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O menion dos olhos verdes 33 & 34

📅 Publicado em: 25/09/2022 02:25

👤 Autor: greenbox-amigobc

📂 Categoria: Gays

🏷️ Tags: #PreTeen
Episódio 33 ― Enredo Terceira Temporada | Episódio 34 ― Trauma

Há doze anos e alguns dias atrás, por volta deste mesmo horário, duas da manhã, nascia Lucas Henrique Ribeiro Montenegro. Sim, eu mesmo.

Até agora não tive oportunidade de poder contar um pouquinho da minha história para vocês, mas… será de extrema importância vocês a conhecerem para compreenderem os eventos que se seguiram.

Pois bem… como estava dizendo, há doze anos atrás, eu nasci. Fruto de um acidente entre um técnico de enfermagem e uma mocinha jovem com seus vinte e poucos anos.

Meu pai, Luciano Montenegro Filho, nasceu, cresceu e passou a vida toda aqui em Ribeirão Preto, assim como eu. Filho de Luciano Montenegro, meu avô, e de Maria da Glória Batista Montenegro, minha avó, ele estudou em uma escola pública municipal da região e, ao concluir o ensino médio, fez um curso técnico em enfermagem. Mas isso aconteceu por influência dos pais, que o queriam médico; porém, por falta iniciativa e oportunidades, ele não chegou a cursar medicina.

Hoje, ele está com 44 anos e, há sete anos atrás, depois de uma vida inteira trabalhando em um hospital, ele largou essa profissão e, com seus trinta e poucos anos, seguiu seu coração e buscou algo que o fazia feliz: Começou a trabalhar com carros, que sempre foram sua paixão. Motivado por um amigo… não, não foi o Carlão, foi um outro amigo… ele foi trabalhar numa oficina mecânica em um bairro adjacente ao nosso. Ele adorou a ideia e se jogou nela.

Eu já fui na oficina em que ele trabalha, e… posso dizer que é um ambiente bem conservador, machista e homofóbico… do tipo que prega calendários de mulheres nuas na parede. Bom… enfim. Meu pai vive num mundinho bem fechado… ele acredita que toda e qualquer pessoa deve nascer, se casar, se procriar e morrer. Sendo que… digamos que… se a procriação não acontecer com a esposa… para ele está tudo bem! Sim… ele não se importa com sexo extraconjugal! Desde que… repito… desde que… só ele pratique. Sim… para ele, homens têm o direito trair e mulheres não. E o pior é que ele diz isso abertamente para qualquer um que queira ouvir! Pois bem… este é meu pai.

Minha mãe, Ana Maria Ribeiro Montenegro, conheceu meu pai há doze anos atrás, quando ela tinha apenas 24 anos. Três meses após ela terminar o curso em administração de empresas, ela cruzou seu caminho com Luciano Montenegro durante o carnaval e, mal sabia ela, que este seria seu futuro marido e esposo.

Após cruzarem seus caminhos, deram início a um simples caso… um simples caso que os dois achavam que seria curto, rápido e passageiro. Um simples caso de carnaval. Mas, desse simples caso, eu nasci. Em alguma dessas muitas noites de curtição, eu fui acidentalmente gerado. Sim, sou de outubro, sou fruto do carnaval, faça as contas.

Como eles reagiram? Brigando, obviamente. Minha mãe começou dizendo que meu pai tinha simplesmente destruído a carreira profissional dela. Ela disse que todos os seus sonhos agora tinham se tornado impossíveis e tudo por causa de uma maldita gravidez. E ela ainda disse que tudo era culpa do meu pai… mesmo sendo culpa dos dois… na hora da brincadeira ninguém disse não, né? Mas na hora das consequências, para ela, só ele tinha culpa…

Como meu pai reagiu? Meu pai não gosta de problemas. Problemas o deixam estressado e irritado. Quando um problema aparece, ele simplesmente se satura e tenta resolvê-lo da forma mais simples possível. Ele não sabe como contornar problemas. Ele não sabe como desviar de obstáculos. Ele simplesmente prefere ligar dois pontos com uma linha reta. Independente do quanto isso custe. Independente das consequências que uma atitude dessas pode gerar.

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Sim. Na cabeça dele, as melhores soluções são as mais simples, pois, deste modo, o problema se resolve o mais rápido possível… quer algo melhor que isso? Bem… pelo menos o problema DELE se resolve o mais rápido possível. Porém, quando tiramos de um lado da balança… você sabe né? Pois é, meu caro amigo, pois é… mas desde quando devemos nos importar com o problema dos outros, disse ele um dia, não é? Pois bem… este é meu pai.

E o que ele fez quando minha mãe disse que ele destruiu sua carreira profissional? Ele a pediu em casamento! Sim. Isso mesmo. Para ele, não importava se minha mãe teria uma carreira profissional ou não… ele simplesmente não queria ouvir reclamações, então, disse que não se importava em sustentá-la. E, com seus trinta e dois anos, propôs à minha mãe, que, mais que depressa, aceitou. No fundo, acho que ela até gostou da ideia. Da ideia de apenas se preocupar em criar uma criança enquanto o marido põe comida e dinheiro dentro de casa.

E assim aconteceu. Cinco meses após eu ter sido gerado, ou… três meses após eu ter sido descoberto, Ana Maria Ribeiro estava se tornando Ana Maria Ribeiro Montenegro e… Luciano Montenegro Filho estava se tornando… bem… Luciano Montenegro Filho. A união dos dois foi comemorada com uma simples festinha para a família.

O casamento foi apoiado pelos meus avôs. Tanto maternos, quanto paternos. Infelizmente, eles já não estão mais entre nós… exceto meu avô materno… pai da minha mãe… seu Bento… ele está com seus sessenta anos e, hoje, vive em Minas Gerais.

Pois bem, o casamento aconteceu e os meses foram se passando. E assim, há doze anos e alguns dias atrás, eu nasci. Nasci no hospital São Lucas, aqui em Ribeirão Preto. O mesmo hospital que meu pai costumava trabalhar como técnico de enfermagem. O mesmo hospital que eu herdei meu nome. Sim. Meus pais me batizaram Lucas por causa do hospital em que eu nasci. Acharam bonito. Não tinham escolhido um nome ainda… e foi na hora… na hora me olharam e disseram: Lucas… Lucas Henrique… Lucas Henrique Ribeiro Montenegro. E pronto! Eu estava batizado!

O tempo passou e, acontece que, meu pai acabou não conseguindo sustentar minha mãe sozinho, como prometera. Ele seria capaz, se não jogasse tanto dinheiro fora, como sempre fazia… você viu com seus próprios olhos que ele jogando dinheiro fora num puteiro! Isso é apenas um exemplo dos muitos!

Quando a situação financeira dos dois começou a apertar, minha mãe teve que voltar a trabalhar… e, isso aconteceu quando eu tinha uns cinco ou seis anos de idade… bem, ela arrumou um emprego, como corretora de seguros… eu nunca entendi muito bem o que ela faz… só sei que ela trabalha bastante e não ganha o tanto que devia…

Enfim… ela arrumou um emprego e deixou de ser uma dona de casa… para mim isso foi o fim do mundo! Eu, que sempre tive mamãe em casa, tive que passar por uma experiência meio que traumática… conheci as chamadas tardes solitárias… mamãe e papai saiam para trabalhar e, quando não me deixavam na escola, me deixavam sozinho em casa…

Se hoje eu sou maduro, meu amadurecimento precoce se deu início nessa época… quando eu tive que criar um senso de independência para sobreviver. Nessa época eu não tinha nenhum irmão… e Matheus tinha apenas dois anos… e, como já contei uma vez, foi meu pai quem fez o parto de Matheus… o parto do meu melhor amigo da pré-infância…

E, nessa crise de solidão, desenvolvi minha timidez. Meus pais, obviamente, não perceberam que eu estava me tornando uma criança introvertida… quem teve essa percepção foi seu Humberto… e o que ele fez? Sim… me arrumou um amiguinho!

Duque, meu cachorrinho, foi um presente que seu Humberto me deu quando eu estava com meus… sete… acho que eram sete… com meus sete anos. Ele era só um filhotinho quando adotamos ele… dois dias de vida… frágil e inocente, como somente uma criança saberia ser… e, foi nessa época, que eu desenvolvi toda minha empatia tanto por animais, quanto por pessoas.

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Hoje, ele já está grandinho e com seus cinco anos… é uma ótima companhia… melhor que muita gente, pelo menos.

O tempo se passou e eu fui crescendo aos poucos. Fui crescendo até entrar na escola. A escola, para mim, não foi uma experiência ruim… mas tampouco foi uma experiência boa… eu não tinha muitos amigos, mas isso não era um problema, pois, eu também não era muito conhecido… quando você tem uma reputação, as pessoas falam… e como falam… falam até mais que a boca… mas eu não tinha uma reputação, então, não havia problemas ser do jeito que eu era.

