O menino dos olhos verdes 70
É… estava dando certo até então… minha mudança de atitude perante a minha situação era o que eu mais estava precisando. A primeira coisa que fiz foi combinar com meu antigo professor de olimpíada algumas aulas particulares, para que eu melhorasse o meu desempenho escolar. Ele aceitou numa boa, até porque gostava de mim como aluno. Ele combinou comigo de me dar um reforço na sexta à tarde. Foi a melhor coisa que eu fiz, porque eu poderia enforcar o trabalho chato e monótono no mercadinho e ainda por cima melhorar minhas notas. Minha mãe também aprovou e eu pude perceber o alívio que ela sentiu ao perceber que eu estava me recuperando do baque pelo qual eu estava passando. Tio Humberto também se animou com a ideia e correu me comprar alguns materiais de estudo. As coisas estavam começando a melhorar.
A sexta-feira então chegou e eu fui até a sala de aula 27 do Bloco Leste, que era aquela antiga sala que eu costumava ter aulas com ele. O professor Tales me encontrou lá e me tirou algumas dúvidas de matemática, mas depois eu comecei a encher o saco dele com história, que era a matéria que eu estava mais mal. Ele não sabia direito, mas tentou me ajudar no que podia, até porque a matéria era de nível fundamental, dava pra ele me ajudar a entender o que era aquele diabo de feudalismo.
Mas isso foram apenas detalhes. O episódio de verdade começou quando a aula terminou. Arrumei meus materiais, me despedi do professor, e cacei meu rumo para a cantina da escola. Como hoje era sexta-feira, como vocês estão cansados de saber, era dia de futebol. Sim… eu estava pensando em dar uma passadinha lá para dar uma espiadinha no Rafa e no tal do maldito Giuliano. Eu sei que não devia fazer isso, mas a minha vontade de vê-lo estava me tirando do eixo. Eu sei que devia ocupar minha mente com qualquer coisa que não fosse o Rafa, mas… o Lucas idiota começou a tomar o controle da minha cabeça.
Enquanto caminhava pelo corredor do Bloco Leste, comecei a dialogar comigo mesmo. Será que devo? Será que não devo? Será que eu vou me encontrar com ele e nós vamos fazer as pazes? Será que eu vou chegar lá e ele vai estar com o Giuliano? Será que eu vou chegar lá e não vou encontrar nada demais? E simplesmente vou perder o meu tempo? Será que ele vai brigar comigo? Será que ele vai me ignorar? Eram muitas perguntas. E eu não sabia se devia, mas queria muito ir lá naquele maldito campinho vê-lo.
No meio do caminho, resolvi usar o banheiro que ficava na metade do corredor. E, assim que entrei, para minha enorme surpresa, ouvi o que seriam alguns gemidos:
― Ahh… isso… vai… chupa… isso… ahh…
No mesmo momento, eu parei imediatamente. Alguém estava fazendo algo de muito errado nesse banheiro. Me veio um flashback de uma memória antiga. Eu e o Rafa já havíamos feito coisas nesse banheiro. Quando estávamos começando a namorar, que não conseguíamos passar mais de vinte e quatro horas sem meter a boca no pau um do outro, já tínhamos matado aula pra vir aqui se comer aqui nesse mesmo banheiro. E parecia que alguém também estava fazendo isso. O sentimento nostálgico me embrulhou o estômago.
A voz que vinha do box não me era estranha. Eu já tinha ouvido essa voz em algum lugar, só não me lembrava onde. Pensei em me aproximar para ouvir melhor ou até mesmo para espiar através das frestas da porta do box. Mas eu não sabia se devia.
Resolvi andar um pouquinho para frente, mas acabei pesando o passo e eles me ouviram.
― Shhh! Shhh! ― Um disse para o outro.
