e triste… ele não estava com a atitude de quem estava prestes a tirar satisfações com o Rafa. Isso me acalmou. Esse lance dele contar
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talvez fosse apenas paranoia minha. Arthur era meu amigo. Ele não ia fazer isso. Ele tinha me prometido que não ia contar. Mas e se ele contasse? Como eu reagiria? Eu deveria mentir? Eu deveria me passar por inocente? O Rafa ia acreditar em quem? Muitas perguntas saturavam minha cabeça, mas tentei me acalmar e crer que, no final, tudo daria certo.
― Como você tá? ― Rafa perguntou para ele.
― Já estive melhor… ― ele respondeu sem ânimo.
― Entendo… ei… se precisar de qualquer coisa, Arthur, qualquer coisa mesmo, eu e o Lucas estamos aqui para você, tudo bem?
Quando Rafa disse isso, Arthur me olhou. Seus olhos continham verdades das quais somente nós dois sabíamos. Eu não disse nada. Apenas continuei olhando para ele em silêncio. Esperando seu próximo passo. Sua próxima palavra. Ele tinha o poder em mãos de acabar com a minha vida. Ele tinha o poder de destruir tudo o que eu tinha construído com o Rafa. Não que ele fosse fazê-lo, mas… só o fato de ele ter esse poder me deixava com medo. Mas ele não disse nada. Não trocamos uma palavra. Só conseguíamos nos olhar em silêncio.
― Obrigado, Lucas. ― Ele disse finalmente.
Isso me aliviou profundamente. Com certeza era paranoia minha, eu acho. Arthur não falaria nada. Meu segredo estava salvo. Minha relação com o Rafa estava salva. Pelo menos por hora.
Estendi meus braços para dar um abraço nele. Ele veio em minha direção, me abraçou e sussurrou em meu ouvido:
― Valeu… por ontem…
Eu apenas fiz que sim com a cabeça. Depois nos separamos e ele disse:
― Obrigado por virem… e pela força… acho que agora estou bem…
― Sem problemas, Arthur… ― Rafa disse e me olhou, esperando que eu dissesse alguma coisa, mas eu continuei em silêncio.
― Erm… minha mãe… ela… meio que está me esperando… ― Arthur disse e apontou para trás. ― Eu… eu preciso ir… ― ele disse e me olhou.
Eu olhei para ele de volta e fiz que sim com a cabeça.
― Tudo bem então… ― ele disse. ― Até mais…
― Até… ― Rafa disse e me olhou.
― Até… ― eu disse baixinho.
Daí Arthur se virou e foi se encontrar com sua mãe. Nessa hora, Rafa me olhou.
― Você está bem? ― Ele perguntou.
― Mais ou menos. ― Eu respondi.
― O que foi?
― Não é nada… ― eu expliquei. ― Só não dormi direito… e esse dia está sendo terrível…
― Quer ir dormir lá em casa hoje? ― Ele ofereceu.
― Hoje não… ― eu respondi. ― Ainda nem tive tempo de conversar com minha mãe… assim que cheguei de viajem já corri pra casa do Arthur… que tal amanhã? ― Sugeri.
― Pode ser também… ― ele concordou. ― Não quer que eu vá dormir com você hoje? Pode ser na sua casa.
― Não precisa se incomodar… ― eu disse. ― A gente pode deixar pra amanhã…
― Tudo bem, então… ― ele concordou.
Com o passar dos minutos, a cerimônia foi se encerrando. Pouco a pouco, os presentes de menor importância foram se despedindo de dona Renata e do menino Arthur, e foram se dirigindo para seus respectivos destinos. O cemitério foi se esvaziando lentamente. E, conforme as pessoas iam prestando suas devidas condolências, iam deixando o recinto.
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Foi, de fato, um momento triste, de um dia triste. Uma tragédia inescrupulosa da natureza. Um detalhe. Uma aleatoriedade que custou uma vida. A morte não se preocupou em levar o pai do meu melhor amigo. A morte não se preocupou em causar dor e sofrimento a todas aquelas pessoas ali presentes. Em sua peculiar e sinistra divindade, fez o que já estava cansada de fazer. Sem misericórdia, sem piedade, sem compaixão e muito menos sem cerimônia. O famoso matou e foda-se.
Esse dia, de fato, foi gravado em nossas memórias no tom de roxo mais escuro. Eu e Rafa fomos uns dos últimos a ir embora. Fomos embora porque Arthur realmente precisava passar um tempo com sua mãe sozinho. Agora era com eles. Eles tinham que passar por isso juntos. Eles tinham que superar isso juntos. Cada um tinha a sua guerra para lutar e sofrer.