E, como não tinha muitos amigos, eu acabava não saindo de casa… e, por conta disso, tinha muito tempo livre… daí me aventurava no mundo dos livros sempre que podia. Mas, meus dias de solidão estavam contados…

Logo, logo, quando eu tinha meus oito anos, iniciei uma amizade na pré-infância com Matheus. Certo dia, eu levei o Duque para fora e avistei logo de cara um garotinho brincando sozinho de bola. Eu olhei para ele e ele me olhou. É claro que eu gostei dele… gostei inocentemente dele… mas, como eu era demasiadamente tímido, tratei de desviar logo o olhar e me focar no chão da calçada.

Foi quando uma bola veio na minha direção e tocou meus pés. Foi ele quem me convidou para brincar pela primeira vez. Foi ele quem me olhou curioso esperando que eu devolvesse a bola. E assim eu fiz. Aquele primeiro chute foi libertador. Foi como chutar todos os problemas para longe de uma vez. E, assim, começamos a brincar. Começamos a brincar todos os dias. Começamos a brincar todas as tardes.

Eu conversava bastante com Matheus; porém, eu conversava somente as coisas que aconteciam em casa. Eu não compartilhava com ele as coisas que aconteciam na minha escola… primeiro que ele não tinha interesse algum em ouvir e, segundo, como eu poderia chegar para ele e dizer que gostava de um garoto lá?

Nem mesmo eu entendia essa minha atração por garotos que estava nascendo… como ele poderia entender? E, ainda acho que minha timidez acabou sendo um agravante… eu passava tempo demais observando como os outros garotos se comportavam… eu passava tempo demais observando como os garotos se interessavam por garotas… eu passava tempo demais observando como os garotos se arrumavam para ficarem bonitos… eu passava tempo demais observando os resultados que eles conseguiam com isso… eu passava tempo demais observando os garotos e pouco tempo agindo.

E, todo esse tempo observando, fez com que nascessem os mais diversos fetiches em minha mente. Logo, meu instinto sexual se manifestou de vez e, com meus noves anos, descobri a masturbação… mas essa história você já sabe. Acordei no meio da noite e estava passando um vídeo pornografia na televisão, que meu pai deixara ligado… e aí você já sabe… explorei minha sexualidade de um jeito que nunca havia feito antes. Se eu já gostava de garotos na época? Talvez sim, talvez não… não me lembro bem… mas provavelmente não… interesse eu tinha, mas gostar, gostar, eu ainda não gostava.

Como compartilhar isso com Matheus? Não tinha como. E, por isso, nossa amizade se resumiu na mais pura beleza e inocência. Criamos e vivemos um mundinho de brincadeira e fantasias juntos. Brincávamos todas as tardes, inventamos nosso toque que demorava infinito, aprontávamos muito, foi uma época boa.

Nossos pais não se importavam com a nossa amizade, muito pelo contrário, tanto minha mãe, como a de Matheus, apoiavam e encorajavam o nosso relacionamento inocente. Nossa época de ouro começou quando ele tinha seis anos e eu dez… e assim perdurou até ele fazer oito e eu onze.

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Depois disso, um pouco por ignorância minha, comecei a não dar tanto valor a nossa amizade. O fato de eu gostar de garotos me obrigou a amadurecer rapidamente e, Matheus, ainda continuava num mundinho muito infantil para mim. Mas pense bem… como ouvir seus pais falarem tão mal do homossexualismo e logo em seguida sair para brincar de pega-pega?

Eu precisava de ajuda para compreender esse meu gosto por meninos, mas Matheus não estava disposto a ajudar. Ele não estava disposto e muito menos pronto para entender.

Sim… eu ouvia meus pais falarem muito mal sobre o homossexualismo. Meu pai dizia coisas terríveis para minha mãe quando via um casal homossexual na rua. E minha mãe não só entendia, como concordava. Durante muito tempo, acreditei que tinha algo de errado comigo. E, durante muito tempo, eu não pude contar para ninguém… guardei para mim.

Acho que já falei demais… agora é com você, caro leitor… compile os fatos. Que tipo de futuro meu irmão poderia ter?

Alguém tinha de ama-lo. Alguém tinha de protege-lo. E, depois de receber essa notícia, eu só tinha certeza de uma coisa: Ele nem tinha nascido e eu já o amava mais do que a minha própria vida.

Repito, alguém tinha de ama-lo e esse alguém não seria meu pai… acho que nem mesmo minha mãe. Eu sei que, no fundo, bem no fundo, meus pais seriam gratos se eu não tivesse nascido. Eles jamais admitiriam isso, mas a vida deles ia ser bem mais fácil. A vida deles ia ser bem menos complicada. Se não fosse eu, eles não teriam nada um com o outro… e eu tinha certeza que eles prefeririam assim.

E, se eles já tinham tantas coisas contra mim, imagina o que teriam contra meu irmão? Ou irmã… vai saber…

Nossa situação financeira atual não era uma das melhores… e, por conta disso, outra coisa que eu também tinha certeza era de que, segunda-feira, eu estaria empregado, custe o que custasse… eu iria até o fim do mundo para dar as melhores condições de vida que essa criança poderia ter. As condições de vida que meus pais nunca me deram. Pois bem, eu teria um final de semana para buscar um emprego, pois precisava começar a juntar dinheiro o mais rápido possível.

E agora… agora eu não conseguia pegar no sono. Tentara, e como tentara, mas, a essa altura da noite, já havia desistido. Hoje ainda era quinta-feira… ou melhor… sexta… pois já se passara da meia noite.

Hoje, assim que cheguei em casa, recebi a notícia que ganharia um irmão. E meus pais discutiram… e como discutiram… discutiram mais do que eu jamais os vira discutir… porém, mal sabiam eles, o que tinha se passado na escola. Eles ainda não tinham a menor ideia sobre o Rafa… eles ainda não tinham a menor ideia sobre a verdade.

E eu só tinha certeza de uma coisa: Alguém faria questão de avisa-los. Seja a escola, seja a diretora, seja a família do Rafa, seja o próprio Rafa… alguém faria questão de avisa-los. Eu sabia que sim. E sabia também que seria por telefone. E, portanto, passei o dia todo com medo disso.

Vocês não têm noção… cada vez que o telefone tocava, meu coração se acelerava insanamente, eu ficava sem ar e minhas mãos começavam a tremer desesperadamente. Sério… que experiência horrível que eu passei hoje… a cada triiiim que o telefone dava, parecia que meu coração ia sair pela boca e que não havia mais oxigênio no ar… eu ficava totalmente sem fôlego e tangia o desmaio. Nem quando eu batia punheta minhas mãos tremiam tanto. Parecia que toda a atmosfera estava pegando fogo.

Aí era só minha mãe atender e dizer que não estava interessada em assinar um plano de TV que eu ficava completamente aliviado novamente.

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Se eu não contei para eles? Bem… tentei. Tentei doze vezes… e, doze vezes eu fracassei. Cara… não tinha como… simplesmente não tinha como… o dia deles já tinha sido carregado demais… como eu contaria que estou namorando meu melhor amigo? Como contaria tudo o que se passou na escola hoje? Simplesmente não tinha como…

E não contei. Não tive coragem. E agora, por causa disso, não conseguia pregar os olhos. Minha mente formulava as piores teorias sobre o que eles fariam se descobrissem, ou melhor, quando… quando descobrissem… não tinha como esconder uma história dessas por muito tempo… hora ou outra, chegaria nos ouvidos deles… hora ou outra, alguém faria questão de deixá-los por dentro da fofoca…

Só de pensar isso, eu ficava enjoado e com vontade de vomitar. Eu só sei que eu estava passando muito mal. Parecia que tinham espinhos na minha cama… eu não parava de me revirar… eu estava cansado, mas não estava com sono… parecia que tinha areia nos meus olhos… minha cabeça doía, minha testa e meu corpo suavam mesmo eu estando com muito frio. E a luz da lua cheia adentrava meu quarto e só realçava mais minha palidez… acho que eu nunca estivera tão branco. Era assustadora a cor do dorso da minha mão… estava branca igual papel…

Mas, o pior mesmo, era o que eu estava sentindo por dentro… parecia que tinha um furacão no meu peito… eu estava muito mal… parecia que meu interior estava se apertando contra mim… uma dor tinha se instaurado no meu peito e não queria sair… não era uma dor física, era uma dor psicológica…

E eu nem podia pensar em ligar para o Rafael… não depois do que tinha feito com ele esta tarde… não depois de abandona-lo em sua casa enquanto ele se arrumava para ir para a minha. Meu celular tinha pelo menos cem mensagens não lidas dele… e, só de pensar no que ele poderia ter me falado, eu já tremia… só de pensar no que poderia estar escrito nessas cem mensagens, meus olhos já ficavam úmidos… ele podia até ter terminado comigo, que eu não saberia dizer… e também não queria saber…

Não queria ler as mensagens dele pois estava com medo do que ele tinha dito ali… se ele tivesse feito comigo o que eu tinha feito hoje com ele, nem sei o que faria… acho que até bateria nele… só sei que meu celular tocou a tarde inteira… no mínimo vinte ligações perdidas do gatinho… e ele não sabia o que tinha acontecido… ele não sabia que meus pais ainda não sabiam e ele não sabia que eu ganharia um irmão…

Eu queria contar para ele, mas… ao mesmo tempo, não queria falar com ele… não sei o que estava sentindo… eu queria ficar sozinho… acho que a felicidade dele me incomodava um pouco… e eu sei que estava sendo extremamente egoísta… mas… o fato de ter dado tudo certo com ele me incomodava um pouco…. eu sei que não devia! Eu sei disso! Mas vê-lo feliz me incomodava um pouco… e isso me deixava mal… porque eu queria ficar feliz por ele, mas não conseguia!