E o silêncio se instaurou no banheiro. Meu coração se acelerou e eu não sabia o que fazer, então resolvi fingir que não tinha ouvido e caminhei até o mictório mais próximo. Tirei
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meu pau pra fora pra fazer xixi e olhei para trás, mais especificamente para o box onde as pessoas estavam. Assim que olhei, pude ver de relance dois pés desaparecendo, como se uma delas estivesse subindo no colo da outra para esconder que ali haviam duas pessoas. Voltei a me concentrar no mijo e, assim que terminei, dei descarga e fui lavar as mãos. Olhei mais uma vez para trás e os pés que tocavam o chão estavam paradinhos. Imóveis. Como se a pessoa tivesse congelado ao descobrir que poderia ser pega. Os sapatos indicavam que era um garoto.
Terminei de lavar minhas mãos e saí do banheiro. Eu estava curioso para saber quem estava ali, então resolvi me esconder atrás de um pilar e esperar que eles saíssem do banheiro. E fiquei aguardando.
Depois de esperar por cinco minutos, uma figurinha apareceu. Com seus cabelos loiros bagunçados e com sua pele morena clara, o Bruninho do quarto ano saiu do banheiro e olhou para os lados, procurando qualquer sinal de vida por perto. Voltei a me esconder atrás do pilar e contemplei o garotinho do quarto ano sair correndo dali como se sua vida dependesse disso. Mas não era dele a voz que eu tinha ouvido. A voz pertencia a um garoto mais velho. Que eu descobriria em instantes.
Dito e feito. Passados mais alguns minutos, outra pessoinha botou a cara para fora do banheiro, para olhar se a barra estava limpa, e, quando viu que não tinha ninguém por perto, saiu de fininho. Inacreditável. Eu podia esperar isso de qualquer um, menos dele…
― Você!? ― Eu disse ao me relevar de trás da pilastra.
Caio olhou para mim assustado. Sim, era exatamente esse Caio. O menino que, junto com Hermes, tinha feito da minha vida na Nova Aliança um inferno, distribuindo panfletos meus e do Rafa nos beijando. O menino que tinha embebedado Arthur no baile de formatura do nono ano e nos chamado de veadinho e de bichinhas. E cá estava ele, se pegando com o Bruninho no banheiro da escola. Eu nunca poderia imaginar que ele curtisse meninos.
Ele não era feio, poderia pegar várias meninas se quisesse. Ele tinha a pele clara, olhos misteriosos, uma personalidade introvertida, mas ácida e, com certeza, um IMC menor que dezoito e meio. Ele estava usando uma calça jeans, uma camiseta preta e aqueles tênis que eu flagrara minutos atrás no box do banheiro. Apesar de usar um boné, este não era capaz de esconder todo seu cabelo, que batia na altura dos ombros. Eram lisos e levemente ondulados num tom castanho escuro.
― Bruninho, sério? ― Eu disse cruzando os braços e olhando para ele como se tivesse a vida dele em mãos. Afinal, essa era uma bela de uma fofoca para se espalhar pela escola.
Um sentimento de empoderamento me tomou e eu senti um prazer que nunca sentira antes. Eu nunca tinha tido a vida de uma pessoa nas mãos a esse ponto. Foi um pouco doentio da minha parte sentir isso, mas… depois de tudo que ele fizera comigo, o sentimento de vingança cresceu dentro de mim.
― Aff… não é da sua conta, falou? ― Ele disse com descaso e se virou para ir embora.
― Espera! ― Eu disse chamando-o.
Ele se virou para mim e disse:
― O que você quer, Lucas?
― O que eu quero!? Quero uma explicação! ― Eu pedi.
― Eu já disse que não é da sua conta… ― ele disse mais uma vez e se virou.
― COMO VOCÊ TEVE CORAGEM DE FAZER AQUILO COMIGO SENDO GAY TAMBÉM!? ― Eu gritei.
Ele continuou me ignorando e se afastando de mim.