Enfim, caro leitor… este foi o desfecho de um longo episódio… de uma longa temporada de acontecimentos, reviravoltas, caos, prazeres, revelações, declarações e tragédias… agora chegou a hora de fazermos um pequeno avanço no tempo… coisas aconteceram, histórias foram escritas e memórias foram gravadas.
Estávamos no final de dezembro quando tudo isso aconteceu, quando a nossa viagem terminou. As festas de fim de ano estavam chegando e, como sempre, a virada do ano trazia esperança para todos. As expectativas para esse novo ano estavam altas, mas, antes de chegarmos na virada do ano, muitas coisas aconteceram.
Pra começar, todo o drama escandaloso que eu fiz contra o relacionamento da minha mãe com seu Humberto foi completamente ignorado por eles. Mas não que eu tenha me importado muito… se eles estivessem felizes juntos, eu estava feliz. Seu Humberto não chegou a vir morar com a gente, até porque isso seria demais, ainda mais no começo do namoro… mas ele e minha mãe volta e meia saíam juntos. Iam para um cinema aqui e um jantar ali. Eu gostava disso, porque eu sempre acabava ganhando uma noite sozinho em casa, em que eu ligava o Skype com o Gatinho ou andava pelado pela casa, sei lá… acabava fazendo coisas que eu não faria se minha mãe estivesse em casa.
Era dezembro e minha mãe já estava grávida de quatro meses. Já era um pouco perceptível sua gravidez. O nascimento da minha irmã estava previsto para maio. E, se ela desse certo com seu Humberto, talvez minha irmã poderia ter um pai de verdade… o pai que eu não tive. Isso era bom. Uma pessoa a mais para olhar o bebê seria sempre bem-vinda… não é segredo para ninguém os estragos que um recém-nascido pode provocar no sono dos adultos. Enfim… seria bom uma ajuda extra… tanto na criação da criança quanto na parte financeira da família. Eu acabei arrumando um emprego, mas vamos chegar nessa parte da história daqui a pouco.
Com o passar dos dias, acabei me habituando com o namoro dos dois. Chegava até ser engraçado minha mãe namorando. Várias coisas que ela enchia meu saco em relação ao meu namoro com o Rafa, pararam, porque, assim que ela começou a namorar, ela também fazia. Coisas do tipo ficar até tarde no celular, se atrasar ao voltar de um encontro, gastar muito dinheiro saindo, esse tipo de coisa.
Em relação ao Arthur, apesar de que estávamos de férias, continuamos nos falando por WhatsApp. Eu tentava falar com ele todo dia, até porque ele estava precisando conversar bastante. Mas ele foi melhorando com o tempo. Uma semana depois do ocorrido, ele já voltou a sorrir e, duas semanas depois, ele já voltou a fazer piadinhas, então… pude perceber que ele estava melhorando bastante.
Passados alguns dias, eu já até tinha me esquecido de que tinha beijado Arthur. Sendo bem sincero, eu passei a ignorar esse acontecimento. Pouco tempo depois, eu continuei minha relação com o Rafa como se isso não tivesse acontecido.
Não cheguei a contar para ele sobre isso e nem queria. Não precisava. O passado ia ficar no passado. Nossa relação estava melhor que nunca e eu não queria que nada entrasse em
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nosso caminho. Eu e o Rafa nos divertíamos muito um com o outro. E, com o passar dos dias, como se fosse possível, esse garoto ficava cada vez mais bonito.
Nesse intervalo de tempo, também encontrei uma pessoa que eu não via há muito tempo. Sim… esse mesmo. Matheus.
Certo dia, encontrei com ele lá na quadra que ficava perto de casa, onde costumávamos jogar bola. Fui lá porque era domingo e eu estava atoa, então resolvi ir jogar bola. Eu vi ele, ele me viu, mas nenhum de nós dois se importou muito.