Saber que seus pais tinham o aceitado… saber que ele tinha o melhor irmão do mundo… será que eu conseguiria ser um irmão mais velho tão bom quanto Gabriel era para o Rafa? Isso me deixava com medo… eu estava inseguro… eu não sei se aguentaria… mas enfim… só o fato de saber que Rafael estava dormindo tranquilamente uma hora dessas me incomodava… só de pensar que ele provavelmente estava sonhando com os anjos e dormindo com um sorriso no rosto me incomodava… e, mais uma vez, eu repito… eu sei que não devia, mas estava com inveja… estava com ódio disso…

Eu sei que ele tinha dito que passaríamos por tudo isso juntos… mas isso era mentira. Mesmo se ele tivesse vindo para casa comigo… mesmo se meus pais tivessem ouvido a verdade, eu passaria por tudo sozinho. Não era só porque eu estaria segurando a sua mão que ele estaria passando pelas coisas junto comigo. Muito pelo contrário… eu sei que no fundo ele não sofreria tanto quanto eu… ele já tinha uma família que o amava… ele não tinha problemas financeiros…

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ele não tinha problemas com a família… na verdade, ele não tinha problema nenhum! E ainda tinha um namorado. Sim… até o fato de eu amar tanto ele me incomodava… eu precisava dele… eu precisava muito dele… e eu não sei se ele precisava tanto assim de mim… o que eu seria sem ele? Nada… e o que ele seria sim mim? Ainda seria um príncipe com o mundo a seus pés… o Rafael era o tipo de garoto que beijaria quem quisesse, quando quisesse… ele era simplesmente irresistível… e eu não conseguia resistir… porque eu era tão frágil e dependente assim?

Ai que está! Era isso que estava me incomodando… eu precisava do Rafa, mas ele não precisava de mim! E eu queria que fosse o contrário… eu queria não precisar tanto dele… eu queria não amar tanto ele… e eu queria que ele me amasse muito! Mas era o contrário… e isso me deixava com raiva… o fato dele ter tudo me deixava com raiva… o fato dele me ter me deixava com raiva…

O Rafa tinha quem ele quisesse para si… e ele queria me ter… e eu não conseguia resistir! Ele jamais passaria pelo que eu estava passando agora… e isso também me deixava irritado. Ele dizia que passaríamos por tudo isso juntos, mas era tudo mentira! Era tudo mentira! Eu estava muito confuso agora… minha cabeça estava a mil… meus olhos não paravam de vazar e eu me sentia cansado… me sentia exausto.

E, se fosse só isso estava bom… mas não. Bom, deixe-me explicar… depois de receber a notícia que ganharia um irmão, precisei ir me deitar… não havia pés que me sustentariam àquela hora… fui me deitar e refletir um pouco sobre a vida. E, depois de passar uma hora olhando para o teto, resolvi ir tomar um ar lá fora.

Calcei meus tênis e saí de casa… precisava dar uma volta… precisava dar uma volta para clarear a mente… saí de casa e fui descendo a rua… e, quem é que eu dou de cara quando chego no quarteirão seguinte? Matheus.

Assim que desci o quarteirão e atravessei a rua, eu avistei Matheus a cem metros de mim. Fazia tempo que eu não falava com ele… e, para falar a verdade, eu não falava com ele desde o meu aniversário… há onze dias atrás. Engraçado que, nesse meio tempo, eu nem me toquei da ausência dele… tinha muitos problemas para resolver com o Rafa… mas, assim que eu o vi, foi como ter uma epifania. Você se lembra da última vez que eu vi o Matheus? Quer um tempo para pensar? Tente se lembrar… foi no meu aniversário… foi quando eu beijei o Rafa na frente dele… desde então, esse moleque sumiu. E agora que eu estava me dando conta disso.

Eu estava numa esquina, descendo a rua, e ele estava na outra, subindo. Assim que ele me viu, tratou logo de desviar o olhar e atravessou a rua… foi para o outro lado… filho da puta… estava me evitando! Eu também atravessei a rua, para ir para o lado dele, mas ele tratou de atravessar novamente e voltar para o outro lado.

― MATHEUS! ― Eu gritei.

Mas ele me ignorou. Atravessei a rua novamente e, quando ele percebeu que eu estava me aproximando, ele saiu correndo.

― MATHEUS! ― Eu gritei novamente.

Ele saiu correndo e eu tratei de correr atrás dele, mas ele era mais rápido que eu. E, quando eu não tinha mais ar nos meus pulmões, parei de persegui-lo e tentei recuperar meu fôlego. Filho da puta! Estava me evitando! Estava me dando um gelo! E agora que eu estava me tocando! Ele nunca mais falou comigo depois que me viu beijando o Rafa… e isso foi no mesmo dia em que a gente… erm… foi no mesmo dia que a gente se beijou… ele devia estar com raiva de mim! E agora que eu estava me tocando disso… merda… mais um problema para minha vida…

Depois disso, voltei para casa disposto a contar a verdade para meus pais… mas, como você já sabe, não deu certo. Foi só passar pela porta de casa para toda minha confiança ir por água abaixo.

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E agora, cá estava eu… divagando nos meus pensamentos noturnos… sem conseguir dormir… sem conseguir pregar os olhos. Já eram três da manhã e nada… minha cabeça continuava a mil. Já faziam cinco horas que eu estava deitado na minha cama, no escuro, pensando, sem conseguir dormir.

Tentei usar minha técnica do apagão… de bater uma para apagar logo em seguida… mas, pela primeira vez na vida, não funcionou.

Primeiro que minha mente já estava muito cheia, então, pra fazer meu pinto ficar duro já deu um trabalhão… tentei pensar em algumas coisas eróticas… tentei pensar no gatinho… mas isso só me deixava com mais raiva… então fiquei me acariciando até ficar duro o suficiente para conseguir me masturbar…

Joguei minhas roupas no chão, ao lado da cama, e comecei a me punhetar. Acho que essa foi a pior punheta que eu já bati… primeira que eu não estava muito excitado… eu só queria gozar logo para ver se pegava no sono… então, perdi a conta de quantas vezes estava esfregando meu pênis e de repente veio um pensamento pesado na minha cabeça que fez com que eu broxasse quase que instantaneamente. Quantas vezes eu estava me esfregando e de repente fui ficando mole no meio do processo… e precisava de pelo menos cinco minutos para ficar duro novamente…

Sem falar que meu pinto não soltava uma gota de pré-porra sequer… eu não estava excitado para isso… então estava minha pele estava muito ressecada, o que fazia com que a punheta ficasse dolorida… então, cada vez que eu esfregava meu pinto, sentia uma pontada de dor e meu pênis ardia com o atrito… estava horrível…

Me lembrei do sexo com o gatinho… quantas e quantas vezes eu tentei me segurar para não gozar… quantas e quantas vezes eu explodi no orgasmo sem querer… quantas e quantas vezes eu deixei minha cueca ensopada de pré-porra… acho que já faziam uns dez dias que eu e o Rafael não tínhamos uma relação sexual decente e satisfatória… dez dias sem sentir o corpo dele colado ao meu… a última vez tinha sido no meu aniversário… antes de tudo isso explodir… e eu estava com medo de que aquela tivesse sido a nossa última.