― VOLTE AQUI! ― Eu disse seguindo-o. ― OU VOCÊ QUER QUE TODO MUNDO SAIBA SOBRE VOCÊS DOIS!?
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Nessa hora, ele se virou para mim, partiu pra cima e me segurou pela gola da camisa, me empurrando contra a parede. Ouch. Por essa eu não esperava…
― FICOU MALUCO? ― Ele gritou e alinhou seu punho na direção da minha cara.
Nessa hora, eu fechei meus olhos e virei o rosto para o lado, num reflexo de quem estava prestes a levar um soco na cara. Com ainda mais força, ele apertou a mão que me segurava pela gola e conseguiu me levantar do chão. Apesar de ser miúdo e magrinho, o garoto aparentava possuir uma força do cão. É agora, eu pensei! É agora que vou me foder. E eu só não me mijei todo porque tinha acabado de me esvaziar no banheiro. Meus pés não tocavam mais o chão.
― Não me bate, por favor… ― eu implorei por misericórdia. Voltar para casa com o olho roxo era a última coisa que eu precisava. ― Não me bate…
Depois de um curto instante de tensão, senti meus pés voltarem a tocar o chão e a sua mão se afrouxou, me liberando da possível surra. Abri os olhos e olhei para ele, cagado de medo.
― A violência não resolve nada, garoto. ― Ele disse com toda calma do mundo. ― Quer conversar?
Olhei para ele sem saber como responder. Eu não sabia se ele estava brincando ou se ele estava falando sério.
― O gato comeu sua língua? ― Ele perguntou esperando por uma resposta.
― Não me bate… ― eu pedi mais uma vez sem saber o que responder.
― Aff… ― ele disse se afastando de mim. ― Já disse que não vou te bater. Pra que eu faria isso? Não é como se você fosse contar meu segredo pra alguém mesmo…
― Ei! Eu ainda posso contar! ― Reclamei da falta de credibilidade que ele estava me dando.
― Tá bom… ― ele disse ainda sem acreditar. ― Bem, eu estou indo fumar um cigarro ali no pomar, se quiser me acompanhar pra gente conversar, ótimo… senão, não venha me atrapalhar igual você fez aquela hora. Você assustou o Bruno. ― Ele disse e se virou, caminhando em direção ao pomar do Bloco Leste.
― Ei! Espera! ― Eu o chamei. Não tínhamos terminado de resolver essa história. Ela ainda estava muito mal contada.
Olhei para os lados, e não tinha ninguém perto da gente. Estávamos sozinhos. Quando me dei conta, ele já estava longe. Corri atrás dele e o acompanhei até o pomar do Bloco Leste. Não que fosse um pomar de verdade… era apenas uma área com muitas árvores frutíferas e alguns banquinhos para os alunos se sentarem. Era um espaço de lazer agradável. E, por ser parte da tarde, não tinha nenhum aluno aqui. Estávamos a sós.
Ele se sentou em um dos bancos, puxou um cigarro do bolso e o acendeu.
― Você sabe quantas substâncias tóxicas tem nisso aí? ― Eu perguntei indignado por ele estar fumando.
― Não ligo. ― Ele disse se fazendo de bad boy.
― Pff… você nem tem idade pra fumar… ― eu disse tentando fazê-lo parar de graça.
― E tem idade pra isso agora? Quero morrer cedo mesmo… aceita? ― Ele disse me oferendo o cigarro.
― Não, muito obrigado. ― Recusei a oferta.
― Você quem sabe…
― Então… dá pra me explicar porque você é tão idiota comigo se também é gay?
― Hahaha… ― ele riu. ― Eu não sou gay…
― Ah não? ― Eu disse cruzando os braços. ― Se você não é gay, o que tava fazendo com o Bruninho no banheiro? Secando as calças?
― É complicado… ― ele disse se esquivando da pergunta. ― O Bruninho é meu namorado.
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― É O QUE!? ― Eu gritei surpreso por ele dizer isso abertamente.