A última vez que eu tinha visto ele, ele tinha arrumado um novo amigo… aquele tal de Bola. Seu Humberto também me dissera que esse novo amigo do Matheus estava ensinando um monte de coisa errada para ele, tipo palavrões, comportamentos de garotos mal-educados, etc. Seu Humberto também disse que Matheus tinha empinado o nariz de vez e que agora estava mais metidinho que nunca andando com esse seu amigo playboyzinho, mas eu não achei isso quando encontrei Matheus. Ele parecia continuar a ser aquele mesmo garoto inocente e brincalhão que tinha sido meu melhor amigo nos meus primeiros anos de vida. E, sendo bem sincero, eu sempre achei que seu Humberto temia pelo fim de nossa amizade, e por isso ele ficava inventando um monte de coisas ruim sobre esse novo amigo de Matheus, para que eu não o largasse.
Minha mãe me dissera que, enquanto eu estava viajando, Matheus tinha ido me procurar lá em casa. De acordo com minha mãe, ele tinha ficado triste ao saber que eu tinha ido viajar sem avisar para ele. Mas, de novo, talvez isso fosse verdade, talvez não. Adultos sempre acham que sabem o que se passa nas cabeças das crianças, quando realmente não tem a menor ideia.
Acontece que, ele tinha ido lá em casa para devolver uma chuteira minha. Quando eu era um pouco menor e cresci, a chuteira que eu tinha parou de servir, minha mãe acabou me comprando outra e eu acabei passando a antiga para Matheus. Mas, agora, que ele tinha crescido, ela não servia mais para ele também e ele tinha ido lá em casa me devolver, porém acabou descobrindo que eu tinha ido viajar com meu namorado. E ficou por isso mesmo.
Quando eu encontrei ele na quadra, a gente se cumprimentou quando se viu, mas, como o jogo estava para começar, não tivemos tempo de conversar e apenas jogamos bola juntos. Quando o jogo terminou, eu fui falar com ele. Ele pareceu estar bem de boa comigo… não tínhamos muito o que conversar… era como se… era como se nossa amizade estivesse esfriado. Era estranho. Ele, que um dia já tinha sido meu melhor amigo, agora era apenas um outro amigo qualquer, que eu via de vez em quando, que eu conversava de vez em quando, mas que era aquela conversa sem profundidade, sem interesse. Nossa amizade simplesmente esfriou. Agora eu tinha o Rafa… eu tinha o Arthur… ele tinha o Bola… e também outros amigos da escola… era como se não estivéssemos mais fazendo falta um para o outro. E ele me pareceu bem tranquilo em relação a isso.
Nós dois cometemos erros na nossa amizade. Ele já tinha me ignorado algumas vezes no passado. Eu também já tinha ignorado ele algumas vezes. Nenhuma das vezes de propósito. Nenhum de nós tinha sido um amigo perfeito para o outro, porque simplesmente não era assim que funcionava. E, assim, a vida simplesmente fez o que sabia fazer de melhor e nos deu interesses diferentes. Eu tinha minha vida para cuidar, ele tinha a dele. Nossa amizade foi morrendo aos poucos. Tão lentamente que seu termino não pode ser sentido, até de fato estar concluído.
Continuamos vivendo nossas vidas como velhos conhecidos. Não sei se isso foi bom ou ruim, apenas foi…
Eu queria que fosse diferente. Eu não queria que a vida fosse assim. Mas minha vontade era de tamanha insignificância que sonhar perdia a graça.
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Dezembro passou de forma suave. Logo as festas de fim de ano chegaram e uma de minhas datas favoritas aconteceu mais uma vez: O natal.
A família Mackenzie se reuniu quase que completamente para celebrar essa data. Faltaram apenas um ou outro tio que, por não estarem no país, não puderam comparecer. Eu não passei o natal com o Rafa, se é o que você quer saber. Seria o primeiro natal que eu e minha mãe passaríamos sem meu pai, mas seu Humberto nos fez companhia.
Rafa convidou eu e minha mãe para irmos passar o natal com eles. Eu até queria, mas minha mãe quase me bateu quando eu disse isso. Ela disse que não seria nenhum pouco apropriado irmos ceiar à custa dos outros, então acabamos passando o natal só nós três mesmo… quer dizer… nós quatro… o bebê também.
Arthur e sua mãe decidiram não comemorar o natal, então, para não ficarem em casa afogando as magoas, os dois resolveram viajar juntos. Eles foram para o sul do país.