Continuei esfregando meu pênis sem vontade alguma… eu só queria gozar logo e experimentar a sensação de alívio… mas estava difícil… eu broxava de dez em dez minutos… só sei que demorei uma hora para gozar… assim que a atingi o orgasmo, suspirei aliviado:

― Aaaaaa…

Levei uns dez segundos para recuperar o fôlego enquanto a porra ia escorrendo pelos meus dedos… agora que tinha gozado e tinha lubrificado meu pinto, fiz mais alguns movimentos de vai e vem e percebi que meu pênis estava muito dolorido… acho que tinha esfregado ele demais… estava muito sensível e ardia… dei uma olhadinha para baixo e ele estava muito avermelhado… e coberto de porra…

Meus dedos também estavam cobertos de porra e o cheiro tinha tomado conta do quarto… me deu uma preguiça gigantesca de ir me limpar no banheiro… se eu pelo menos tivesse gozado na cueca, o tecido de pano teria contido a porra… mas não… eu tinha arrancado toda minha roupa… na hora parecera uma boa ideia… mas agora eu estava arrependido, olha a sujeira que eu tinha feito…

A porra começou a escorrer pelos dois lados da minha cintura, então, não tinha lado que se eu virasse, impediria que ela pingasse na cama… aff…

Eu ainda segurava meu pinto dolorido com a mão direita… daí, mandei um foda-se e limpei minha mão no lençol da cama mesmo… acho que eu nunca faria isso se não estivesse tão fodido psicologicamente quanto estava agora… eu estava tão puto com a vida que limpei minha mão no meu lençol mesmo… e foda-se. Eu estava deitado de barriga para cima, mas mandei outro foda-se e me deitei de barriga para baixo, sujando toda minha cama mesmo…

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Me masturbei, mas isso não me ajudou a dormir. Pela primeira vez, minha técnica infalível de bater punheta para dormir, não funcionou… na verdade, só piorou as coisas…

Agora que eu tinha gozado, minha mente estava mais clara… meu raciocínio tinha disparado novamente e milhares de coisas cruzaram minha mente. Por um momento desejei o Rafa aqui comigo… ah… como eu precisava dele… como eu precisava dele aqui comigo… o misto de amor e ódio voltou a balançar minha cabeça e me fazer ficar confuso novamente.

E eu estava com medo do dia de amanhã… eu teria que encarar o Rafa novamente… e eu não sei o que ele falaria para mim… e pior, eu teria que encarar a escola toda… o que será que as pessoas iam falar? Como será que elas se comportariam comigo? Só o fato de imaginar todo mundo falando de mim, já me fazia odiar aquele lugar… eu estava com raiva das pessoas… eu estava com raiva delas… porque ninguém podia cuidar a própria vida? Por que as pessoas têm que falar sobre as outras? Isso me deixava irritado…

E, eu também estava com medo do Rafa me abandonar amanhã… e se ele me abandonasse do mesmo jeito que fiz com ele hoje? Ele ainda tinha o Igor e o Miguel… mas eu não tinha ninguém… o Arthur era de outra sala… e se eu ficasse sozinho amanhã? Só sei que eu estava com muito medo do que estava por vir…

Não consegui dormir essa noite. Foi a pior noite da minha vida. Eu não tinha mais ninguém para desabafar e o mundo estava colidindo contra mim… tudo estava acontecendo de uma vez… era como se deus tivesse tirado o dia para agir contra mim… a maldade de Hermes… o abandono do Rafa… o medo dos meus pais… o gelo do Matheus… a notícia que eu ganharia um irmão… o colapso e a epidemia na escola… tudo de uma vez… tudo de uma vez!

Quando foram por volta das cinco e quarenta da manhã, não era mais noite e o céu estava azul escuro. O cansaço falou mais alto e o sono apareceu… mas agora era tarde demais para dormir… logo, logo eu teria que acordar para a aula… peguei o Teddy, abracei ele e logo peguei no sono…

Algum tempo depois, quando eram por volta de seis e meia, acordei com batidas na porta:

― Lucas! Acorda! Já são seis e meia! Você vai se atrasar para a escola! ― Era meu pai.

Acordei igual um zumbi. Parecia que tinha um terremoto na minha cabeça. O que eu mais queria agora era faltar… mas não podia… tinha que resolver meus problemas… mas voltei a botar minha cabeça no travesseiro e apaguei.

Acordei dez minutos depois com meu pai abrindo a porta.

― Você não vai?

Rapidamente, eu puxei meu lençol e cobri meu quadril nu, tinha esquecido de botar uma roupa antes de dormir.

― Não! Eu vou! Me espera, por favor! ― Eu disse com a voz rouca.

― Então anda logo e bota uma roupa que eu já estou saindo! ― Ele disse.

Me levantei rapidamente e me vesti. Vesti a camiseta branca com mangas azuis escuras do Colégio Nova Aliança e também uma calça jeans azul. Calcei meus tênis e escovei meus dentes rapidamente. Já eram seis e cinquenta e a aula começava às sete. Já comecei meu dia bem… bem atrasado… só o trajeto casa-escola levava quinze minutos.

Enfim… peguei minha mochila, entrei no carro e parti para a escola.

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| Episódio 34 ― Trauma

Durante o percurso casa-escola, percebi que o dia estava escuro. O céu estava nublado, tinha cor de chumbo e estava doido para chorar. Somente as gotas mais atrevidas de água se desprendiam do céu e se atiravam na imensidão do vazio, para se transformarem em lágrimas de chuvas. Não fazia nem calor nem frio… era um dia vazio de emoções.

Eu estava atrasado. Não costumava chegar esse horário na escola. Eram 07h10. Não tinha mais nenhum aluno fora de sala. Os corredores estavam estranhamente vazios e silenciosos. Só dava para ouvir a chuvinha rala que caía lá fora. Cheguei na porta do sexto ano e me deu vontade de chorar. Olhei para os lados, para ver se tinha alguém para me ajudar, mas, infelizmente, eu estava sozinho.

Contei até três e abri a porta. A professora estava fazendo chamada quando eu entrei. Ela parou de falar, me observou e tentou o mais rápido possível disfarçar e voltar para a chamada, mas a sala começou a cochichar.

Eu não olhei para todos os rostos da sala, como costumava fazer. Ao invés disso, eu olhei apenas para um específico… olhei para o Rafa. Fiquei decepcionado quando vi que seus olhos estavam sem vida. As duas safiras não brilhavam como antes e o cansaço estava estampado em seu rosto. Ele me olhou de volta e eu pude sentir o peso de seu olhar.

Enquanto me dirigia para minha carteira, no fundo da sala, ao lado do gatinho, a professora perdeu o controle da sala. As crianças estavam muito barulhentas e elas não estavam prestando atenção na chamada.

― Crianças! Crianças! Foquem aqui! Vamos lá! ― Ela advertiu.

Eu cheguei na minha carteira e, quando passei pelo Rafa, disse com a voz fraca e rouca:

― Oi…

― E aí… ― ele respondeu secamente e voltou a ficar atento à professora.

Eu sentei na minha carteira e peguei meu caderno. Olhei novamente para o Rafa, mas ele não estava olhando para mim. Droga… eu sabia que ele estava chateado comigo… e eu queria poder mudar isso.

Escrevi no canto do meu caderno “Desculpa…”, rasguei esse pedacinho, dobrei e entreguei para ele. A princípio ele me ignorou e fingiu que não estava vendo. Daí precisei chama-lo.

― Rafa! Ei… psiu!

Ele, sem querer, me olhou e tomou o papelzinho da minha mão. Daí ele desdobrou, leu, amassou e colocou no canto da carteira, voltando a prestar a atenção na aula.

Não feliz com isso, eu escrevi em outro papelzinho “Me desculpa? ”, rasguei, dobrei e entreguei para ele.

Ele novamente pegou da minha mão, desdobrou, leu, amassou e colocou no canto da carteira, ao lado do outro, e voltou a prestar atenção na aula.

Não feliz com isso, eu escrevi em outro papelzinho “Me desculpa? ♥”, sim… botei um coração ao lado… rasguei, dobrei e entreguei para ele.

Ele, novamente, pegou da minha mão, desdobrou e leu. Quando ele viu o coraçãozinho ele soltou um risinho sem querer. Ele, tentando parecer bravo, tratou logo de esconder o sorriso e voltou a focar na aula.

Daí eu escrevi em outro papelzinho: “Precisamos conversar”. Assim que ele leu, ele levantou a mão e disse para a professora:

― Professora, posso ir ao banheiro?

― Claro, meu querido… ― ela respondeu.

― ―

265

E assim, ele se levantou e saiu da sala. Acontece que, eu não sabia se ele tinha ido ao banheiro mesmo ou se tinha ido lá fora para conversar comigo… e, mesmo se ele tivesse saído para conversar comigo, eu não poderia sair. Imagina a reação da sala se eu e o Rafa saíssemos para irmos ao banheiro juntos… a galera não ia perdoar… então, não confortável com a situação, não pedi para sair de sala.

Rafa demorou muito para voltar… coisa de dez minutos… acho que ele realmente tinha ficado lá me esperando… mas eu era tímido demais para sair assim… diferentemente do Rafa, que não hesitava em expressar suas vontades, eu não tinha coragem de levantar a mão para pedir para sair… ainda mais com a sala toda fazendo piadinhas sobre nós pelas nossas costas.

Quando ele voltou, me olhou sério enquanto se sentava em sua carteira.

― Pensei que você quisesse conversar. ― Ele soltou.

Eu ia responder, mas a professora estava de olho em nós… ela não tirava o olho da gente. Talvez ela estivesse curiosa também… daí eu simplesmente fiquei em silêncio e tentei prestar atenção na aula.