― Sim, mas não conta pra ninguém…
― Ele não tem tipo… oito anos?
― Nove. ― Ele disse dando outra tragada no cigarro.
― Ele é uma criança!
― Sim… e é por isso que ninguém pode saber…
― E ainda sim você tá me contando isso… ― eu disse sem entender mais nada.
― Sim… tivemos nossas diferenças no passado, mas… eu te acho legal…
― Ah… agora você me acha legal!? ― Eu disse indignado.
― Sim… olha só… não pense que foi fácil pra mim também… o Hermes era um idiota… e, sinceramente, depois que ele foi expulso que eu comecei a refletir sobre os motivos de eu ter sido amigo dele…
― E? ― Eu disse me sentando no outro banquinho que tinha ali.
― E que eu cheguei à conclusão de que eu apenas era amigo dele por insegurança… alguma parte de mim achava que, andando com ele, levantaria menos suspeitas sobre a minha sexualidade…
― Só um idiota pensaria isso! ― Eu disse tentando ofendê-lo.
― Sim… e eu era um idiota… ainda sou… talvez… mas eu não ligo…
― Inacreditável… ― eu disse suspirando desapontado.
― É… as coisas lá em casa também não são nem um pouco fáceis… meus pais também são homofóbicos… assim como os seus…
― Ei! ― Eu disse surpreso por ele saber que meus pais eram homofóbicos.
― É, Lucas… não pense que eu não conheço as consequências das minhas ações do passado… eu sei o que houve contigo… com seu pai… e eu me arrependo completamente do que eu fiz com você… e com outros garotos… e é algo que eu vou ter que levar pro resto da minha vida… simples assim… as consequências das minhas ações são o motivo da minha insônia…
― Isso por acaso é um pedido de desculpas? ― Perguntei com descaso.
― Se você quiser… ― ele disse dando outra tragada no cigarro.
― Não ache que por ser legal comigo agora eu vou te desculpar pelo que você fez… ― eu disse me fazendo de difícil.
― Eu entendo… não precisa me desculpar, mas apenas saiba que eu estou arrependido… falou?
― Que seja… ― eu disse dando de ombros e cruzando os braços novamente.
― Eu, particularmente, me sinto atraído por garotos mais novos… como o Bruno, por exemplo.
― Seu pedófilo! ― Eu disse o zoando, mas ele não riu.
― Não é como se isso fosse mentira… ― ele disse um tanto quanto triste. ― Eu já pensei a respeito disso.
― O que!? ― Eu disse surpreso com sua resposta. ― Era apenas uma piada…
― Uma piada de muito mal gosto, por sinal…
― Ah… eu… foi mal… ― eu disse me sentindo mal por dizer o que eu acabara de ter dito.
― Tudo bem… já estou me acostumando com os comentários…
― O que!? Fala sério… você não necessariamente é um pedófilo… ― eu disse. ― Você ainda tem… quatorze?
― Sim. Quatorze anos.
― Então! Se pá, com a idade, seus gostos vão amadurecendo… ― tentei animá-lo.
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― Não acho que isso vá acontecer comigo… ― ele disse. ― Quando eu olho pra eles… eles… eles são tão inocentes… e tão puros… e tão lindos… mas de uma forma tão errada… não me vejo parando de gostar… mesmo daqui uns anos…
― Hein? ― eu disse reflexivo. Isso era algo que, até então, eu nunca tinha parado para pensar.
― E eu sei como a sociedade olha para pessoas iguais a mim… e… ― ele mostrou o cigarro. ― É por isso que eu não dou a mínima…
Nessa hora, eu me levantei, fui até ele, peguei o cigarro de sua boca e o joguei no chão.
― Ei! ― Ele reclamou.
― Você só pode ser um grande de um idiota mesmo. ― Eu disse enquanto pisava no cigarro. ― Foda-se o que as pessoas pensam. Você não tá namorando o Bruno? Não tá feliz? Pra que cometer suicídio parcelado?