Enfim… sobre os presentes… minha mãe não me deu nada, até porque tínhamos combinado que meu presente seria a viagem com o Rafa. Então eu já estava bem satisfeito. Mas o que me surpreendeu foi o presente que eu ganhei do tio Humberto. Adivinhem só… ele me deu um fucking violino. Eu simplesmente fiquei sem palavras. Eu achei ele lindo e encantador e, com certeza, eu me dedicaria ao máximo para aprender tocá-lo. Foi um dos melhores presentes que eu já tinha recebido na vida. Rafa também adorou quando eu mostrei para ele. Ele ficou apaixonado pelo meu presente. Ele tentou tocar algumas notas, mas o som horrível que saía fez com que ele desistisse logo de tentar. E, por falar no Rafa, bem… eu queria muito ganhar seu presente, né… porque ele vinha fazendo propaganda desse presente de natal fazia muito tempo. Ele acabou me dando uma caixa cheia de coisas. Tinha um porta-retratos, com uma foto nossa em que ele estava me abraçando por trás e beijando minha bochecha, que havíamos tirado no Nordeste. Tinha um jogo de computador que eu estava doido para jogar. Tinha uma cartinha, que eu leria mais tarde. Tinha um cordãozinho, com um pingente de coração com as iniciais R e L. Tinha uma caixa de chocolates de papai Noel e, por último, mas não menos importante e que me fez rir horrores, tinha uma maldita camisinha. Esse era o Rafa que eu conhecia.
Bem, não pense que é porque eu e Rafa não passamos o natal juntos que não comemoramos no dia seguinte. Eu acabei indo para a casa dele. Ele queria porque queria me apresentar para toda sua família. Eu conheci todos os Mackenzie. Se eu fosse resumir aquela família, usaria as palavras lindos e ricos… todo mundo ali era muito bonito e muito rico. A quantidade de comida que tinha naquela casa era absurda. Eles realmente viviam bem pra caralho.
Enfim… Rafa adorou me mostrar para todo mundo, mas eu simplesmente odiei. De acordo com ele, eu era mais bonito que todos os namorados de todas as suas primas juntas. Eu achei um pouco exagerado, mas aceitei o elogio. E ele simplesmente adorou mostrar para todas elas o como ele estava por cima. Eu odiei, mas me diverti.
Quanto ao presente que eu dei para o Rafa, eu não tinha tanto dinheiro quanto ele para lhe dar um presente caro, mas tentei ser criativo. Escrevi-lhe um poema e selecionei a dedo as músicas que ele deveria ouvir enquanto lia-o. Também lhe comprei um porta-retratos e coloquei uma das minhas fotos nossas prediletas.
Bom, essas foram nossas festas de fim de ano. O ano logo virou e era hora de uma mudança de vida. Assim que janeiro chegou, eu fui procurar um emprego, para ajudar em casa com as despesas e também para ganhar um pouco de independência financeira. Eu já estava me cansando de pedir dinheiro para minha mãe para ir no cinema e acabar gastando tudo com camisinhas ou skins no League of Legends.
Eu acabei conseguindo ser “contratado” no mercadinho do seu Mario. Era um mercado que ficava a dois quarteirões da minha casa que costumava dar uma ajuda para adolescentes
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carentes que precisavam de um troco. Então, eu comecei a trabalhar lá junto com mais dois meninos. A gente fazia de tudo um pouco. Ajudava os clientes a ensacarem as compras, devolvíamos os carrinhos esquecidos no estacionamento para a garagem de carrinho, ajudávamos a organizar as prateleiras, oferecíamos informações, etc.
O salário não era lá grandes coisas, mas para mim era. Então eu gostava de trabalhar lá. Eu também comecei a aprender muita coisa de negócios. Eu passei a prestar mais atenção nas coisas que aconteciam ao meu redor. Eu estava gostando bastante da experiência e maturidade que eu estava conseguindo lá.
Rafa não gostou muito da ideia de me ver trabalhando. Primeiro porque nosso tempo juntos acabou sendo afetado por isso. Agora eu não estava mais tão disponível quanto antes. Eu trabalhava toda manhã e tarde. E, ainda mais agora que estávamos de férias, ele ficava o dia todo sem fazer nada e não podia ficar mais comigo.
Mas, como eu estava dizendo, eu estava gostando de trabalhar. Eu queria juntar um dinheiro para mim e para minha irmã que ia nascer em breve e, agora que estávamos em janeiro, minha mãe fazia cinco meses de gravidez. Eu estava mais ansioso que nunca.
Os dias foram se passando sem muita novidade. As aulas começariam em breve. E, por falar em aulas, agora iríamos para o sétimo ano. Eu estava mais velho que nunca. E começaria uma nova etapa na minha vida.
Eu não tinha ideia do que ia ser esse sétimo ano. Eu só sabia que muita coisa ainda estava para acontecer.
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