No geral a aula correu bem. Tudo estava andando… não vou dizer ‘bem’ porque, se eu dissesse isso, estaria mentindo… mas tudo estava andando… okay…

De meio em meio minuto, alguém da sala dava uma olhadinha em mim. Em mim e no Rafa. Todo mundo estava curioso. Todo mundo estava inquieto e morrendo de vontade de saber de mais alguma fofoca… loucos de vontade de se alimentarem da vida dos outros.

Tudo estava andando okay… até que, na metade da segunda aula, a porta se abriu e a diretora apareceu. Na mesma hora eu gelei. Eu sabia do que se tratava… a diretora quase nunca dava as caras na sala… só quando os assuntos eram realmente importantes… e eu acho que o fato de ainda existirem fotos minhas perdidas por aí nos corredores da escola poderia ser considerado um assunto importante.

― Com Licença, professora… posso levar dois meninos comigo?

Ela não precisava nem dizer os nomes, a sala toda já sabia… e a professora também… mas ela disse mesmo assim:

― Lucas Montenegro e Rafael Mackenzie.

Na mesma hora, levantei com meu coração acelerado e com minhas pernas bambas. O Rafa também se levantou, daí nós dois caminhamos até a porta. Saímos do sexto ano e a diretora nos recebeu. Me deu um aperto no peito… eu não sabia o que estava por vir… daí meu nariz começou a ficar úmido junto com meus olhos. Meus lábios começaram a tremer e eu olhei para o chão. Rafa percebeu meu desespero e tentou me acalmar.

― Você está bem, Lucas? ― Rafa perguntou.

Eu não respondi, apenas olhei para a diretora.

― Ei… calma Lucas… a gente só vai conversar… está bem? Vocês não estão encrencados… muito pelo contrário… só quero esclarecer tudo! É a primeira vez que estamos lidando com isso, então… não sabemos muito bem como agir, tudo bem?

Certo… isso tinha me tranquilizado um pouco. Daí tentei me recompor enquanto acompanhava ela até a sua sala.

Chegamos na sala da diretora e era um ambiente bem intimidador. Era o tipo de ambiente que deixaria qualquer aluno displicente extremamente desconfortável. A sala não era muito grande. Tinha uma mesa enorme no centro, uma poltrona no lado da diretora e duas cadeiras no lado dos convidados. Também tinha uma bandeira do Brasil e uma biblioteca com livros pedagógicos.

Eu e o Rafa entramos e nos sentamos nas cadeiras dos convidados, enquanto a diretora tomava seu lugar na poltrona presidencial.

― Certo… é… hum… meninos… primeiramente, como estão?

― ―

266

― Bem. ― Rafa respondeu, mas eu fiquei em silêncio. Apenas olhei para ela atentamente.

― Entendo… certo… erm… vocês podem me explicar o que aconteceu? ― Ela perguntou.

― Acredito que a senhora já saiba, senhora diretora. Hermes aconteceu. ― Rafa disse.

― Sim… certo… erm… não queria falar sobre ele agora, mas… vocês têm alguma ideia de onde ele esteja no momento?

Por que ela estaria perguntando uma coisa dessas? Como se eu e o Rafa fossemos nos importar com o paradeiro do Hermes…

― Não sei… ― Rafa respondeu.

― Tem alguma ideia, Lucas? ― Ela perguntou para mim.

Eu fiz que não com a cabeça.

― O Hermes está internado. Ele quebrou o nariz, está com os dois olhos roxos, e teve uma fratura na costela… o que provocou uma pequena hemorragia interna. A situação dele não é grave, mas o garoto está mal…

― Ele teve o que mereceu. ― Rafa respondeu secamente.

― O senhor está enganado, mocinho. Gabriel passou dos limites. Se ele ainda fosse nosso aluno, ele seria expulso. Ele teria que batalhar muito para que isso não acontecesse. A Nova Aliança não tolera nenhum tipo de violência…

― Então Hermes será expulso? ― Rafael disse se levantando da cadeira.

― Olha, meninos, eu entendo que vocês passaram… mas, infelizmente, o que ele fez não é motivo suficiente para expulsá-lo.

― O QUE? ― Rafa gritou.

― Rafael. Eu entendo que você e o Lucas estão com raiva… eu entendo que ele expôs vocês de uma forma completamente errada e antiética, mas com isso eu só consigo suspendê-lo…

― Você realmente não tem noção nenhuma do que ele fez com a gente… não é? ― Rafa disse com um tom ofensivo.

― Calma, Rafael.

― ELE… ELE… ELE QUERIA ESTUPRAR O LUCAS!

― Rafael, se acalme. ― Ela disse em tom autoritário.

― ELE MIJOU EM MIM! E O BRENO! O BRENO BATEU NA GENTE!

― Rafael! Se acalme! Sente-se! Tudo bem… me conte tudo… desde o começo.

O Rafa, com lágrimas de raiva nos olhos, voltou a se sentar na carteira e começou a falar:

― Hermes! Ele levou a gente para o Bloco Leste! E lá, ele pegou um cabo de vassoura e enfiou na boca do Lucas! Depois, se eu não tivesse impedido, ele teria enfiado o cabo no cú dele!

A diretora se mostrou assustada nessa hora… tanto pela situação, quanto pelo palavreado displicente que o Rafa acabara de usar.

― Depois, ele me fez beber leite vencido e disse que colocou esperma lá! Porra! Diretora! Ele botou porra lá! Pelo amor de deus! Tudo isso enquanto o Breno segurava a gente a força!

Nessa hora, a diretora olhou para mim e disse:

― Isso é verdade, Lucas?

E eu estremeci só de lembrar os acontecimentos do dia anterior.

― Sim senhora.

― Certo… olha… tudo bem… se isso for mesmo verdade… Hermes e Breno serão expulsos, vocês têm ideia das implicações disso?

― SIM! ― Rafa gritou. ― ELES TÊM QUE SER EXPULSOS!

― ―

267

― Sim, Rafael, talvez sim… mas isso não muda o fato de que Gabriel fez uma coisa muito errada. No mínimo cinquenta crianças presenciaram a agressão e existem cerca de quinze vídeos diferentes da surra. Chegou num ponto que você pode escolher o ângulo que deseja ver Gabriel violentando Hermes! A escola terá que dar parte na justiça contra ele.

― O QUE? ― Rafa gritou.

― Sinto muito, Rafael, mas não podemos fazer nada contra isso.

― Foi uma briga na escola, pelo amor de deus! ― Ele reclamou.

― Exatamente. E por que você diz isso como se não fosse nada demais?

― Porque não é!

― É sim, mocinho! E, voltando ao assunto Hermes, vocês estão fazendo acusações muito graves… Rafael, estamos falando de desligamento da escola. Isso é sério. Olha… eu queria que fosse, mas… não é tão simples assim…

― COMO NÃO? ― Rafa gritou. ― JÁ SEI DO QUE ISSO SE TRATA! VOCÊ NÃO ACREDITA EM NÓS! Você não sabe do que o Hermes é capaz! Ele tem que ser expulso! Não é culpa nossa que não temos provas do que ele fez contra a gente! Mas a senhora tem que acreditar! Estou dizendo! Por que mentiria sobre uma coisa dessas?

― Rafa. ― Eu disse com calma. Ele precisava se acalmar.

Quando ele me ouviu chamando seu nome, ele percebeu que estava sendo incoerente gritando, daí se acalmou. Ele se jogou na cadeira e suspirou impacientemente.

― Olha, nós temos uma equipe de psicólogos aqui na escola… tudo bem? Eu vou agendar uma consulta para vocês dois… eu sugiro que vocês tentem conversar e colocar tudo para fora para os nossos psicólogos, tudo bem? Sendo que, eu estava querendo marcar uma consulta individual, para cada um de vocês; uma consulta coletiva, onde vocês dois podem ir juntos; e uma consulta com a família de vocês… para vocês conversarem com os psicólogos em conjunto com os seus pais. Mas isso eu vou explicar para eles quando eles chegarem aqui.

Nessa hora minha pressão caiu. Minhas mãos começaram a tremer e eu senti tudo se escurecendo. Eu fiquei com muito frio e tudo começou a rodar. Ela tinha dito isso mesmo? Quando nossos pais chegarem aqui?

― Lucas? ― Rafa me chamou. ― Lucas? Você está bem?

― LUCAS? ― A diretora gritou.

― Meus pais? ― Me esforcei para soltar essa pergunta.

Encostei minha cabeça na cadeira, porque se eu não fizesse isso, iria desmaiar.

― Lucas? Lucas? ― A diretora saiu da sua cadeira presidencial e veio se ajoelhar do meu lado. O Rafa também se ajoelhou do meu lado e segurou minha mão.

― Eles… ― Eu tentei falar. ― Eles não sabem…

― VOCÊ NÃO CONTOU PARA ELES? ― O Rafa exclamou.