― E-eu… ― ele gaguejou na hora de falar.
― Olha só… eu não me importo se você gosta de criancinha ou não… a vida não se resume a isso pra você olhar para ela com tanto descaso. Olha pra você… você tem quatorze anos… não saiu nem do ensino fundamental ainda… tem pelo menos mais uns oitenta anos pela frente… eu parei de me importar com comentários homofóbicos há muito tempo… só me faziam mal… e daí o que as pessoas dizem… as pessoas são cheias de ódio no coração… não é porque alguém diz algo que essa pessoa está certa…
― M-mas…
― Eu acho que não importa a idade. Amor é amor. E você tem que buscar as coisas que te fazem feliz… se isso te faz feliz, foda-se… só posso dizer que você tem um excelente gosto por meninos, afinal… teu namorado, com todo respeito, é gostoso para caralho!
Ele riu da minha resposta.
― Valeu… ― ele disse mais aliviado por compartilhar seus sentimentos comigo.
― Eu também gosto de meninos mais novos, se serve de consolo… ― eu disse voltando a me sentar. ― Não sei até onde vai minha atração, mas… realmente… caras mais velhos são muito feios…
― E não é!? ― Ele disse feliz por concordar comigo.
― Sim… pelos… barba… eca… ― eu disse rindo.
― SIM! ― Ele disse concordando comigo. ― É exatamente isso que eu penso!
― Pois é… ― eu disse rindo.
― Aí… ― ele me chamou e olhou para os lados. ― Espera um instante.
Ele se levantou do banco, andou ao redor do pomar, olhando de um lado para o outro, como se estivesse procurando por alguma coisa.
― O que foi? ― Perguntei.
― Espera! ― Ele disse e continuou procurando por algo.
Daí, ele voltou a se sentar e disse:
― É… estamos sozinhos… você quer ver uma coisa muito doida?
― Uma coisa muito doida? O que? ― Perguntei curioso. ― Ah… se você falar seu pau, eu juro que vou embora daqui… ― eu disse o zoando.
― Não! O que acha que eu sou? ― Ele disse enquanto botava a mão no bolso. ― Aqui!
Ele disse e me mostrou um tubinho fino, que parecia ser um cigarro.
― O que é isso? ― Eu perguntei.
― Sinta o cheiro e descubra… ― ele disse me passando o cigarrinho artesanal.
Senti o cheiro, como ele havia me orientado, e era bem diferente, mas nada que eu pudesse identificar.
― Não sei… o que é? ― Eu disse.
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― Aff… isso é um baseado… ― ele disse.
― Um baseado? ― Eu perguntei ainda sem entender.
― Sim… maconha… você já fumou?
Nessa hora, senti meu coração disparar. É o que? Esse menino tava com droga no bolso esse tempo todo?
― OI!? ― Eu disse um tanto quanto assustado.
― Você já fumou?
― Não! ― Eu disse na defensiva. ― Nunca fumei! Cara, eu tenho doze anos…
― Sim… e eu tenho quatorze… quer fumar? ― Ele perguntou.
― Não! ― Eu disse com um pouco de medo. ― Isso é droga… isso vicia… e faz mal!
― Sim… mas não é como se fosse droga, droga… é só maconha, cara… é a mais leve das drogas…
― Mas isso vicia!
― Sim, se você fumar muito sim, mas experimentar não vai te deixar viciado, e nem maluco… só dá uma brisa… se quiser, pode pesquisar aí na internet…
― Uma brisa? ― Eu disse indignado.
― Sim… uma brisa… da mesma forma quando você bebe…
― Bebe? ― Eu perguntei. ― Tipo álcool?
― Sim… você já ficou bêbado, né?
― Não… ― eu disse um tanto quanto envergonhado.
― Aff… você tem doze anos ou dois?
― Cara… esse tipo de coisa faz mal… você não devia fumar, nem beber, e muito menos usar drogas…
― Ah… estou acendendo, se quiser experimentar, esteja a gosto… ― ele disse levando o baseado até a boca e o acendendo. ― E não se preocupe… quando você fuma, você não perde o controle das suas ações, nem nada do tipo… você só fica mais reflexivo… e você continua consciente. Ajuda a pensar melhor nos problemas… ou fugir deles, se quiser…
Fiquei pensativo. Será que eu devia? Depois de tudo que já havia ouvido falar sobre drogas?
― Isso ajuda a fugir dos problemas mesmo? ― Perguntei.
― Oh se ajuda… porque acha que eu fumo? ― Ele disse rindo enquanto dava a primeira tragada.
Quer saber? Apesar de estar bastante assustado com essa história toda, seria mentira se eu dissesse que não estava nem um pouco curioso. Sim… depois de ele dar as primeiras tragadas, eu apenas observei… curioso para saber o que ia acontecer com ele. Mas nada aconteceu, ele continuou normal.
― Qual é a sensação? ― Perguntei.
― Ah… demora um pouquinho pra fazer efeito, mas… você fica mais relaxado… e consegue pensar melhor nas coisas… seu raciocínio fica um pouco lento, mas, é porque você começa a processar mais informação… então… é basicamente isso… e também deixa a boca um pouco seca, mas é só beber água que passa…
― Entendi… ― eu disse após ouvir com atenção. ― Quer saber? Foda-se… passa pra cá…
― Agora sim! ― Ele disse rindo e me passando o baseado.
Eu peguei e senti um cheiro forte emanar daquele pedacinho de erva queimando. Usei minha mão livre para dispersar a fumaça.
― Nossa… é forte o cheiro… ― comentei.
― Sim… um pouco… mas você se acostuma…
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― E como faz? ― Perguntei.
― É o seguinte… você vai botar na boca, vai puxar um pouquinho da fumaça, não puxa muito senão você vai tossir. Depois que você puxar, você vai respirar ar puro, pra empurrar a fumaça pro pulmão… e depois você solta lentamente… entendeu?
― Hum… acho que sim… puxa, respira e solta?
― Isso…
― Okay…
Fiz como ele mandou. Levei o cigarro até a boca, puxei um pouco o ar e senti a fumaça entrando dentro de mim. Imediatamente, eu engasguei e comecei a tossir.
― Ixii… tossiu…
― Ah… vá… ― eu disse entre as tossidas.
― Respira… ― ele disse rindo.
Continuei tossindo por mais ou menos um minuto. Ele pegou o baseado e deu mais uma tragada.
― Nossa, você faz isso parecer tão fácil…
― E é… você só não aprendeu ainda… ― ele disse rindo.
― Tá… me dá aqui… ― eu disse depois de me recuperar do meu ataque.
― Toma… ― ele disse e me entregou. ― Puxa pouco, dessa vez.
Fiz como ele mandou. Botei o baseado na boca, puxei um pouco, tirei ele da boca, inspirei ar puro e senti a fumaça ir pra dentro do meu pulmão. Em seguida, soltei lentamente o ar e voltei a respirar ar puro novamente.
― Aí… aprendeu… ― ele disse sorrindo.
― E agora? ― Eu disse tossindo mais um pouco. ― O que eu faço?
― Hahaha… ― ele riu. ― Calma… pra você sentir o efeito, tem que fumar mais um pouco… uma tragada não vai te deixar chapado.
― Tá… que seja… ― eu disse e fumei mais uma vez.
― Isso, fuma duas vezes e passa… ― ele disse rindo. ― Vai aprendendo.
Passei o cigarro pra ele e fiquei em silêncio observado o que estava acontecendo comigo. Até o momento, eu não tinha sentido diferença nenhuma.