Mas eu não consegui responder. Eu estava passando muito mal. Minha cabeça doía e tudo girava e girava. Eu estava muito tonto, com as vistas cansadas e com frio. Eu estava com muito frio. Meu corpo estava fraco e eu não conseguia recuperar minhas forças. Eu estava com muito medo.

― Lucas… Lucas… ― O Rafa me chamava e chamava…

Eu estendi os braços para o gatinho e pedi um abraço. Ele, que estava ajoelhado ao meu lado, veio me abraçar preocupado. A diretora, completamente perdida e sem saber o que fazer, voltou a se sentar em sua poltrona e nos deu um momento.

― Não contei… Rafa… eles ainda não sabem… me perdoa… ― Eu disse enquanto agarrava seu pescoço com todas as minhas forças.

― Não tem problema… a gente conta agora… então… ― ele disse.

― Tá… ― eu disse com a voz rouca.

― ―

268

Depois de mais ou menos um minuto me abraçando, ele me soltou e voltou a se sentar em sua cadeira.

― Então… eles ainda não sabem, Lucas? ― A diretora perguntou.

― Não senhora.

― Não falou nadinha de nada para eles?

― Não consegui… ― Eu disse e uma lágrima escorreu do meu olho.

Coloquei a mão na testa e abaixei a cabeça. Daí comecei a chorar muito… desesperadamente.

Nessa hora, a porta da sala se abriu e a Flávia, a secretária, disse:

― Senhora Lúcia… a senhora Olívia e o senhor Danilo acabaram de chegar…

― Ah… entendo… peça para eles entrarem, por favor, Flávia… ― A diretora disse.

Os pais do Rafa tinham chegado… e, a qualquer momento, os meus poderiam chegar. Dona Olívia e seu Danilo entraram na sala e me encontraram desesperado.

― Deus do céu! O que aconteceu, Rafael? ― Sua mãe perguntou.

Nessa hora, o Rafa foi até ela e explicou a situação… que eu não tinha contado para meus pais e que agora eles estavam vindo para cá.

― Lucas, meu querido. ― A mãe do Rafa disse. ― Ei… meu amor… relaxa… ei… relaxa… ― Ela disse passando a mão nas minhas costas. ― Olha, vamos conversar com seus pais, tudo bem? Você não precisa se preocupar com nada…

Nessa hora, confesso que fiquei muito aliviado. Se os pais do Rafa resolvessem meu problema, seria a melhor coisa do mundo.

― Tá bom, meu querido? A gente vai conversar com eles… agora você precisa se acalmar.

― Obrigado… ― Eu disse entre as lágrimas.

― Lucas, meu deus, não precisa agradecer… estamos aqui pra você, meu amor. Se acalma, tá bom?

Eu fiz que sim com a cabeça.

Bom, acontece que, depois disso, a diretora conversou um pouco com os pais do Rafa sobre os psicólogos, orientou como é que funcionaria, conversou um pouco sobre o homossexualismo e disse que era a primeira vez que a escola enfrentava um problema assim.

Dona Olívia quase fez um barraco quando soube que Hermes ainda não tinha sido expulso e quase deu uns tapas na diretora quando ouviu a história que ela queria fazer um boletim de ocorrência contra Gabriel. Acontece que, o Gabriel e o Rafael não tinham uma fama muito boa dentro da escola… academicamente falando… e, por causa disso, parecia que a diretora não gostava muito da família Mackenzie, por serem uma família causadora de problemas no ambiente escolar… enfim… acontece que, talvez, graças a minha boa fama, a diretora tenha ficado mais disposta a ouvir o que os pais do Rafa tinham a dizer.

Bem, acontece que, eles conversaram durante um bom tempo até que… até que meus pais chegaram. Sim, infelizmente, eles chegaram… infelizmente, eles vieram… infelizmente, eles atenderam ao chamado da diretora.

― Dona Lúcia… o senhor Luciano e a senhora Ana acabaram de chegar… ― Flávia disse quando abriu a porta.

Agora, definitivamente, parecia que eu estava caindo num buraco. Eu estava com muito medo… com muito medo do que meus pais pensariam. Agora seria a hora que eles saberiam a verdade, pensei comigo mesmo… agora seria a hora que eles conheceriam seu filho de verdade… depois de tanto tempo vivendo na mentira, agora seria a hora que eles me aceitariam ou não.

― ―

269

Assim que a Flávia terminou de falar, eu fiquei completamente desorientado. Eu já tinha um discurso pronto… mas agora… agora ele tinha fugido da minha mente… desaparecido… eu simplesmente não sabia o que falar… só queria sair dali correndo… só queria que eles entrassem e a diretora dissesse que tudo tinha sido um engano. Mas não. Não foi o que aconteceu.

Meu pai entrou primeiro, com uma expressão séria no rosto. Ele entrou e observou todos que estavam na sala… eu, o Rafa, dona Olívia, seu Danilo e a diretora Lúcia. Olhou um por um e disse num tom assustadoramente sério:

― O que foi que você fez, Lucas?

Logo em seguida, minha mãe entrou. Ela estava um pouco assustada e não tinha ideia do que estava por vir. Agora a porra ia ficar séria.

― Lucas? ― Minha mãe perguntou.

― Vocês não têm mesmo ideia do que isso se trata, não é? ― A diretora tratou logo de indagar.

― Era para saber? ― O meu pai perguntou. ― Porque no telefone vocês disseram que só queriam conversar… não especificaram o assunto. Mas o que esse menino fez agora?

― Lucas… ― A diretora me chamou.

Eu sabia que agora era a hora de falar. Mas me faltou força… me faltou pulso forte. Daí eu abaixei a cabeça e comecei a chorar. Eu sei que, se a situação fosse outra, o gatinho iria me dar um abraço ali mesmo. Mas agora ele estava assustado. Tão assustado quanto eu. Ele não chegaria perto de mim nem se lhe dessem todo dinheiro do mundo.

Quando a diretora percebeu que eu tinha fraquejado e que não ia falar, ela foi até sua gaveta e retirou uma folha de papel A4. Dava para ver por trás da folha que era a nossa foto. Era uma foto minha e do Rafa nos beijando no Bloco Leste.

A diretora, então, com uma enorme falta de sensibilidade, simplesmente entregou a foto para o meu pai.

― Que porra é essa? ― Ele disse num tom que já era possível se identificar raiva e impaciência.

― Não… Lucas… não… você não fez isso… ― Minha mãe disse colocando as mãos na cabeça.

― QUE PORRA… É ESSA, LUCAS? ― Meu pai gritou.

Ele virou a foto para mim e começou chacoalha-la na minha cara. Eu não queria encara-lo, daí virei a cara e tentei olhar para o chão. Ele chegou mais perto de mim e esfregou o papel na minha cara.

― PERDEU O JUIZO, MOLEQUE? VIROU VEADO?

Nessa hora, um clima péssimo se instaurou naquela sala. Eu não fui o único que me senti ofendido com essa última frase. O Rafa também se sentiu mal e, toda família dele achou ruim o modo como meu pai falou, pois, afinal, meu pai estava chamando o filho deles de veado também…

― Perdeu o juízo? Foi isso? O que? Agora vai começar a beijar homem?

Minha mãe também estava meio descontrolada. Ela colocou as mãos na cabeça e ficou em silêncio me olhando. Só meu pai falava naquela sala… e ninguém mais tinha coragem de intervir.

― Hein? Virou veado? Que porra é essa, Lucas?

Nessa hora, ele amassou a nossa foto e jogou a bolinha de papel na minha cara. Daí ele agarrou meu braço e disse.

― NÃO TE CRIEI PRA ISSO, SEU FILHO DE UMA PUTA!

Nessa hora, a mãe do Rafa fez um sinal para o pai do Rafa intervir, pois a coisa estava ficando séria.

― ―

270

Seu Danilo se aproximou do meu pai, botou a mão no ombro dele e disse:

― Ei, se acalma.

Meu pai perdeu o controle e gritou:

― Tira a mão de mim, porra! ― Ele disse dando um tapa na mão do pai do Rafa. ― O que? Vocês incentivam isso? Que porra de pais são vocês? Vocês apoiam isso? ― Ele perguntou para os pais do Rafa.

― Olha, seu Luciano… ― Dona Olívia começou. ― Isso é mais normal do que o senhor pensa… eles estão numa fase difícil e é importante o apoio dos pais…

― Fase difícil? ― Meu pai disse cortando o que a mãe do Rafa falava. ― Fase difícil? Esses moleques não fazem porra nenhuma! São dois mimados que não sabem o que é a vida de verdade! Nunca trabalharam na vida! Não têm responsabilidade nenhuma! E aí ficam sem ter o que fazer e ficam procurando veadagens! Me dá nojo saber que vocês apoiam isso!

Minha mãe estava em silêncio. Eu sei que essa discussão e esse nível de estresse não eram saudáveis para o bebê.

― Olha… você não tem direito nenhum de falar do nosso filho assim. ― O pai do Rafa reclamou. ― Você nem o conhece para chama-lo de mimado!