― Calma… ― ele disse percebendo minha impaciência. ― Daqui a pouco você vai sentir algo…
Ele fumou suas duas vezes e me passou. Fumei mais duas e foi aí que a coisa começou a ficar interessante. Quando ele percebeu que eu tinha parado no tempo encarando o nada, ele disse:
― E aí, bateu?
Eu fiz que sim com a cabeça e comecei a rir. Tá… agora como descrever o que eu estava sentindo… putz… difícil essa…
Tudo começou a ficar estranho quando a minha percepção sobre o que estava acontecendo ao meu redor começou a mudar. De repente, eu tomei consciência quase que instantaneamente de que eu estava vivo. Sim. Tudo parecia igual, mas algumas coisas começaram a ficar mais claras para mim.
A primeira coisa que senti, foi minha cabeça ficando um pouco quente. Em seguida, eu comecei a prestar muito menos atenção no mundo exterior e passei a refletir intensamente sobre as coisas que estavam acontecendo comigo. Era como se eu estivesse me isolando do mundo, mesmo que de forma ainda muito suave, e estivesse tirando um tempo para observar com mais atenção minha própria vida. Era como se eu estivesse me aproximando mais da minha consciência e tomando conhecimento de algumas questões sobre mim mesmo que até então eu desconhecia.
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A cada tragada que eu dava no cigarro, mais o efeito crescia. Depois de sentir a primeira onda, todo sentimento de medo que estava me incomodando sumiu. Agora que eu estava aqui, neste novo lugar que eu acabara de conhecer, eu me sentia mais seguro, sabendo que, realmente, eu não corria perigo algum. Eu ainda estava completamente consciente e não estava desorientado. Só estava mais… relaxado… e mais lento… mas ainda conseguia continuar pensando e entendendo o mundo a minha volta. E isso me acalmou.
Da mesma forma como experimentar o mundo exterior estava se tornando diferente, o mundo interior também. Eu me senti muito mais sensitivo. Eu senti meu corpo mais intensamente. Tudo ficou mais intenso. E, ver o mundo dessa forma realmente mudou minha percepção das coisas. Sim, foi uma experiência realmente interessante.
― Aí, Lucas… ― Caio me chamou.
Eu olhei para ele e ele demonstrava um olhar sério e pensativo. Seus olhos estavam um pouco vermelhos. Imaginei por um instante se os meus também estariam.
― Você já viu um pombo filhote? ― Ele perguntou.
― Um pombo filhote? ― Tentei me lembrar, mas não… realmente… nunca tinha visto um pombo filhote… ― não… nunca vi… ― respondi.
― Você já parou pra pensar o seguinte: Imagine que todos os pombos que a já gente viu são pombos filhotes e que na verdade existe um pombão?
Nessa hora, eu olhei pra ele e simplesmente não consegui me segurar. No próximo instante, eu estava rindo tanto que parecia que eu ia explodir. Eu simplesmente não conseguia me segurar. Um pombão? De onde ele tinha tirado isso? Só sei que minha barriga doía de tanto rir.
Acontece que, passamos os próximos minutos só falando besteira e rindo pra caralho. Realmente, eu tinha ficado muito idiota. Tudo era engraçado. E o Caio, por si só, já era muito engraçado. Por um momento me esqueci de tudo de ruim que ele já me fizera. Não que eu o tivesse perdoado, mas… o garoto também tinha seus próprios problemas pra lidar… assim como todos nós… e esse era o jeito dele de encarar a vida… não vou dizer que era um jeito errado, porque não era… fugir dos próprios problemas só era mais um jeito de lidar com eles…
Ficamos ali conversando por bastante tempo… tempo o suficiente para que o auge do efeito da droga passasse e para que eu voltasse a me lembrar de como era estar sóbrio. Até porque não tínhamos fumado muito… o baseado dele era aparentemente pequeno… deu pra eu tragar umas oito vezes só…
Eventualmente, a hora de ir embora chegou para nós dois. Eu tinha meus afazeres e ele tinha os dele. O final da nossa conversa foi mais reflexivo… conversamos um pouco sobre o conceito de felicidade e sobre o quão importante ela realmente era. Dei algumas dicas para ele sobre como lidar com o Bruninho, não que eu fosse o expert em relacionamentos, mas… eu já tinha vivido bastante coisa com o Rafa para poder ter o que compartilhar nesse quesito.
Quando nos despedimos, Caio continuou com a mesma atitude de: “Ah, eu não me importo, que seja”. Talvez esse fosse o jeito dele. Talvez ele realmente não se importasse tanto com as coisas. Ou talvez ele se importasse, mas fingia que não. Era algo difícil de saber. Só convivendo mais para descobrir.
Ele também me chamou para fumar outro qualquer dia, se eu quisesse. Eu aceitei por educação, mas… acho que o baque tinha sido muito grande pra mim. Eu não sei se tinha cabeça pra fumar de novo…
Pra vocês terem noção, agora eu estava indo para casa ainda sem entender o que tinha acontecido. Em um momento, eu estava pensando se devia ou não ir atrás no Rafa no futebol. No outro, eu estava fumando maconha no Bloco Leste da escola com um menino problemático
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que já tinha sido um dos meus maiores inimigos no passado. E, eu estava levando para casa uma caralhada de coisas para pensar, refletir e filosofar a respeito.
Voltei pra casa a pé, até porque, na minha cabeça, eu estava com o cheiro daquela porra impregnado em mim. Então, resolvi não ligar para minha mãe para tirá-la do trabalho e fazê-la vir até aqui para buscar seu filho que cheirava a maconha logo depois de sair da aula. O caminho até minha casa era um tanto quanto comprido, mas eu aproveitei a caminhada para pensar no que tinha acontecido.
Uma das coisas que eu refleti durante a minha viagem proporcionado pela erva, foi a respeito da minha relação com aqueles dois. Rafa e Arthur. Eu ainda não sabia o que fazer quanto a eles, mas… talvez eu devesse levar as coisas mais no foda-se mesmo. Talvez eu devesse mesmo parar de ficar me afogando nos meus próprios problemas. Ou melhor, talvez eu devesse parar de ver problemas onde não tinha e pegar mais leve comigo mesmo… talvez eu devesse aproveitar melhor a vida que estava se passando diante dos meus olhos.
Eu queria levar as coisas mais de boa… tanto com o Rafa, quanto com o Arthur… ainda bem que eu não fui para aquela maldita quadra de futebol. Não sei o que poderia vir de bom de uma atitude como essas… eu o veria… pra que? Pra ficar mais mal? Não… não fazia nenhum sentido… eu tinha que crescer… eu tinha que amadurecer tanto quanto o Rafa… se nós não estávamos juntos, é porque não tínhamos maturidade para isso… um pouco mais de maturidade nas nossas cabeças fariam esses problemas desaparecerem… e, infelizmente, maturidade é uma coisa que só se adquire com o tempo… então que o tempo passe e nos faça maiores… e que eu olhe para trás e me orgulhe das coisas que fiz, sabendo que fiz o que pude…
Enfim… outra coisa que me deixou bastante reflexivo nessa viagem, foi as coisas que Caio falou a respeito de ficar com um menino mais novo. Querendo ou não, eu acabei me identificando com algumas coisas que ele dissera… sobre o tipo de atração que você sente por meninos mais novos… e sobre como esse gosto pode ser imutável ao longo do tempo… e as consequências disso. Eu já tinha doze anos. Eu já tinha um conhecimento razoável sobre algumas coisas que vagavam por esse mundo.
Continuei caminhando em silêncio pelas ruas de Ribeirão Preto admirando o pôr do sol e pensando a respeito do que tinha sido essa minha visita a este tão fascinante universo paralelo que existia dentro de mim.
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