― É mimado sim! Vocês todos são! Bando de riquinhos mimados! Não sei como não estou surpreso por vocês apoiarem essa porra. Filho meu não é veado. Isso é culpa do filho de vocês. Não o criaram direito.

― Ah… cala boca! ― O pai do Rafa disse apontando o dedo para o meu. ― Cala essa boca! Sério? Culpa nossa? Culpa nossa os meninos se gostarem?

― SIM! Isso é falta de vergonha na cara! Isso é falta de educação!

― O que você sabe sobre educação? ― O pai do Rafa disse tentando argumentar.

― Inacreditável! Inacreditável como vocês são todos irresponsáveis a ponto de permitirem uma coisa dessas. E você, Lucas… nós vamos voltar para a Maria Emília agora mesmo. Eu sempre soube que essa droga de escola era uma furada. Vem!

― Espera! ― A diretora gritou quando meu pai agarrou meu braço. ― Senhor Luciano, se acalme! Vamos conversar! Seu filho passou por um trauma e precisa se recuperar. Troca-lo de escola só vai piorar a situação…

― Trauma? Que trauma? Trauma quem está passando sou eu. A senhora tem filhos, dona diretora? ― Meu pai perguntou ironizando as palavras senhora e dona.

― Não, mas tenho duas filhas.

― O que faria se as pegassem beijando outras mulheres? ― Ele perguntou ofensivamente.

― Eu daria todo o apoio que elas precisassem! ― A diretora respondeu.

― Todo o apoio o seu cú. Até parece. Mas o que eu estou fazendo? Discutindo com uma mulherzinha que se acha politicamente correta. Aff… vamos embora, Lucas.

Ele disse e agarrou meu braço novamente.

― ESPERA! ― Dona Olívia gritou. ― O que você acha disso? ― Ela perguntou para minha mãe.

― O que eu acho? ― Ela respondeu com uma pergunta porque não sabia o que dizer.

Eu sabia que, no fundo, minha mãe estava do lado do meu pai. Não por ele estar certo nem nada disso… mas simplesmente porque ela achava que era dever dela apoia-lo em qualquer decisão. Acho que, no fundo, ela não tinha nenhuma opinião formada e… se meu pai me apoiasse, ela provavelmente ficaria do meu lado também… mas agora estava acontecendo o contrário e ela estava dividida.

― Bom… acho que… continuar nessa escola não vai ser o melhor para o Lucas e nem para o seu filho.

― ―

271

Nessa hora eu olhei para o Rafa… que me olhou de volta assustado.

― Mas a senhora não acha que podemos resolver tudo sem estragar o futuro acadêmico do seu filho? ― Dona Olívia disse.

― É… senhora Ana… aqui ele está tendo aulas de olimpíadas internas… se você muda-lo de escola, ele vai perder isso… e vai perder muitas outras oportunidades. ― A diretora disse.

― Que perca! ― Meu pai gritou. ― Antes isso do que ele veado!

― Mas troca-lo de escola não vai mudar a orientação sexual dele! ― Seu Danilo tentou argumentar.

― Foda-se. Aqui ele não fica. ― Meu pai gritou.

Nessa hora, o Rafa abaixou a cabeça e começou a chorar. Eu fiquei tão mal de ver ele chorando que até parei de chorar.

― E isso também é culpa da senhora. ― Meu pai disse para a diretora. ― Que permite esse tipo de comportamento dentro da sua escola! Debaixo do seu nariz!

― Opaaa! Pera aí! ― A diretora disse tentando se defender.

― É sim senhora! E vocês também são culpados! ― Ele disse para os pais do Rafa. ― Se eu fosse vocês, tomaria as casinhas e as bonecas do loirinho aí o mais rápido possível. Antes que ele fique doente pra sempre…

Cara… que vergonha alheia que me deu quando meu pai falou isso… olha aonde ele estava se intrometendo… se os pais do Rafa não fossem tão pacifistas, acho que sairia uma briga de socos aqui.

― Vamos sair daqui, Lucas.

Dessa vez, ele agarrou meu braço sério e me puxou com todas as suas forças, como se um pouco de violência me faria ser mais masculino. Daí ele me botou de pé e saiu me puxando. Eu, sem saber muito o que fazer, fui sendo puxado à força para fora daquela sala.

Todo mundo ficou olhando perplexamente. Sem coragem de agir. Sem saber o que fazer. E, todo mundo viu meu pai me levando embora daquele lugar sem dizer mais uma palavra sequer. Estavam todos assustados com a sua ignorância e violência. Minha mãe limpou as lágrimas dos olhos e saiu daquela sala também.

Enquanto saíamos, olhei para trás… para o Rafa… ele estava com os olhos vermelhos e estava, acima de tudo, assustado… assustado com tudo… assustado com quão grosso meu pai sabia ser… ele não esperava por isso. E assim, enquanto eu olhava para trás, o gatinho ia se distanciando de mim… íamos ficando mais afastados…

Tudo estava andando em câmera lenta, eu só via as pessoas mexendo os lábios dizendo: “Espera! Espera! ”… mas eu já não ouvia nada… estava muito longe para isso.

Não sei porque, mas me veio uma cena na cabeça… me lembrei de ontem… na casa do Rafa… quando a dona Olívia disse: “Se os dois mantiverem uma relação saudável… benéfica… se os dois se respeitarem, nos respeitarem, respeitarem os pais do Lucas, e que estes estejam de acordo…”

Fiquei repetindo isso na minha cabeça… “e que estes estejam de acordo… e que estes estejam de acordo…” eles não estavam… e agora? Estava tudo terminado? Esse era o fim do nosso namoro inocente?

Porque eu e o Rafa só conseguíamos namorar decentemente na casa um do outro… e agora? Eu nunca mais poderia ir na casa dele… ele nunca mais poderia ir na minha casa… ou pior… eu não poderia ir na casa de nenhum outro menino… e nenhum outro menino poderia ir na minha casa… e Matheus? Será que meus pais ainda permitiriam ele me visitar? O que será que meus pais falariam para a mãe do Matheus? E se a mãe do Matheus pensasse que eu estivesse fazendo coisas inapropriadas com ele? Como de fato fizera?

― ―

272

Será que essa seria a última vez que eu veria as paredes do Nova Aliança? E se eu nunca mais visse a galera daqui? Igor… Miguel… Arthur… Sarah… todos eles… eu não sabia muito o que pensar… estava extremamente desorientado.

E, sendo puxado pelo braço, passamos pelo portão de saída da escola. Eu, meu pai e minha mãe agora estávamos fora dos limites da escola. Chegamos perto do carro e meu pai me soltou. Eu continuei andando até ele me chamar.

― Ei!

Ao ouvir o som de sua voz autoritária, parei de andar e me virei. Quando olhei ele nos olhos, a próxima coisa que vi foi sua mão estendida vindo em minha direção com uma velocidade absurda. O som do estalo que sua mão fez em meu rosto ecoou por todo espaço vazio que circundava a escola.

― LUCIANO! ― Minha mãe gritou.

― Isso é pra você aprender a parar com essas veadagens. ― Ele disse e apontou o dedo na minha cara. ― Não te criei pra isso. Não te levei na porra de um puteiro pra isso.

― O que? ― Minha mãe gritou. ― Luciano? Você levou ele num puteiro?

― LEVEI! E pelo visto não adiantou! Continua desmunhecando!

― Meu deus! ― Minha mãe gritou e colocou as mãos na cabeça.

― Vamos sair logo daqui que eu não aguento mais…

― Luciano! Meu deus! Ele é só uma criança!

― Que criança o que, Ana! Na idade dele eu já colocava dinheiro em casa.

Ele disse e entrou no banco do motorista, batendo a porta com todas as suas forças. Minha mãe entrou no carona e eu entrei no banco de trás. Meus olhos ardiam e minha cabeça doía de tanto que eu tinha chorado.

Nessa hora, ficamos os três em silêncio. Não tínhamos mais o que discutir. Meu pai estava estressado e minha mão preocupada. Ele deu partida no carro e saiu.

Durante o caminho de volta para casa, eu pensei em muitas coisas… minha cabeça estava inundada de dúvidas, questionamentos e incertezas… eu não sabia como seria minha vida daqui para a frente… só tinha certeza de uma coisa: Seria uma merda. Eu estava acabado… o que eu mais queria era voltar no tempo… voltar no tempo em que eu e o gatinho namorávamos escondidos sem problema nenhum… voltar no tempo para uma época que eu não conhecia a Vicky… voltar no tempo para uma época em que eu nunca tinha beijado ninguém e o Rafa me mostrara como fazer…

Eu estava muito chateado com tudo isso… e, se ontem os pensamentos do Rafael eram claros como a lágrima de uma criança, hoje, eu já não fazia ideia do que ele estava pensando… depois de tudo isso… eu não sabia como ele estava… e agora? Como continuaria nossa relação? Se nem eu estava disposto a enfrentar meus pais para continuar… como ele os enfrentaria? Acho que a melhor coisa a se fazer era desistir. Terminar de vez… arrumar uma namorada, quem sabe?

Eu estava completamente perdido em meus pensamentos quando o carro parou. Para a minha surpresa, não tínhamos parado em casa. Estávamos na porta de uma barbearia.

― Primeiro vamos cortar esse seu cabelo. ― Meu pai disse. ― Onde já se viu… homem que é homem usa cabelo curto.

Não… não… tudo menos isso… eu amava meu cabelo do jeito que estava… o Rafa amava meu cabelo do jeito que estava… ele estava grandinho… cobria minhas orelhas e se fechava em uma franja na minha testa. Eu não queria cortá-lo.

― Não pai… ― eu disse com a voz rouca. ― Não quero cortá-lo…

― Ah, mas você vai sim.

― Mãe… ― eu implorei.

― ―

273

― Filho… só vai… ― Ela respondeu estressada.

Me deu um aperto no peito… eu abaixei a cabeça e desci do carro depois do meu pai. Minha mãe tinha ficado lá dentro, ela não quis descer… talvez não quisesse me ver chorando enquanto o barbeiro passasse a tesoura nos meus cabelos.

Eu e meu pai entramos na barbearia e o barbeiro estava lendo uma revista.

― Como vai? ― Ele nos saudou. ― É o garoto que vai cortar o cabelo hoje? ― Ele perguntou.

― Sim. ― Meu pai respondeu.

O barbeiro, então, fez sinal para que eu me sentasse na cadeira infantil. Eu me sentei e ele me envolveu com uma toalha com desenhos de ursinhos.

― Como vai ser o corte? ― Ele perguntou.

― Passa a máquina um. ― Meu pai respondeu.

Nessa hora eu olhei desesperado para meu pai suplicando misericórdia. Tudo menos raspar a cabeça. Tudo menos raspar a cabeça… eu não aguentei e comecei a chorar. Na mesma hora, meu pai apertou meu braço e girou minha carne no belisco mais dolorido que eu já levara.

― Engole o choro. ― Ele disse seriamente.

Nessa hora não tinha nem como. A dor era tão grande que eu, literalmente, engoli meu choro. Me segurei para não soltar um pio sequer. Foi difícil. Foi muito difícil. A dor psicológica no meu peito era grande demais. Eu só queria que tudo acabasse logo… eu só queria que ele me aceitasse de uma vez… mas parece que isso ia demorar… talvez não acabaria nunca… talvez essa fosse minha vida daqui para frente… sofrer para sempre sem poder falar… sofrer para sempre sozinho.

O barbeiro percebeu a tensão no clima e olhou para meu pai, que devolveu um olhar de ódio. Ele, sem saber o que fazer, ligou a maquininha. O barulhinho que ela fazia era assustador. Agora era o fim. Agora não tinha mais volta. A próxima coisa que senti foi ela tocando minha testa e percorrendo toda minha cabeça. Senti um ventinho estranhamente frio no topo da minha cabeça, enquanto meus finos fios de cabelo caiam no meu roupão e atingiam os ursinhos com sorrisos falsos e inocentes.

Meu braço ainda doía por causa do belisco e meu choro estava todo engarrafado dentro de mim. E, mais uma vez, o barbeiro percorreu toda a extensão da minha cabeça com aquela máquina destruidora de sonhos.

Me olhei no espelho e vi meu reflexo horrível. Eu estava com uma cara de morte. Meus olhos pareciam duas pimentas e eu estava com olheiras. Eu estava branco… muito branco… muito pálido… a abstinência de sono estava me custando caro. Eu estava horrível…

E, agora, eu estava sem cabelo… sem dignidade nenhuma… sem liberdade de expressão… e eu não podia fazer nada a respeito. Não tinham condições do Rafa me amar desse jeito. Como eu poderia sair na rua assim? O que as pessoas iam falar? O que o pessoal da escola ia falar? Eu estava arrasado. Eu estava acabado. E, fio por fio, o barbeiro foi abrindo caminho na minha cabeça e me deixando careca.

Quando, finalmente ele terminou, pegou o espelho e foi atrás da minha cabeça, para mostrar como tinha ficado. E o que tinha para mostrar? Não tinha restado nada… toda minha dignidade estava no chão de uma barbearia no subúrbio de Ribeirão Preto. Toda minha vontade de viver estava sendo varrida para uma lixeira.

Meu pai sacou uma nota de dez reais e pagou o senhor, que agradeceu e se despediu da gente.

Entrei no carro com a cara fechada e emburrada. Cruzei meus braços e olhei para baixo. Agora eu estava com raiva… não que isso fosse mudar algo… mas… enfim… minha mãe, quando

― ―

274

me viu sem cabelo, não falou nada… mas eu sei que ela ficou mal. Ela percebeu que meu pai havia passado dos limites, mas não fez nada. Mais um motivo para me deixar enfurecido.

Ele deu partida e, dessa vez, realmente voltamos para casa. Ainda era de manhã. Todas as crianças normais estavam tendo aula. E eu estava aqui. Sem escola… sem família… sem namorado… sem ninguém…

Assim que entrei dentro de casa, fui o mais rápido possível para meu quarto. Precisava chorar… precisava por tudo para fora… entrei e bati a porta do quarto com tudo… com todas as minhas forças…

Eu estava com raiva, com ódio, com medo e até mesmo com vergonha… não sei bem o que estava sentindo… mas o meu desejo era de que tudo isso fosse apenas um pesadelo e que logo eu acordaria logo… mas não… isso era a vida real… e eu não sei qual seria meu futuro daqui para frente… mas bom não era…

Me joguei na cama e abracei meu travesseiro. Mordi ele para abafar meu grito repleto de emoções… e botei pra fora… chorei… e como chorei… chorei aos berros e aos gritos… eu não queria levantar dessa cama nunca mais.

E agora, não sei porquê, mas toda essa história de gostar de garotos parecia ser tão repugnante… eu me sentia uma aberração… por que eu não poderia gostar de garotas como todo mundo? Por que bem eu tinha que ser diferente… por que eu e o Rafa não arrumamos duas namoradas… ao invés de selar o nosso amor com aquele beijo de primavera? Por que eu tinha que passar por isso? Por que eu não podia ter pais tão adoráveis como os do Rafa?

E, por falar em Rafa, onde será que ele estava agora? O que será que ele estava fazendo? Eu tinha tanta coisa pra falar pra ele… fazia tanto tempo que a gente não se amava… o nosso último beijo sincero tinha sido à quarenta e oito horas atrás. E o fim de nosso amor tinha se dado por causa de uma fotografia. Uma droga de fotografia… tirada por Vicky… a traidora…

Peguei meu celular e procurei o contato do Rafa… eu ia ligar para ele… eu precisava falar com ele… eu precisava falar com alguém… quando ouvi meu pai me chamar.

― Lucas?

Ele me chamou e abriu a porta. Mas não disse nada, apenas se aproximou da minha cama. Eu olhei para ele com muita raiva. Minha vista estava embaçada por causa das lágrimas. Conforme ele ia se aproximando de mim, minha esperança ia aumentando… quem sabe ele não se sentaria ao lado da minha cama e pediria desculpas… mas não foi isso que aconteceu.

Ele chegou perto de mim e pegou o Teddy, que estava no chão ao lado da cama.

― E, a partir de agora, vamos começar a comprar umas coisas mais masculinas para você…

E assim, ele agarrou a cabeça do Teddy e puxou, rasgando meu ursão de pelúcia preferido em dois… o ursão de pelúcia que eu tanto amava… o presente que demonstrava o amor de Rafa por mim… o amor mais inocente do mundo…

Ele puxou a cabeça do Teddy com tanta força que, com o movimento brusco, fez com que nevasse espuma no quarto. E assim, junto com o Teddy, morria de vez minha esperança. Ele acabara de destruir o bichinho que eu mais amava no mundo… o bichinho com quem eu tinha dividido a cama por várias noites, quando sentia falta do Rafael…

Minhas lágrimas escorriam sem dificuldade nenhuma. Elas molhavam minha cama enquanto eu observava meu pai sair do meu quarto com um pedaço do Teddy em cada mão. Ele saiu, fechou a porta e provavelmente foi botar meu ursão na lata de lixo.

E assim, enquanto observava os flocos de espuma atingirem o chão do meu quarto, fechei os olhos e me atirei de vez na tristeza da depressão.

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Comentários

S

Sei não comentou:

Não sei vcs mas me deu vontade de matar o Pai do Lucas, eu to com um ódio dele que não tem tamanho esse cara se mostrou um MONSTRO, e Mãe dele é uma inútil, que deixa o filho sofrer ao invés de proteger

21/09/2022 21:44
F

Fênix negra comentou:

Nossa que triste 😢😢 Esperando ansiosamente pela continuação

21/09/2022 21:44
T

Tommen comentou:

Que pesado meu deusss, tadinho :{

21/09/2022 21:44